Seria muita “fantasiação” de minha parte falar desta grande obra, sobretudo depois de mestres como Roberto Schwarz e Davi Arrigucci Jr. “Talmente” disseram os dois, Grande Sertão escapa dos usuais conceitos críticos, numa inversão e mistura de vários planos (não só no nível da narrativa e do gênero discursivo, mas também em relação a aspectos do âmbito sexual, moral, político e metafísico). Mas como o próprio Riobaldo disse, “viver é negócio muito perigoso”, então me atrevo no risco de também dizer o meu cadinho.

Talvez – eu disse talvez – um critério pertinente para avaliar adequadamente o mérito de uma obra artística, no que se inclui a literatura, seja o seu possível desdobramento: uma obra que se desdobra no tempo e no espaço, em outras possibilidades, em outras obras, com um destaque que certamente ultrapassa critérios mais questionáveis utilizados correntemente para afirmar essa ou aquela obra como “boa” ou “má”, tais como modismos de mercado ou preferências de panelinhas.

Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, completa 70 anos e se desdobra em muitos destaques: continua sendo uma obra editada e reeditada, traduzida e adaptada em outras línguas ou gêneros discursivos (telenovelas, peças teatrais, HQ´s, canções etc.), transformada em tema de teses, artigos e em tantos outros livros primorosos (no que eu assinalo, para citar apenas um, o “Dicionário de Personagens de Grande Sertão: Veredas”, de Roberto Amaral e Douglas Barbosa Werneck). Sem falar no desdobramento de “pedaços” da saga rosena, segmentada em partes de seu texto que são difundidas e consumidas na forma de camisas, canecas, ecobags, memes…

Antes mesmo deste romance épico tomar forma de livro, de maneira um tanto mítica e mística, parecia até que seu autor pressentia tal desdobramento: conforme reproduzido na edição de “Grande Sertão: Veredas” (a 22ª. edição pela Companhia das Letras é de 2019), em carta escrita a seu amigo Azeredo da Silveira, Guimarães Rosa conta como se sentiu ao entregar finalmente a versão pronta e acabada do romance para a editora José Olympio: “foi uma verdadeira experiência transpísiquica, estranha, sei lá, eu me sentia um espírito sem corpo, pairante, levitando, desencarnado – só lucidez e angústia. (…) Passei dois anos num túnel, um subterrâneo, só escrevendo, só escrevendo, escrevendo eternamente”.
Acredito que esse desdobramento que faz de uma obra literária um clássico possa ter a ver, também, com as frases destacáveis que carrega em si. Trata-se da destacabilidade, uma característica típica de regimes enunciativos aforizantes, uma condição designada pelo linguista e analista de discurso Dominique Maingueneau, em livro intitulado “Frases sem Texto” (traduzido no Brasil por Sírio Possenti pela Parábola Editorial em 2014). A “destacabilidade” é um conjunto de propriedades de certas frases que as fazem ser destacadas e circular, eventualmente, fora do texto de que fizeram parte na origem.

Dentre essas propriedades, o valor generalizante e a estruturação pregnante (de forma e/ou de sentido) fazem essas frases se destacar, além do ethos de um orador que se assume como um sujeito soberano ao afirmar uma verdade universal e atemporal.
Assim, do texto de Rosa, como se extraídas de um rosário, destacam-se preciosas pérolas, frases que circulam para além de sua fonte original, difundidas em outros tempos e em outros espaços, a nos dizer “máximas” que fazem nossa cabeça e tocam nosso coração.
Como exemplos, eu destaco algumas das minhas frases preferidas, expressas, como diria Arrigucci Jr., nas “cismas” do narrador Riobaldo :
“O sertão está em toda a parte”.
“O sertão é do tamanho do mundo.”.
“Sertão: é dentro da gente.”.
“Sertão não é malino nem caridoso… ele tira ou dá, ou agrada ou amarga, ao senhor, conforme o senhor mesmo.
Tudo é e não é…”.
“As pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando”.
“Mocidade é tarefa para mais tarde se desmentir”.
“Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”.
“O que a vida quer da gente é coragem”.
Viver é um descuido prosseguido”.
“O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”.
“A vida é muito discordada. Tem partes. Tem artes”.
“Amor vem de amor”. Ítalo Calvino afirmou, em Por que ler os clássicos?, que algumas obras se impõem como inesquecíveis e se ocultam nas dobras da memória. Talvez possamos acreditar que a destacabilidade de suas frases contribua para fazer uma obra se desdobrar e se tornar um clássico. Os sertões e as veredas de Guimarães Rosa são exemplar quanto a isso, a requerer de velhos e novos leitores outras e outras e mais outras leituras. Menos que isso, nonada.
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