Embora a Física de Altas Energias seja conhecida por estudar questões extremamente complexas, o objetivo é responder perguntas que acompanham a humanidade há séculos: do que o Universo é feito? Como ele surgiu? Existem partículas ainda desconhecidas? O que é a matéria escura?
No Instituto Internacional de Física (IIF) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), essas perguntas fazem parte da rotina de pesquisadores e estudantes. O professor Farinaldo da Silva Queiroz coordena um grupo que desenvolve pesquisas em Física de Partículas e Astropartículas, investigando temas como matéria escura, neutrinos, raios gama, cosmologia e fenômenos que podem ir além do atual Modelo Padrão da Física.

Os estudos combinam teoria, simulações computacionais e análise de dados obtidos em aceleradores de partículas, detectores subterrâneos e observatórios astronômicos.
“Começamos recentemente a explorar o uso de equipamentos quânticos e técnicas de inteligência artificial para aumentar a sensibilidade dessas buscas”, explica.
Segundo o pesquisador, o objetivo é preparar a ciência para futuras descobertas. “Nosso foco é investigar como futuras gerações de experimentos poderão revelar fenômenos que vão além do Modelo Padrão da Física de Partículas, explorando a interdisciplinaridade entre áreas de pesquisa da Física”.
O pesquisador destaca ainda que a UFRN mantém grupos de pesquisa em Informação e Computação Quântica, Matéria Condensada, Física Matemática, Cosmologia e Física de Partículas, além de investir na formação de estudantes de graduação e pós-graduação e na internacionalização da pesquisa. “Isso permite que nossos alunos participem de projetos internacionais e tenham acesso às fronteiras do conhecimento”, pontua.
Da origem do Universo às tecnologias do dia a dia
Apesar de parecer distante da realidade das pessoas, a Física de Altas Energias está presente em diversas tecnologias utilizadas diariamente. Queiroz lembra que a internet surgiu no CERN para facilitar a comunicação entre cientistas e que pesquisas da área contribuíram para o desenvolvimento de exames médicos, processamento de imagens, computação de alto desempenho e inteligência artificial. “Estudantes de Altas Energias são constantemente recrutados por empresas multinacionais para trabalhar com análise de dados e inteligência artificial em função de suas formações”, ressalta.

O professor afirma que a crescente demanda por grandes centros de armazenamento de dados, impulsionada por plataformas de vídeo, computação em nuvem e redes sociais, também recebe importantes contribuições das pesquisas em Física de Altas Energias. Para Queiroz, o Brasil possui uma comunidade científica altamente qualificada e continua formando pesquisadores reconhecidos internacionalmente, mesmo diante das dificuldades de financiamento.
“O grande desafio é mostrar que a Física vai muito além da sala de aula. Ela está presente no desenvolvimento de novas tecnologias, da medicina, da inteligência artificial, nas telecomunicações e até mesmo na compreensão da origem do Universo”. Ele observa ainda que o interesse dos jovens pela Física tem aumentado, principalmente quando eles participam de atividades de divulgação científica, olimpíadas, escolas de verão e projetos experimentais.
Ao avaliar o momento vivido pela ciência, o professor demonstra otimismo. “Vivemos um momento particularmente empolgante para a Física. Novos experimentos, telescópios, aceleradores de partículas e técnicas de inteligência artificial estão ampliando nossa capacidade de explorar fenômenos que antes eram inacessíveis”. Ao concluir, o pesquisador completa: “Investir em Física de Altas Energias significa investir na inovação de longo prazo e na formação de recursos humanos altamente qualificados”.
Projeção mundial
De hoje (30) até o dia 5 de agosto, Natal será o centro das discussões sobre alguns dos maiores desafios da ciência mundial. A capital potiguar sediará a 43ª Conferência Internacional de Física de Altas Energias (ICHEP 2026), considerada o principal congresso internacional da área e realizada, pela primeira vez, na América Latina. O evento reunirá cerca de mil pesquisadores dos principais centros científicos do mundo para apresentar os resultados mais recentes sobre a estrutura da matéria, a origem do Universo e fenômenos ainda desconhecidos pela ciência.

Segundo o professor Queiroz, a realização da conferência representa o reconhecimento internacional da pesquisa brasileira e fortalece o papel da universidade na produção científica. “É a primeira vez que esse que é considerado o principal congresso mundial de Física de Altas Energias será realizado na América Latina”, destaca.
Para o pesquisador, a escolha de Natal é resultado de uma sequência de conquistas recentes. Em 2022, a cidade sediou o Encontro Nacional de Altas Energias, pela primeira vez fora do eixo Rio-São Paulo. No ano seguinte, a UFRN assinou um acordo de cooperação com o CERN, maior laboratório de Física de partículas do mundo. Em 2024, a universidade passou a integrar a rede internacional IDPASC e, no mesmo ano, o Brasil tornou-se membro associado do CERN.
“A expectativa é reunir aproximadamente mil pesquisadores dos principais centros científicos do mundo para discutir os resultados mais recentes da área”, afirma Queiroz.
Para ele, além do impacto científico, a conferência fortalece a visibilidade internacional da UFRN, do Rio Grande do Norte e do Brasil, amplia as colaborações entre pesquisadores e inspira novos estudantes a seguirem carreira científica. “A realização da ICHEP 2026 em Natal simboliza esse reconhecimento internacional e representa uma oportunidade única para aproximar a sociedade da ciência, inspirar novas gerações de pesquisadores e mostrar que investir em conhecimento é investir no futuro do país”, reforça.










Entre na discussão