
Considerados como membros das famílias, os cães quando adoecem geram sofrimento e transtornos aos seus tutores (ou pais). Na rotina dos hospitais e clínicas veterinárias, as doenças de pele figuram entre os problemas mais frequentes nesses animais. Muitas delas estão associadas a infecções bacterianas que exigem tratamentos prolongados e, nem sempre, eficazes.
Um estudo desenvolvido na Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa) resultou num xampu terapêutico desenvolvido a partir das folhas da cajazeira (Spondias mombin L.), planta nativa amplamente encontrada na região Nordeste. Os pesquisadores que inventaram o produto tiveram a carta patente concedida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) para essa tecnologia voltada à saúde animal.
A invenção representa mais do que uma conquista acadêmica. Ela reúne inovação, sustentabilidade, acessibilidade econômica e uma resposta promissora a um dos desafios mais preocupantes da medicina veterinária e da saúde pública mundial: a resistência bacteriana.
O projeto também serviu de base para a dissertação de Mara Gabriela Rubens (Foto principal), no Programa de Pós-Graduação em Ambiente, Tecnologia e Sociedade (PPGATS), com o título Potencial Fitoterápico de xampu a base de Spondias mombin L. no controle de piodermite canina. Ela foi orientada por Nilza Dutra Alves e Francisco Marlon Carneiro Feijó, ambos professores titulares no PPGATS.
A formulação é indicada para auxiliar no tratamento de dermatopatias bacterianas em animais, especialmente cães acometidos por piodermites, infecções de pele frequentemente difíceis de controlar.
Uma ideia que nasceu dentro da universidade
A história da pesquisa começou a partir de um edital de incentivo à inovação promovido pela Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação, em parceria com o Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT).

Segundo Feijó, que também é professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência Animal (PPGCA), o financiamento inicial permitiu que a equipe transformasse uma ideia em um produto com potencial de aplicação prática. “Recebemos recursos para desenvolver uma tecnologia inovadora. Após diversas discussões e testes, chegamos à formulação de um xampu terapêutico, principalmente porque os produtos disponíveis para problemas dermatológicos costumam ter custo elevado”, explica.
O desafio das infecções resistentes
Na rotina dos hospitais e clínicas veterinárias, as doenças de pele figuram entre os problemas mais frequentes em cães. Muitas delas estão associadas a infecções bacterianas que exigem tratamentos prolongados e, nem sempre, eficazes.
O alto índice e a dificuldade de tratamento das doenças de pele dos cães atendidos em hospitais e clínicas veterinárias foram fatores determinantes da pesquisa. A professora Alves destaca que as dermatites bacterianas representam um desafio constante para os profissionais da área. “Existem situações clínicas de difícil resolução e muitos medicamentos disponíveis apresentam custos elevados ou resultados limitados. Nós procurávamos uma alternativa que fosse eficiente, segura e economicamente viável para os tutores”, afirma.
O primeiro passo foi avaliar, em laboratório, a capacidade antimicrobiana dos compostos extraídos das folhas da cajazeira. Os resultados animaram os pesquisadores.
A força escondida nas folhas da cajazeira
A escolha da planta não aconteceu por acaso. A cajazeira pertence à mesma família botânica do cajueiro e possui compostos bioativos conhecidos por suas propriedades antimicrobianas. Entre eles está o ácido anacárdico, substância capaz de inibir o crescimento de diversos microrganismos.
Para obter esses compostos, os pesquisadores desenvolveram um processo de extração utilizando o decocto das folhas – técnica semelhante ao cozimento controlado do material vegetal para liberar seus princípios ativos.
Os testes revelaram resultados expressivos contra bactérias de grande relevância clínica, como o Staphylococcus aureus, frequentemente associado a infecções dermatológicas e conhecido pela resistência a múltiplos antibióticos.
A formulação também demonstrou atividade contra a Pseudomonas aeruginosa, considerada uma das bactérias mais problemáticas no cenário mundial devido à sua elevada capacidade de resistência.
“Hoje, a resistência bacteriana é apontada pela Organização Mundial da Saúde como um dos maiores desafios para a saúde global. Conseguir desenvolver um produto capaz de atuar contra esses microrganismos representa um avanço importante”, ressalta Feijó.
Da bancada para os pacientes
Após os resultados laboratoriais, a equipe avançou para os testes clínicos em cães diagnosticados com dermatites bacterianas. Os animais passaram a receber aplicações periódicas do xampu, seguindo protocolos semelhantes aos banhos já realizados rotineiramente pelos tutores.

Ao longo de mais de um ano de acompanhamento, os pesquisadores observaram melhora significativa dos quadros clínicos, incluindo redução de coceira, descamação, mau odor, queda de pelos e lesões cutâneas.
Além da eficácia terapêutica, outro aspecto chamou atenção: a aceitação do produto pelos animais e seus responsáveis. “O xampu foi muito bem aceito. Não observamos reações adversas ou irritações. Os tutores relatavam satisfação com os resultados e muitos queriam continuar utilizando o produto mesmo após o término da pesquisa”, conta a professora.
Parte desse sucesso também está relacionada ao processo de desenvolvimento da formulação. A equipe realizou diversos testes até encontrar a combinação ideal entre os compostos da planta e os demais ingredientes do xampu. O resultado foi um produto com aroma agradável, textura adequada e boa aceitação durante o uso.
Inovação sustentável e de baixo custo
Outro diferencial da tecnologia está na sua origem vegetal e regional. Ao utilizar uma espécie abundante no Semiárido, a pesquisa valoriza a biodiversidade nordestina como fonte de inovação tecnológica, ao mesmo tempo em que reduz a dependência de insumos mais caros e potencialmente mais agressivos ao meio ambiente.
Os pesquisadores destacam que o uso de compostos naturais pode contribuir para tratamentos mais sustentáveis e acessíveis. “Estamos falando de uma alternativa que reúne eficiência, menor custo e aproveitamento de recursos da nossa própria região”, destaca Feijó.
O próximo passo: chegar à sociedade
Com a patente concedida pelo INPI e validade de 20 anos, o desafio agora é transformar a inovação acadêmica em um produto disponível para o mercado. A expectativa é que a tecnologia possa ser transferida para empresas interessadas na produção em escala comercial.
“Nossa missão dentro da universidade não termina na pesquisa. Precisamos fazer com que o conhecimento gerado aqui chegue à sociedade. O próximo passo é buscar parceiros que possam viabilizar a produção e a comercialização desse produto”, explica o pesquisador.
Para Alves, o maior valor da conquista está justamente no impacto social que ela pode gerar. “Tudo o que fazemos na universidade deve retornar para a população. Quando formamos um profissional, produzimos conhecimento ou desenvolvemos uma tecnologia, nosso objetivo final é melhorar a vida das pessoas. Nesse caso, estamos oferecendo uma alternativa para uma necessidade real da sociedade”, afirma.
Mais do que uma nova patente, o xampu terapêutico desenvolvido na UFERSA simboliza o encontro entre ciência, inovação e compromisso social. Um exemplo de como a biodiversidade do Semiárido pode se transformar em conhecimento, tecnologia e benefícios concretos para a saúde animal.
Além dos já mencionados, o produto foi desenvolvido pelos pesquisadores Caio Sérgio Santos, Hugo Maciel de Faria e Alexsandra Fernandes Pereira.
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