Ausência de notificação dificulta conhecimento da dimensão real da Dirofilariose Canina no Brasil

Rex tinha apenas quatro anos. Sem raça definida, era daqueles cães que esperavam o tutor chegar em casa todos os dias. Nos últimos meses, passou a cansar durante os passeios. Depois veio uma tosse persistente, seguida pela dificuldade para respirar. Um dia, simplesmente não resistiu. Sem exames específicos, a causa da morte permaneceu desconhecida.

Rex nunca existiu. Mas sua história poderia ser a de inúmeros de cães que nascem no Brasil. Em muitos casos, doenças como a dirofilariose canina podem não ser investigadas, especialmente quando os sinais clínicos se confundem com outras enfermidades e não há exames complementares capazes de confirmar o diagnóstico.

Enquanto pesquisadores seguem reunindo evidências da circulação da dirofilariose em diferentes regiões do país, permanece sem resposta uma pergunta essencial: quantos animais vivem ou morrem sem que seja sequer considerado como hipótese diagnóstica? Até que essa resposta venha por meio de um sistema nacional de vigilância, serão a ciência e os pesquisadores que continuarão iluminando uma realidade ainda invisível para as estatísticas oficiais.

A história acima é fictícia, mas poderia ser real. Em hospitais e clínicas veterinárias de todo o país, muitos cães apresentam sinais compatíveis com diferentes doenças cardíacas e respiratórias. Em parte desses casos, a dirofilariose canina, conhecida como “verme do coração”, pode nem sequer ser considerada entre as hipóteses diagnósticas, especialmente quando faltam exames complementares ou quando a enfermidade passa despercebida.

É justamente essa invisibilidade que preocupa pesquisadores. Embora a circulação do parasito esteja documentada em diversas regiões brasileiras, o país ainda não dispõe de um sistema nacional de vigilância epidemiológica capaz de informar quantos cães convivem com a doença. Sem dados oficiais, são as universidades e os estudos científicos que vêm revelando uma realidade que permanece, em grande medida, fora das estatísticas.

Quando a ciência revela o invisível

A verdadeira dimensão da dirofilariose canina no Brasil ainda é desconhecida. O nematoide Dirofilaria immitis causador da doença circula silenciosamente em praticamente todas as regiões do país. Está documentada em dezenas de pesquisas científicas, preocupa médicos-veterinários, pode afetar seres humanos e encontra condições favoráveis para se expandir. Ainda assim, ninguém sabe quantos cães estão infectados no país. O motivo é simples e inquietante: a doença não integra o Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica (SNVE). Sem notificação compulsória, a principal fonte de informação continua sendo aquilo que pesquisadores conseguem produzir em universidades, hospitais veterinários e laboratórios.

Diferentemente de outras enfermidades de importância veterinária, sem a notificação significa que milhares de casos podem permanecer fora das estatísticas, dificultando a compreensão da distribuição da parasitose e a elaboração de políticas públicas de prevenção e controle.

Transmitida por mosquitos, a dirofilariose canina pode provocar graves lesões no coração e nos pulmões dos cães e, embora raramente, também pode infectar seres humanos. Mesmo assim, é difícil saber com precisão quantos animais convivem hoje com a dirofilariose no país.

O motivo revela um paradoxo que desafia pesquisadores e médicos-veterinários há anos. Apesar de ser considerada uma enfermidade endêmica em diversas áreas brasileiras e possuir importância para a saúde animal e para a Saúde Única (One Health), a dirofilariose canina permanece fora da Lista Nacional de Notificação Compulsória.

Professora Ana Carla Bezerra: A ausência de notificação oficial dificulta a obtenção de dados precisos sobre a ocorrência da dirofilariose canina.

Para Ana Carla Diógenes Suassuna Bezerra, professora Associada do curso de Medicina Veterinária da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), em Mossoró, no Rio Grande do Norte, essa lacuna representa um dos principais desafios para o enfrentamento da doença. “A ausência de notificação oficial dificulta a obtenção de dados precisos sobre a ocorrência da dirofilariose canina. Sem informações epidemiológicas consistentes, torna-se difícil identificar áreas de maior risco, monitorar a expansão da patologia e direcionar adequadamente ações de prevenção e controle”, opina a professora.

Segundo a pesquisadora, a falta de registros oficiais produz um efeito ainda mais preocupante: cria a falsa impressão de que a enfermidade é rara. “A subnotificação pode levar à falsa percepção de que a doença é pouco relevante, quando, na realidade, pode estar presente em diversos municípios sem ser devidamente diagnosticada ou registrada”.

Registros

Se as estatísticas oficiais ainda não conseguem revelar a dimensão do problema, a rotina do Hospital Veterinário Paulo Fernandes Cisneiro da Costa Reis (Hovet/Ufersa) começa a lançar luz sobre essa realidade. Embora a instituição não mantenha um sistema formal de notificação da doença, os registros clínicos realizados durante exames e atendimentos revelam que a presença do verme do coração está longe de ser um evento isolado.

O pesquisador Joao Marcelo aponta o problema na imagem de ultrassonografia. (Foto: Analice Sousa)

Médico veterinário radiologista do Hovet, João Marcelo Azevedo de Paula Antunes, que é pós-doutor em sanidade animal, pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ciência Animal (PPGCA/Ufersa – Capes 6), ele acompanha de perto esses diagnósticos. Somente entre abril e junho deste ano, foram identificados 18 casos positivos de dirofilariose em 185 exames de ecocardiografia realizados na unidade.

Na clínica médica, outros 15 cães apresentaram resultado positivo para microfilárias, seja por teste rápido, seja pela análise em lâmina, entre cerca de 200 atendimentos realizados por médicos-veterinários residentes.

Os números não representam um levantamento epidemiológico da região, mas funcionam como um importante indicativo da circulação do parasito entre os animais atendidos pelo hospital. Outro aspecto destacado pelo pesquisador é a importância dos exames de imagem para confirmar o diagnóstico e avaliar a evolução da doença. Mesmo quando o teste rápido é positivo, o exame de imagem é fundamental. É ele que permite identificar os vermes adultos no coração e nas artérias pulmonares, avaliar se o animal já desenvolveu hipertensão pulmonar e determinar o estágio da enfermidade”, pontua.

Antunes explica ainda que muitos diagnósticos acontecem de forma inesperada. “Muitas vezes o animal chega ao hospital para investigar outro problema ou realizar uma cirurgia. Durante a ecocardiografia, acabamos descobrindo a dirofilariose”, conta.

Para o veterinário, essa realidade reforça a possibilidade de que muitos cães convivam com o parasito sem apresentar sinais clínicos evidentes ou sequer sejam submetidos aos exames adequados.

Transformar casos em informação

A preocupação é compartilhada pelo presidente do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Rio Grande do Norte (CRMV-RN), Nirley Vercelly Lopes Formiga, que considera a ausência de notificação um obstáculo para o conhecimento da doença. “A ausência de notificação da dirofilariose representa um desafio importante porque dificulta o conhecimento real da distribuição e da frequência da doença. Quando uma enfermidade não é monitorada adequadamente, os dados ficam subestimados e isso prejudica a elaboração de políticas públicas, ações de prevenção e estratégias de controle”.

Ainda segundo Formiga, mesmo sem conhecer a dimensão exata do problema, os casos identificados já justificam maior atenção das autoridades sanitárias. “A vigilância epidemiológica transforma casos isolados em informação capaz de orientar decisões e proteger a saúde animal e, consequentemente, a saúde das pessoas”, considera o representante da classe de médicos veterinários.

Problema nacional

Essa preocupação ultrapassa as fronteiras do Rio Grande do Norte. Pesquisadora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e referência em parasitologia animal, a professora Raquel de Oliveira Simões afirma que a ausência da dirofilariose nos sistemas oficiais de vigilância limita o conhecimento sobre a enfermidade em todo o país. “Sem dados sistematizados, torna-se mais difícil acompanhar sua ocorrência, identificar áreas de maior risco e avaliar possíveis mudanças em sua distribuição ao longo do tempo”, coloca Simões.

A professora também alerta para outro problema: o subdiagnóstico. “Nos cães, muitos animais podem apresentar poucos sinais clínicos ou até serem assintomáticos. Mesmo assim, continuam atuando como reservatórios do parasito, contribuindo para a transmissão por mosquitos vetores”. Para a pesquisadora, integrar a dirofilariose aos sistemas oficiais de vigilância epidemiológica seria um passo importante para compreender a real dimensão da enfermidade e fortalecer as estratégias de prevenção.

Enquanto isso não acontece, a ciência continua desempenhando um papel essencial. São as pesquisas desenvolvidas nas universidades, os estudos clínicos e a observação cotidiana de médicos-veterinários que vêm revelando uma realidade que ainda permanece invisível para as estatísticas oficiais.

Cada novo diagnóstico, cada caso investigado e cada pesquisa concluída ajudam a montar o quebra-cabeça de uma doença silenciosa que, apesar de pouco conhecida pela população, circula entre os cães e exige vigilância permanente. São esses estudos que, pouco a pouco, vêm revelando evidências da circulação do Dirofilaria immitis – “verme do coração” – e indicando que sua distribuição pode ser muito maior do que sugerem os registros disponíveis.

Fora da lista de notificação obrigatória

A atualização da Lista Nacional de Notificação Compulsória, publicada pelo Ministério da Saúde em maio de 2026, manteve a dirofilariose fora dos agravos monitorados nacionalmente. A ausência reforça um cenário de descaso apontado por especialistas: enquanto existem evidências científicas da circulação do parasito em diferentes estados brasileiros, faltam dados oficiais consolidados capazes de dimensionar a magnitude do problema.

Essa lacuna repercute diretamente na produção de conhecimento e na formulação de políticas públicas. Sem informações epidemiológicas abrangentes, torna-se difícil identificar áreas prioritárias para prevenção, acompanhar a expansão da doença ou avaliar o impacto das estratégias de controle.

Pesquisas denunciam o que as estatísticas não mostram

Embora a dirofilariose canina continue sem um sistema nacional de vigilância epidemiológica, a ciência brasileira vem produzindo evidências consistentes de que a doença está mais disseminada do que sugerem os registros oficiais. Estudos publicados nos últimos anos revelam a expansão geográfica do parasito, a influência das mudanças ambientais, o impacto da mobilidade de cães entre diferentes regiões e a necessidade de integrar a saúde animal, humana e ambiental na prevenção da enfermidade.

A professora Raquel de Oliveira Simões e alguns alunos pesquisadores da UFFRJ.

Para a professora Simões, PhD em Parasitologia Animal da UFRRJ, o avanço da doença exige maior atenção das autoridades sanitárias. “Ainda é necessária uma atenção maior, principalmente de políticas públicas e da vigilância epidemiológica. Sabemos que as regiões litorâneas e áreas de mata tendem a apresentar maior ocorrência da parasitose devido à presença do mosquito vetor. Porém, há uma crescente de casos registrados em áreas urbanas, indicando o poder de expansão dessa doença. Por isso é importante fortalecer o monitoramento, a prevenção e a conscientização da população, principalmente em regiões consideradas endêmicas, sem negligenciar outras áreas onde a transmissão também pode ocorrer”.

A avaliação da pesquisadora encontra respaldo no artigo The Distribution, Diversity, and Control of Dirofilariosis in Brazil: A Comprehensive Review, publicada em 2024 na revista Animals por Marianna Laura Elis Chocobar, Elizabeth Moreira dos Santos Schmidt, William Weir e Rossella Panarese. Após reunir e analisar estudos desenvolvidos em diferentes estados brasileiros, os autores concluem que a dirofilariose permanece subestudada no país, apesar de existirem registros da doença em todas as regiões. A revisão aponta grandes lacunas no conhecimento sobre sua distribuição real e defende a adoção do conceito de Saúde Única (One Health), reconhecendo a estreita relação entre a saúde dos animais, das pessoas e do meio ambiente.

Os levantamentos epidemiológicos reforçam esse cenário. Um dos maiores já realizados no Brasil foi publicado em 2024 na revista Frontiers in Veterinary Science. Intitulado Epidemiological analysis of Dirofilaria immitis infecting pet dogs in Baixada Fluminense, Rio de Janeiro, o estudo foi conduzido por Viviane Marques de Andrade Vieira, Priscila Pinho da Silva, Érica Tex Paulino, Priscila do Amaral Fernandes, Norma Labarthe, Gilberto Salles Gazêta e Antonio Henrique Almeida de Moraes Neto.

Os pesquisadores analisaram 16.314 exames hematológicos realizados entre 2017 e 2020 em cães atendidos em clínicas veterinárias da Baixada Fluminense. O levantamento identificou 554 animais positivos, correspondendo a uma prevalência de 3,4%, demonstrando que a infecção permanece ativa mesmo em áreas tradicionalmente reconhecidas como endêmicas e reforçando a necessidade de monitoramento contínuo.

Enquanto pesquisadores da Baixada Fluminense investigavam a persistência da doença em uma área historicamente endêmica, outro grupo voltou a atenção para o litoral nordestino. Publicado em 2024 na Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária, o artigo Dirofilaria immitis in dogs from the coastal tourist region of the state of Alagoas, Brazil, de Walter Franklin Bernardino Leão Filho, Viviane Melo Coelho Barros e colaboradores, avaliou 426 cães distribuídos em 15 municípios litorâneos de Alagoas.

O estudo encontrou prevalência de 12,7% e demonstrou que cães com histórico de viagens apresentavam 3,52 vezes mais chances de infecção, indicando que a circulação de animais em regiões turísticas pode favorecer a dispersão do parasito. Os autores recomendam maior vigilância epidemiológica e ações preventivas permanentes.

As transformações ambientais também aparecem como fator determinante para a expansão da enfermidade. No estudo Microgeographical Variation in Dirofilaria immitis Prevalence in Dogs in Suburban and Urban Areas of Rio de Janeiro, Brazil, publicado por Marianna Laura Elis Chocobar, Elizabeth Moreira dos Santos Schmidt, Ângelo Joel Ferreira Mendes, Paul Christopher Duncan Johnson, William Weir e Rossella Panarese na revista Veterinary Sciences, os pesquisadores compararam cães de áreas urbanas e suburbanas do estado do Rio de Janeiro utilizando métodos parasitológicos, sorológicos e moleculares. A pesquisa demonstrou prevalência significativamente maior nas áreas suburbanas (14,47%) em comparação às áreas urbanas (6,17%), evidenciando que pequenas alterações ambientais podem modificar intensamente a dinâmica de transmissão da doença.

Constatação

Apesar do avanço científico, a realidade observada na rotina clínica ainda evidencia a ausência de uma estrutura nacional de monitoramento. A professora Nilza Dutra Alves, da Clínica Médica de Pequenos Animais do Hovet/Ufersa, afirma que essa lacuna também é percebida nos serviços veterinários. “Não existe nenhum protocolo para prevenir nem para notificar a dirofilariose. Como não é uma doença de notificação obrigatória em cães, nós também não dispomos de dados oficiais sobre incidência ou prevalência”.

Professora Nilza Alves: não dispomos de dados oficiais sobre incidência ou prevalência.

Na Ufersa, entretanto, o interesse científico pelo tema continua crescendo. Segundo o médico-veterinário Antunes, a universidade vem ampliando sua participação nas pesquisas sobre a enfermidade. “Temos um mestrado defendido e estamos desenvolvendo pesquisas em parceria com o professor Leucio Alves, da UFRPE, que é a maior autoridade em dirofilariose canina no Brasil”, pontuou.

Os resultados produzidos por diferentes grupos de pesquisa convergem para uma mesma conclusão: o Brasil dispõe hoje de conhecimento científico suficiente para compreender a expansão da dirofilariose. O grande desafio já não é descobrir onde a doença existe, mas transformar esse conhecimento em políticas permanentes de vigilância, prevenção e controle, dentro da perspectiva da Saúde Única.

Mais vigilância, mais prevenção

Depois de décadas de pesquisas, uma certeza já se consolidou entre médicos-veterinários e pesquisadores: a dirofilariose pode ser prevenida. O maior desafio não está na falta de conhecimento científico, mas em transformar esse conhecimento em informação acessível à população, vigilância epidemiológica permanente e políticas públicas capazes de reduzir a circulação da doença.

Para a professora Bezerra, a prevenção começa pela conscientização dos tutores. “É de grande importância estimular a atenção dos tutores e profissionais da saúde animal sobre a importância da prevenção. Como a dirofilariose é transmitida por inseto, medidas de controle vetorial, uso de medicamentos preventivos e realização periódica de exames nos animais são estratégias importantes, fazendo com que essas medidas possam reduzir o risco de transmissão e disseminação da doença”.

Ela alerta que o desconhecimento ainda é um dos maiores aliados da enfermidade. “Muitos tutores não sabem que a doença existe, desconhecem as formas de transmissão e, consequentemente, não adotam medidas preventivas. Assim, quanto menor o conhecimento da população sobre a doença, maior a probabilidade de animais infectados permanecerem sem diagnóstico e sem tratamento, contribuindo para a continuidade do ciclo de transmissão”, avalia.

Nirley Formiga, presidente do CRMV/RN.

Na avaliação da professora Simões, combater uma doença cuja dimensão real ainda é desconhecida exige a combinação de prevenção, diagnóstico precoce e educação em saúde. “Medicamentos preventivos e tratamento eficaz já são muito bem estabelecidos dentro da medicina veterinária. Porém, é de extrema importância ampliar o conhecimento da população a respeito dessa enfermidade, dos meios de transmissão e das formas de prevenção. Muitos tutores ainda desconhecem os riscos da dirofilariose. Investir em educação em saúde, no acompanhamento veterinário regular e em campanhas preventivas é fundamental para reduzir a ocorrência da doença”.

A professora Alves lembra que medidas simples podem fazer grande diferença na proteção dos animais. “A forma de prevenção mais eficiente é utilizar coleira repelente para manter afastado do animal o mosquito transmissor. Outra medida importante é manter o ambiente sempre limpo, sem acúmulo de lixo e sem água parada. São cuidados semelhantes aos adotados para evitar doenças como a dengue.

Para o presidente do CRMV/RN, Formiga, o enfrentamento da dirofilariose depende da união entre ciência, profissionais de saúde, poder público e sociedade. “O combate depende de uma combinação de medidas: ampliar o diagnóstico, estimular a notificação dos casos, capacitar profissionais, promover educação da população e fortalecer ações de controle dos mosquitos transmissores. A vigilância epidemiológica é justamente a ferramenta que transforma casos isolados em informação capaz de orientar decisões e proteger a saúde animal e, consequentemente, a saúde das pessoas”, acredita.

Conclusão compartilhada

Ao longo desta reportagem, pesquisadores de diferentes instituições, profissionais da clínica veterinária e representantes da categoria convergiram para uma mesma conclusão. Enquanto o Brasil ainda não dispõe de um sistema nacional de vigilância específico para a dirofilariose canina, a ciência vem preenchendo parte dessa lacuna, revelando onde a doença ocorre, como ela se expande e quais estratégias podem reduzir sua transmissão. Cada estudo publicado, cada diagnóstico realizado e cada novo caso investigado ajudam a tornar visível uma enfermidade que, por muitos anos, permaneceu escondida nas estatísticas. Mas nenhuma pesquisa será suficiente se a informação não chegar a quem convive diariamente com os cães.

No início desta reportagem, conhecemos a história de Rex. Como tantos outros animais, ele parecia saudável até que os primeiros sinais surgiram. Quando o diagnóstico finalmente revelou a presença do “verme do coração”, a doença já havia percorrido silenciosamente um caminho difícil de ser revertido.

Animal atendido no Hospital Veterinário Paulo Fernandes Cisneiro da Costa Reis (Hovet/Ufersa).

Rex representa milhares de cães brasileiros que jamais aparecerão nas estatísticas oficiais. Alguns sobreviverão graças ao diagnóstico precoce. Outros talvez nunca descubram a causa de sua enfermidade. É justamente para que essas histórias deixem de se repetir que pesquisadores continuam investigando, médicos-veterinários seguem aperfeiçoando o diagnóstico e instituições defendem mais vigilância, mais educação e mais prevenção. Porque, quando o assunto é dirofilariose, o maior risco continua sendo aquilo que ainda não conseguimos enxergar.

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