Um estudo publicado na Scientific Reports investigou a trajetória de homens e mulheres que alcançaram posições de liderança na conservação da biodiversidade e encontrou uma diferença central: as experiências profissionais e familiares são mais semelhantes do que se esperava, mas a percepção dos obstáculos enfrentados ao longo da carreira é bastante distinta.
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Entre 556 líderes identificados pelos pesquisadores, 118 responderam ao questionário, 54 mulheres e 64 homens. Embora os dois grupos apresentem histórias de vida numericamente semelhantes, incluindo idade ao casamento, idade ao ter filhos, número de filhos e profissão dos companheiros, as mulheres relataram obstáculos relacionados a gênero e família com muito mais frequência. Entre elas, 62% apontaram questões de gênero e família como desafios importantes, enquanto os homens mencionaram principalmente financiamento e restrições do sistema acadêmico.
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O levantamento identificou ainda 556 pesquisadores considerados líderes, dos quais menos de 30% eram mulheres.
A pesquisadora sozinha com sua tese
O trabalho nasceu durante o doutorado de Júlia Tovar Verba, no Programa de Pós-Graduação em Ecologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), a partir de conversas com outras pesquisadoras sobre a presença de mulheres em posições de liderança. A pesquisa reuniu integrantes de um grupo formado majoritariamente por mulheres, que mantinham forte colaboração durante o doutorado. “O doutorado pode ser muito solitário, e o grupo ajudava a não passar por isso sozinha”, relata Verba.

As pesquisadoras compartilhavam experiências de campo, leituras, artigos e dificuldades da própria formação. A ideia do artigo começou principalmente nas conversas entre Verba e Marina Vergara Fagundes, a partir do interesse em compreender como mulheres que eram referências na área haviam conseguido chegar a posições de liderança.
Uma das hipóteses era que as mulheres que chegavam à liderança apresentariam trajetórias familiares diferentes das dos homens. Os resultados, porém, mostraram grande proximidade em aspectos como idade, casamento, idade dos filhos e número de filhos.
Trajetórias familiares são semelhantes entre mulheres e homens
Entre as mulheres, 22% declararam não ter filhos, contra 14% dos homens, diferença que não foi estatisticamente significativa. Verba ressalta que os dados não permitem concluir que mulheres tenham aberto mão da maternidade para avançar na carreira: as razões individuais não foram investigadas e algumas podem ter escolhido não ter filhos.

As diferenças aparecem com mais força nas condições de trabalho. Atividades comuns na conservação, como trabalho de campo, viagens, congressos e expedições, podem ampliar desigualdades relacionadas à responsabilidade pelo cuidado, segurança e infraestrutura. Outra preocupação delas é também considerar questões de segurança quando integram equipes formadas majoritariamente por homens.
Para Verba, essas barreiras começam antes da liderança e podem acompanhar a pesquisadora desde a graduação. “Os números podem ser semelhantes, mas a experiência no dia a dia não é a mesma”, afirma. A pesquisadora também defende que a ciência valorize outras formas de liderança, como a formação de pessoas e a construção de colaborações, além de critérios tradicionais de produtividade.
Pesquisa propõe ampliar os critérios de liderança
O artigo também aponta que os critérios utilizados para identificar lideranças podem influenciar a composição do grupo. Segundo a pesquisadora, critérios como formação de novos pesquisadores, construção de colaborações e contribuição para a capacitação de pessoas poderiam reconhecer outras formas de liderança e eventualmente produzir uma proporção diferente de mulheres.

O estudo teve início por volta de 2017 e 2018 durante o doutorado das pesquisadoras. Na etapa final, pesquisadoras ligadas ao movimento Parent in Science contribuíram para ampliar o trabalho.
O grupo que deu origem à pesquisa também seguiu caminhos diversos. Algumas integrantes permaneceram na academia ou passaram a atuar em órgãos ambientais, enquanto outras seguiram para organizações, projetos de conservação ou outras atividades profissionais. Para a ecóloga, essa trajetória coletiva é parte importante da pesquisa: mais do que investigar quem chega à liderança, o estudo mostra como diferentes condições de trabalho e de vida podem influenciar o caminho percorrido até lá.










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