Terão as empresas que se transformar em centros de capacitação? Empreendedorismo Inovador

quarta-feira, 16 outubro 2019

Ao insistir no caminho de não educar para o Mercado, a Universidade caminha para a obsolescência programada

Não preciso dizer o quão anda errado o caminho perseguido por nossa Universidade (novamente, utilizarei o “u” em maiúsculo para indicar o coletivo de universidades), distante anos-luz da Sociedade, insistindo em desenvolver uma Ciência para agradar a “gringos”, deixando de adaptar aqui tecnologias já validadas em outros cantos, tecnologias estas que poderiam resolver as broncas de nosso mundo brasilis rapidamente. Esse caminho, se partido da própria Universidade, poderia ser chamado de Inovação Acadêmica. Não há necessidade de geração de nota fiscal de forma explícita, como prega a inovação “raiz”, mas um direcionamento mais contundente e transparente desse potencial para quem paga a conta no final. Gerar eficientemente desempregados e, agora, “startups” não sustentáveis orientadas a aplicativos, tá ficando caro e sem sentido. Deixei isso patente em Ciência, tecnologia e inovação: ordem errada! .

Nas áreas das ciências aplicadas – quero deixar claro que não me meto nas puramente sociais e humanas, por total desconhecimento de caso – ao se insistir nesse caminho, o de não se educar para o Mercado, a Universidade caminha para a obsolescência programada, criando na sequência o que a turma da política chama de vácuo de poder. Ou seja: se o espaço foi aberto, alguém irá preenchê-lo de forma rápida e com força pois, por ser uma questão física, vácuo não existe! E já que o preenchimento desse gap acontecerá de modo avassalador, será modificador e, possivelmente, com mortes institucionais! E já está acontecendo!

Nesta aula condensada number 64, revelarei o que antevejo como panorama para o longínquo ano de 2020. Falta muito tempo ainda, galera. Portanto, não se desesperem!!!

A distância entre os mundos

Vamos usar a lógica cartesiana para explicar o que quero dizer. Afinal, mostrei em Quer que eu desenhe? que nosso “cocuruto” gosta mais de imagens do que palavras.

Olhando para essa figura que representa minha visão – minha, pessoal! – de caminho científico, tecnológico e inovador, coloquei lá as abreviaturas DMC, DMT e DMI, para designarem, respectivamente, a distância entre Mundo Real e a Ciência, Mundo Real e a Tecnologia e Mundo Real e a Inovação. Como sustento a tese da “inclusão máxima”, na qual defendo que o mundo será um lugar justo quando as palavras “Sociedade” e “Mercado” forem utilizadas como sinônimos, de modo que cidadão e cliente sejam termos intercambiáveis em Novos tempos, novo mindset, utilizarei a expressão “Mundo Real” para designar tanto Mercado quanto Sociedade. Agora que apresentei os termos da figura, vamos às ilações.

Como era de se esperar, pode-se ver que a DMC é muito maior do que a DMI. E aí temos o seguinte horizonte:

  • A inovação é feita no Mundo Real pelas empresas, que são seus canais naturais de inserção.
  • A maioria esmagadora da sociedade tem acesso à empresas. Não sabe, ou imagina, o que faz uma universidade.
  • Mundo Real clama por soluções; não por Ciência.
  • Mundo Real busca por profissionais capazes de gerar soluções para atuarem em empresas, não para atuarem na Universidade.
  • A Universidade forma pessoas com metodologia própria do passado. Ultrapassada, imprópria para Mundo Real, onde o presente fica sempre atropelando o futuro. Há um descompasso temporal matador!
  • Com toda tecnologia hodierna, não existe a expressão, muito usada na academia, “Vamos submeter isso àquele edital de financiamento de 36 meses e planejar um experimento”. O parque industrial altamente dinâmico, recheado de startups e pressionado por Mundo Real, fala: “Construí em uma semana, testei e não funcionou. Vamos testar a segunda versão em três dias!”. Dá para ter ideia da diferença dos custos de escopo, financeiro e de tempo entre as duas abordagens?

Minha visão dos caminhos científico, tecnológico e inovador.

Conclusão: o percurso intrínseco ditado pelo triângulo de ferro (escopo, tempo e financeiro) representado pela DMC – a distância de Mundo Real até onde se faz Ciência – para achar, atrair e qualificar um profissional é muito maior do que a DMI, a distância entre Mundo Real e a Inovação. Resultado: as empresas, que já perceberam isto, estão começando a formar o profissional em seus núcleos, criando ou se associando a instâncias capazes de formar o profissional mais próximo de si, mais rapidamente e de modo mais consistente. Nada melhor do que quem está em Mundo Real para entender suas próprias necessidades. Aponto essa vibe em Bootcamp: aprendizagem intensiva, acelerada e verdadeira em campo.

E não é só isso, meus amigos: professores, com visão de Mercado, atraídos por desafios, melhores remunerações, e pelo cansaço produzido pela escrita de artigos “para revistas com índice de impacto cem mil”, que ninguém nunca vai ler, estão começando a migrar do círculo azul para o laranja, percorrendo o Eixo da Realidade, pois “a aventura está lá fora”.

Na última visita que fiz ao Porto Digital encontrei uma dezena de professores da UFPE reduzindo seus perfis de dedicação exclusiva para 20 horas (para quase um quarto do salário na universidade) em busca de novas aventuras, pois a massante e previsível sala de aula já está começando a ficar insossa, de tão desatualizada. Em nosso grupo de Negócios Tecnológicos, por exemplo, temos dois professores que pediram licença sem vencimentos da UFRN para tocarem suas respectivas startups. Eu mesmo já fui sondado por estrutura do Sistema-S baiano para conversar. Meu projeto de vida, entretanto, me amarra muito aqui ainda. Mas a pressão está subindo…

Se o ensino já está “trocando de prédio”, o que dizer do processo de criação de empresas então? Descrevo isto em Market inside Market, onde falo que muitas gigantes do setor estão tocando a criação de suas próprias startups. Novos tempos…

Resumindo: o caminho sugerido pelo Eixo da Ficção está começando a ficar menos atraente do que o Eixo da Realidade. 

Um case nacional muito positivo!

Não vou falar sobre a Microsoft, com suas incursões educacionais agressivas. Nem da Google, com sua centena de empresas agregadas e inúmeros centros de formação – um inclusive na BH-TEC, Minas Gerais – com quase 100% de absorção. Não vou comentar nada sobre o CESAR School, que criou o primeiro doutorado “profiça” em Engenharia de Software da América Latina, com os parceiros Samsung, Motorola, Jeep etc., cujas teses são, OBRIGATORIAMENTE, produtos encomendados e aportados por interessados. Nem vou tecer nada sobre a IBM, que possui um centro de geração de startups para América Latina no Rio de Janeiro – o qual eu visitei em 2016 – e já era, naquela época, o maior gerador de patentes no Brasil, e de sua Skill Academy especializada em formar gente em Inteligência Artificial. Não vou mencionar também o belíssimo prédio de vidro da General Eletric às Margens da Baía de Guanabara – que também tive a chance de conhecer -, onde roda sua universidade corporativa formadora de altos executivos para o mundo. Todos estes exemplos, por terem empresas estrangeiras envolvidas, podem não parecer autênticas realidades brasileira. Parecem não servir como exemplo. Assim, vou falar de uma empresa curitibana de computadores, que tornou-se um dos maiores grupos formador de pessoal e desenvolvedor de tecnologia educacional da América Latina: O Grupo Positivo! Sim, esse mesmo, dos computadores Positivo. O grupo de 47 anos, que começou como um colégio, depois virou uma fábrica e hoje tem uma universidade. Este grupo forma gente para a vida. Possui unidades internacionais e associação com o MIT.

Colégio, Universidade ou Fábrica? Resposta: Empresa-Escola!

Esse grupo vem, há quase meio século, se adaptando à realidade que é impulsionada de fora para dentro; não de dentro para fora. Resultado: docentes e discentes sempre “antenados” e atrelados ao mundo. Desenvolvem tecnologia de ponta e, se a coisa apertar, poderão descer ao patamar de estado da arte e trabalhar a Ciência “bruta”, como fez a Universidade Mackenzie, ao criar o primeiro centro de pesquisas em grafeno da América Latina . Ou seja: educação, tecnologia e ciência gerando inovação mensurável.

Não fiz uma pesquisa extensa, mas acredito que mundo afora – e aqui mesmo no Brasil – devem existir outros exemplos. Desconfio, infelizmente, que todos sejam privados. Sabemos das dificuldades inerentes aos trâmites públicos. Entretanto, as universidades públicas precisam definir seu modelo de atuação. Se desejam manterem-se como centros de educação, terão de se atualizar e perceber que o mundo lá fora rodou bastante. Se pretendem enveredar como centros de pesquisa, terão de investir em problemas reais, mais próximos da sociedade. Não há muito tempo para escolha. Vácuo é apenas uma abstração física.

O longíquo 2020: a previsão!

A reportagem da Tribuna do Norte de 13 de outubro último, estampa que “11% dos trabalhadores que cursaram faculdade ganham até um salário mínimo”, o que representa quase 3 milhões de brasileiros. Temos perto de 13 milhões de desempregados. A Universidade (pública e privada) não se modernizou nesse meio tempo, nem parece dar algum sinal de mudança. Juntando tudo mais a inércia em se fazer nada sobre o estímulo a uma educação mais empreendedora, no sentido de geração dos próprios empregos, prevejo um 2020 ainda mais “desempregador”. Observe que estamos falando de quase 3 milhões de pessoas com diploma. E o restante da população sem o canudo?

A geração de empregos terá de vir do ponto mais alto da educação, a qual culmina na universidade. Esta, portanto, precisa chegar “mais junto”, ou vão deixar as empresas assumirem o lugar?

Referências

A coluna Empreendedorismo Inovador é atualizada às quartas-feiras. Gostou da coluna? Do assunto? Quer sugerir algum tema? Queremos saber sua opinião. Estamos no Facebook (nossaciencia), Twitter (nossaciencia), Instagram (nossaciencia) e temos email (redacao@nossaciencia.com.br). Use a hashtag #EmpreendedorismoInovador.

Leia a edição anterior: Dia das crianças: Que tal presentear com empreendedorismo educativo?

Gláucio Brandão é gerente executivo da inPACTA, incubadora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Gláucio Brandão

4 respostas para “Terão as empresas que se transformar em centros de capacitação?”

  1. Fabrício disse:

    Alerta mais do que perfeito. Lamentável será ouvir dos analfabetos funcionais:

    “Quanta falta de humanidade…”

    “Não sabe nada de educação…”

    “Capitalismo opressor…”

    “Somos referência mundial…”

    Enquanto umas pessoas querem resolver problemas reais e fazer o Brasil avançar, outras pessoas vivem um delírio permanente, no limbo intelectual, discutindo o sexo dos anjos. Só Deus para abrir os olhos dessas pessoas.

  2. Ozamir Dantas disse:

    Excelente o artigo do Professor Gláucio… expõe um seríssimo problema de forma didática, mas ao mesmo tempo simples, graças a uma linguagem apropriada e bastante lúdica – marca registrada desse excepcional professor universitário, que não por acaso é uma referência na inovação tecnológica (de fato) dentro da UFRN e em toda a ambiência do empreendedorismo do nosso Estado. Parabéns, querido Professor e amigo, Gláucio!

  3. Gláucio Bezerra Brandão disse:

    Nobre amigo e colega Ozamir, saudações!
    Sua palavras só dão oxigênio às minhas colocações, que são apenas um ponto de vista de quem está há 17 anos na docência.
    Obrigado pelos elogios sinceros de um amigo e apoio para continuar trabalhando em prol da universidade, ao mostrar o quanto temos que melhorar para não desaparecer.
    Sigamos!

    Grande abraço.

  4. Gláucio Bezerra Brandão disse:

    Saudações Fabrício!
    Pois é: muita gente ainda não atentou para o fato de que o modelo reinante (de uns 40 anos) de impor uma Ciência “de dentro para fora” não funciona.
    Temos que servir à Sociedade de modo a resolver os problemas que ela tem, não os problemas que a universidade tem.
    Obrigado pelo apoio.
    Grande abraço.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Site desenvolvido pela Interativa Digital