A trajetória até posições de liderança na biologia da conservação é marcada por desigualdades profundas entre homens e mulheres. Essa é uma das principais conclusões discutidas pela pesquisadora Júlia Tovar Verba, em entrevista ao Portal Nossa Ciência, sobre artigo publicado na revista Scientific Reports, da Nature, em coautoria com outras pesquisadoras. O estudo investigou os obstáculos enfrentados por homens e mulheres que alcançaram posições de liderança na área.
A pesquisa surgiu a partir de conversas entre pesquisadoras durante o doutorado em Ecologia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. O levantamento identificou 556 pesquisadores considerados líderes em biologia da conservação, dos quais 118 responderam ao questionário. Menos de 30% das lideranças identificadas eram mulheres. Atualmente na Universidade Federal de Santa Catarina, após retornar ao Brasil pelo programa Conhecimento Brasil, do CNPq, a pesquisadora pretende desenvolver projetos que também abordem as desigualdades de gênero para além do ambiente. A seguir, Verba comenta os resultados do estudo, as barreiras enfrentadas ao longo da carreira e possíveis caminhos para tornar o sistema científico mais inclusivo.
Nossa Ciência: Se você pudesse mudar apenas uma coisa no sistema científico hoje para reduzir a desigualdade de gênero na liderança da biologia da conservação, o que mudaria?
Júlia Tovar Verba: É uma questão que discutimos várias vezes, sem chegar a uma conclusão. Tenho certeza de que há pessoas que estudam esse tema há muitos anos e se dedicam a pensar em quais são as alternativas. Acho que é preciso encontrar uma forma de mudar o sistema para que pessoas que contribuam de outras maneiras também sejam valorizadas. Não deveria contar apenas a publicação de artigos ou a publicação como primeiro autor. É preciso valorizar mais a formação de pessoas, a construção de colaborações e outros aspectos que podem ser considerados indicadores de liderança, mas que nem sempre contam para a progressão na carreira. Esse seria um início básico.
Outra questão básica é que situações de discriminação e abuso precisam receber uma resposta mais adequada. As mulheres que sofrem essas situações precisam ser acolhidas, esses casos precisam ser mais expostos e devem existir consequências mais graves. Hoje isso já está acontecendo, mas ainda não da forma como deveria. Durante minha formação, quando entrei na faculdade, há 20 anos, vi situações de misoginia e discriminação no dia a dia sem nenhuma consequência. Continuávamos vendo homens em posições de liderança, fazendo coisas que todos sabiam que faziam, sem consequências. Hoje isso melhorou muito e essas situações já não passam da mesma forma, mas é preciso avançar nesse caminho e estabelecer mais consequências.
Nossa Ciência: O que motivou vocês a investigar especificamente as barreiras enfrentadas por homens e mulheres para chegar a posições de liderança na biologia da conservação?
Júlia Tovar Verba: Nós estávamos fazendo doutorado em Ecologia, principalmente nos grupos da Priscila Lopes e da Adriana Carvalho. Por coincidência, era um grupo majoritariamente formado por mulheres. Tínhamos muitas conversas sobre as dificuldades que enfrentávamos e sobre colegas que haviam deixado a carreira por diversas questões. Também tivemos uma percepção empírica ao observar mulheres em posições de liderança, não só na academia, mas em geral. Começamos a perceber uma predominância de mulheres solteiras, divorciadas, sem filhos ou com menos filhos. Então, começamos a nos questionar se o investimento na família seria uma das coisas que impediria ou dificultaria que mulheres chegassem a posições de liderança.

Isso já é bastante estudado: o que faz as mulheres saírem do caminho da carreira e o que há de diferente em relação aos homens, como se eles não precisassem abrir mão de outras partes da vida na mesma proporção. Mas, em vez de simplesmente entender o que fazia com que mulheres saíssem da carreira sem chegar a uma posição de liderança, queríamos entender se aquelas que conseguiam chegar à liderança precisavam fazer algo diferente, se precisavam abrir mão de aspectos da vida.
Na Biologia da Conservação, o foco foi esse grupo porque era o que nos unia entre as autoras. Todas estávamos fazendo doutorado em Ecologia. Uma parte significativa trabalhava com Ecologia Marinha, nos grupos da Priscila e da Adriana, mas havia também pessoas trabalhando na Amazônia e outras com Restauração e aspectos sociais na Caatinga. Eram temas diferentes, mas a Biologia da Conservação nos unia. Havia, ainda, questões comuns, como as dificuldades enfrentadas pelas mulheres quando precisavam ir a campo e decidir com quem deixar as crianças, algo que não era perguntado aos homens, ou quando viajavam para congressos e precisavam se preocupar com os cuidados com os filhos.
A motivação foi entender o que essas mulheres haviam feito de diferente. Tínhamos a hipótese de que encontraríamos muitas diferenças na história de vida entre mulheres e homens em posições de liderança: esperávamos que as mulheres se casassem mais tarde, tivessem filhos mais tarde, tivessem menos filhos ou que houvesse uma proporção maior de mulheres solteiras ou sem filhos. No fim, não encontramos diferenças tão marcantes. O resultado importante foi que havia uma grande diferença entre homens e mulheres em posições de liderança, mas as mulheres que chegaram a essas posições não apresentavam, em termos numéricos, uma história de vida tão diferente da dos homens que também chegaram à liderança. Houve uma proporção um pouco maior de mulheres sem filhos, mas a diferença não foi estatisticamente significativa. Ficamos surpresas ao constatar que não havia tanta diferença, mas também impressionadas com o quanto foi radical a diferença na percepção dos desafios.
A liderança feminina exige superar barreiras diferentes
Nossa Ciência: Vocês identificaram 556 pesquisadores considerados líderes, mas apenas 118 responderam ao questionário. Como avaliaram o possível impacto dessa taxa de resposta nos resultados? Existe a possibilidade de que pessoas com determinadas experiências tenham tido maior disposição para responder?
Júlia Tovar Verba: Pode ter havido um viés de participação relacionado às experiências anteriores dos respondentes. No entanto, o questionário não focava diferenças ou desigualdade de gênero, mas nos principais desafios enfrentados ao longo da carreira. A maioria dos homens respondeu que os maiores desafios estavam relacionados ao sistema acadêmico, ao financiamento e a questões semelhantes. Com certeza algum viés pode ter ocorrido, mas não acredito que tenha afetado os resultados de forma significativa. Se conseguíssemos entrevistar todos ou conhecer as experiências de todos, acredito que a proporção seria bastante parecida com a observada no questionário.
Os critérios de liderança também podem reproduzir desigualdades
Nossa Ciência: Menos de 30% das lideranças identificadas eram mulheres. O que esse número revela sobre a desigualdade de gênero na biologia da conservação? E até que ponto ele pode ser influenciado pelos próprios critérios utilizados para definir “liderança”?
Júlia Tovar Verba: Essa é uma questão interessante. Temos conversado muito com colegas sobre políticas mais recentes de incentivo à redução da desigualdade de gênero, especialmente o incentivo à entrada de mulheres no sistema acadêmico e, em geral, a facilitação do acesso a posições de liderança. Tenho algumas críticas a esse modelo porque considero que o sistema é falho e não é por acaso que deixa mulheres de fora. Ele foi construído para personalidades mais comuns entre homens. Simplesmente aumentar a presença de mulheres mantendo o sistema igual pode incentivar mulheres com características mais comuns entre os homens ou fazer com que aquelas que chegam à liderança sofram, porque o sistema e a sociedade não foram estruturados para nós. Isso cria uma situação difícil: se formos como queremos ser, o sistema não favorece; quando somos empurradas para dentro, o processo pode ser agressivo e sofrido.
Não tenho uma solução, sou bióloga e ecóloga, e certamente há muitas pessoas pensando sobre isso. Considero muito importante começar pela garantia de 50% de mulheres na Câmara dos Deputados, no Senado, nas Assembleias e entre professores nas universidades. Mas isso precisa vir acompanhado de uma mudança na forma como queremos que a universidade, a Câmara dos Deputados e esses outros espaços funcionem. É importante que sejam espaços realmente plurais, e não que minorias excluídas estejam ali apenas para cumprir uma proporção, sem voz suficiente.
Quanto aos critérios utilizados para definir liderança, também poderiam ter produzido um resultado diferente. Se tivéssemos usado critérios como pessoas que formaram mais líderes, influenciaram mais na capacitação e formação de pessoas ou conseguiram estabelecer colaborações mais sólidas, talvez tivéssemos encontrado uma proporção diferente, com um número maior de mulheres. O problema é que, no fim das contas, quando se busca financiamento ou um cargo, não são exatamente essas características que contam. Esses aspectos poderiam ser mais considerados pelo sistema, mas usamos os critérios que, em geral, são empregados para avançar na carreira ou obter sucesso, seja lá o que isso significa. Portanto, se usássemos outros critérios, que também acredito que deveriam ser levados em conta, talvez as proporções fossem diferentes.
Nossa Ciência: O resultado mais marcante foi a diferença entre os obstáculos relatados por homens e mulheres: 62% das mulheres apontaram questões de família e gênero, enquanto os homens destacaram financiamento e restrições acadêmicas. Como vocês interpretam essa diferença?
Júlia Tovar Verba: As mulheres que conseguem chegar a essas posições de liderança e que responderam aos questionários são pessoas que superaram muitas barreiras dentro e fora da academia e dentro e fora de casa para chegar até lá. Elas estão em posições que podem causar sofrimento porque precisaram quebrar barreiras, enquanto muitos homens que chegaram a posições de liderança conseguiram ter uma trajetória mais fluida. Acho que é daí que vem essa diferença de percepção.
Maternidade e carreira: o que os números revelam e o que não revelam
Nossa Ciência: O estudo encontrou uma proporção maior de mulheres sem filhos — 22%, contra 14% dos homens. O que esse dado permite dizer, e o que ele não permite dizer, sobre a relação entre maternidade e carreira científica?
Júlia Tovar Verba: Encontramos essa diferença, que é relativamente grande, embora não tenha sido estatisticamente significativa. Não podemos dizer que as mulheres em posições de liderança têm menos filhos que os homens em geral; só podemos falar das pessoas que efetivamente entrevistamos. O resultado pode indicar uma tendência de mulheres abrirem mão da maternidade para chegar a posições de liderança. Também existem limitações biológicas, e a fase em que a carreira está no auge coincide com o período em que a maternidade pode se tornar uma decisão de agora ou nunca. Muitos homens também passam por essa decisão, mas a tendência observada pode indicar que algumas mulheres abrem mão da maternidade.
No entanto, estamos assumindo que elas abriram mão porque queriam ter filhos e não puderam por causa da carreira. Muitas vezes não é isso: algumas pessoas simplesmente decidiram não ter filhos, independentemente da carreira. Nesse caso, estaríamos extrapolando sobre algo que não sabemos. Seria necessário um estudo mais completo para entender por que cada pessoa decidiu ter ou não ter filhos.
Trabalho de campo e segurança ampliam os desafios para as mulheres
Nossa Ciência: A biologia da conservação exige frequentemente trabalho de campo, viagens e períodos longe de casa. Até que ponto essas características da profissão podem agravar as desigualdades de gênero?
Júlia Tovar Verba: A biologia da conservação envolve muito trabalho de campo, viagens, congressos e expedições, e isso pode acentuar as desigualdades de gênero. Viajar e permanecer longe da família é especialmente relevante para quem é responsável pelo cuidado de outras pessoas, pois é necessário organizar quem ficará responsável por elas. Também existe a questão da violência. Muitas vezes, os trabalhos de campo envolvem equipes formadas majoritariamente por homens, e é comum que mulheres sejam as únicas integrantes. Há situações de violência ou medo de violência. Às vezes, não é que algo vá acontecer ou aconteça, mas muitas mulheres acabam abrindo mão de oportunidades de carreira e de campo por medo do que pode ocorrer ao viajar como a única mulher entre muitos homens.
Essas características da área afetam bastante a desigualdade de gênero. Há muitas coisas com as quais as mulheres precisam se preocupar antes de ir a campo que nem passam pela cabeça dos homens. Eles podem ter mais liberdade mental para se concentrar no trabalho, enquanto nós, além de trabalhar, precisamos pensar em proteção e segurança. Há ainda questões de saúde e higiene que podem ser mais complexas. Tudo isso pode agravar a desigualdade.
Nossa Ciência: O que mais surpreendeu vocês nos resultados? Houve alguma descoberta que contrariou a hipótese inicial da equipe?
Júlia Tovar Verba: Ficamos surpresas com a grande similaridade entre homens e mulheres na idade média em que se casaram, na idade média em que tiveram filhos, no número de filhos e na profissão do companheiro. Esperávamos encontrar diferenças, mas, na verdade, os resultados foram muito similares.
Não quero dizer isso de uma forma que despreze os homens que chegaram a posições de liderança, porque eles também são pesquisadores e conservacionistas importantes e se esforçaram muito para chegar lá. Em muitos casos, porém, estou generalizando, eles conseguem chegar a essas posições seguindo uma trajetória mais fluida, enquanto as mulheres chegam quebrando barreiras e se esforçando mais. Assim, quando olhamos para os números, os aspectos da história de vida — casamento, filhos e família — são muito similares aos dos homens, mas, no dia a dia, a experiência não é a mesma.
As barreiras começam ainda na graduação
Nossa Ciência: Se as principais barreiras relatadas pelas mulheres estão relacionadas a gênero, família e conciliação entre vida pessoal e carreira, em que momento da trajetória científica vocês acreditam que essas barreiras começam a produzir seus efeitos: na entrada na carreira, na progressão ou justamente na chegada à liderança?
Júlia Tovar Verba: Acho que essas barreiras começam na graduação. Na verdade, elas estão presentes ao longo de toda a vida, mas a graduação já tem um efeito importante, inclusive na escolha do caminho profissional. As mulheres fazem escolhas de carreira sob a influência de dificuldades relacionadas ao gênero, tanto pela misoginia quanto pelo fato de muitas serem responsáveis pelo cuidado de pais, irmãos, filhos ou avós. Isso influencia o quanto podem investir na carreira desde a graduação, entrar em laboratórios, fazer trabalho de campo e aproveitar as oportunidades que surgem.
Por isso, considero que o início está na graduação, embora essas barreiras atravessem todas as etapas da carreira. As respostas ao questionário, em geral, não apontavam situações pontuais, mas dificuldades recorrentes: ao longo da carreira, mulheres tiveram de lidar com homens que não as levavam a sério ou com a responsabilidade de cuidar sozinhas da família. São barreiras que precisam ser enfrentadas ao longo de toda a carreira, mas eu diria que começam no início.
Nossa Ciência: Como está sua carreira nesse momento?
Júlia Tovar Verba: Fiz o doutorado em Ecologia na UFRN. Depois, fui para a Alemanha, onde fiz um pós-doutorado de três ou quatro anos na Universidade de Munique, em Evolução e Ecologia. Depois disso, há quase dois anos, mudei de carreira. Passei um ano e meio trabalhando em um grupo de pesquisa na Espanha que atua com questões socioambientais, em um projeto sobre conflitos socioambientais. Desde março, estou na Universidade Federal de Santa Catarina. Voltei para o Brasil por meio do programa Conhecimento Brasil, do CNPq, que oferece bolsas para pessoas que estavam fora do Brasil retornarem ao país. Estou muito feliz por ter voltado e por pensar em projetos que também abordem questões relacionadas às diferenças de gênero, não tanto dentro da academia, mas de forma mais ampla.










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