Estudante apresenta projeto científico durante feira de ciências.
O curso de engenharia precisa acelerar a interação dos estudantes com o mercado. (Foto: Tomaz Silva / Agência Brasil)

Quem tem medo de eletricidade? Por que a engenharia precisa de mais prática

Um velho professor de escola técnica dizia pelos corredores: “ Você não precisa ter medo da eletricidade, mas sim um profundo respeito”. E para respeitar, é fundamental conhecer e compreender os seus limites (na teoria e na prática). O tema da eletricidade, ao contrário da mecânica quântica (estranho por definição), é repleto de afeto para mim porque as gerações que me antecederam deixaram esse legado como algo familiar.

Meu avô ajudou a trazer a “energia de Paulo Afonso” para Guarabira – PB em meados do século passado. Por sua vez, meu pai, também eletricista, subia ao topo de indústrias de Recife para dar manutenção em pontes rolantes que transportavam peças em siderúrgicas, onde circulavam dezenas de amperes. Na minha vez, decidi não subir a grandes alturas nem tocar em grandes correntes, mas sim ensinar eletricidade a estudantes de engenharia. Por entender que a eletricidade é prática por natureza, criei um encanto pelo laboratório de espectroscopia de impedância e trilhei um caminho de bancada-quadro-giz-bancada.

Não saber usar um multímetro é como um médico não saber suturar

Enquanto professor, tenho percebido, aliás, desde os tempos de estudante, a pouca ou quase nenhuma aptidão dos engenheiros para a atividade experimental, considerada menos relevante do que a gestão. Ora, não ter intimidade com um multímetro está para o engenheiro assim como não saber suturar está para um médico. É inaceitável.

O curso de engenharia precisa ser prático, pois por mais que um engenheiro tenha lugar de fala na gestão ou administração,para liderar, ele precisa saber fazer. Cortar um fio, emendar, soldar, dessoldar, consertar um circuito, fazer… Evidentemente há uma clara distinção entre os papéis do técnico e do engenheiro. Neste último há uma carga extra de física e matemática para embasar saltos tecnológicos mais sólidos. No entanto, esta distinção, do ponto de vista conceitual, não pode privar o estudante de engenharia elétrica da prática na área, por mais que o curso o acomode na condição de fazedor de provas e solucionador de listas de exercícios (já falamos na IA).

Engenharia, inovação e empreendedorismo

O fato é que não é raro haver egressos de engenharia sem emprego ou trabalhando em outras áreas, o que evidencia um claro descompasso entre academia e mercado. Enquanto o mundo vive a revolução da informação do século XXI, a universidade continua a formar os mesmos profissionais do século passado, com enorme dificuldade em oferecer formação experimental atual.

Do lado dos estudantes, também, precisa ficar claro que finalizar os créditos nas disciplinas não é garantia de empregabilidade, já que os dias atuais pedem formação focada em projetos, mesmo que os estudantes sejam testados por provas em caneta e papel.

Com isso, o curso de engenharia precisa abrir fronteiras de maneira urgente para ações de inovação e empreendedorismo, com a criação de  mais startups, para acelerar a interação dos estudantes com o mercado e, principalmente, promover a transferência de tecnologia represada nas universidades.

Não faz mais sentido manter os futuros engenheiros aprisionados nos livros-texto de 1970, em um cenário em que a Inteligência Artificial fornece todo o conteúdo de roteiros, relatórios e afins. É fato que o mundo mudou e que as avaliações convencionais caducaram. Formar profissionais da área tecnológica, então, na velocidade com que as mudanças acontecem, requer muito mais ousadia.

Helinando Oliveira é físico, professor titular da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) e atualmente é vice presidente da Academia Pernambucana de Ciência