Foram dias de luta! Muita pressão e muita emoção afetaram intensamente nossas vidas, particularmente nestes dias entre o primeiro e o segundo turnos da eleição para presidência do Brasil neste ano de 2026.
Depois de tanta luta, enfim vencemos! E o dia nasceu feliz!

Janones captou bem a metáfora da guerra e contribuiu decisivamente em nosso engajamento. E certamente sabemos que a luta continua porque o horror da extrema direita no Brasil (leia-se bolsonarismo) infelizmente é uma realidade a ser combatida. Mas por ora a gente só comemora!
Humor com estilo e ideologia
Em meio a toda essa comemoração, impossível não falar da avalanche de postagens, memes, stickers e outras tantas formas que evidenciam a convergência entre o humor e o digital, o que o tema político-partidário exemplifica de maneira emblemática.

Embora as mídias da atualidade sejam outras, contando com recursos como as Inteligências Artificiais Generativa o humor se reatualiza em aspectos tão antigos quanto a própria humanidade. Agora que podemos relaxar (e gozar) um pouco, podemos aproveitar este momento para, inclusive, refletir sobre essa relação entre o humor e a política.
Ainda que alguns exemplos de humor possam parecer “inocentes” (para remeter à classificação proposta por Freud em “Os chistes e sua relação com o inconsciente”), o humor não é neutro. Fazer apelo ao riso também pode equivaler a se posicionar – estilística e ideologicamente.

Nesse sentido, posicionar-se por meio do humor é também fazer uso estratégico de determinados procedimentos de linguagem para “armar-se” num campo de embates. Sobretudo pela zombaria e pelo escracho.
Discurso inscrito na história e no devir
Sempre cai bem então perguntar-se: quando zombamos e escrachamos, de que lado nos posicionamos com as piadas ou figurinhas que colocamos em circulação?

Além disso, como qualquer outro, os enunciados humorísticos carregam consigo uma memória discursiva. Tenhamos consciência disso ou não, cada dizer se inscreve numa cadeia interdiscursiva e cada enunciado, enquanto gesto, é uma acontecimento discursivo inscrito na História e no Devir.
Assim é que o humor das redes sociais expressa uma verdadeira reatualização da comédia latina: nas sátiras de Plauto e Terêncio, a figura do escravo astuto que ludibria o pater familias avarento ou tirânico proporcionava uma espécie de catarse cômica aos espectadores diante do rígido poder patriarcal romano.

No Brasil atual que luta contra os perigos da extrema-direita e do bolsonarismo, todas e todos aqueles que que celebram a vitória de Lula por meio do riso vivenciam esse riso catártico em que vingamo-nos como sujeitos que se posicionam na rede dos (tristes) fatos que remontam à trama golpista de 2016.
Então, se, como também afirmou o velho Sigmund, o riso pode ser uma descarga de alívio, que gozemos deste instante e que possamos rir na cara dos golpistas de ontem, hoje e sempre.

Cellina Muniz é escritora e professora do Departamento de Letras e do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.










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