Multidão vestida de vermelho participa de uma manifestação política em apoio a Lula, com bandeiras e veículos cercados por eleitores em uma rua.
A vitória não foi apenas de Lula ou de Fátima Bezerra nas eleições de Samanda Alves e Cadu Xavier. Foi uma vitória de quem enxerga a fraqueza dos laços bolsonaristas e a ameaça disso para nossa sociedade.

Eu, você e um papo reto sobre as eleições

O bolsonarismo perdeu uma importante batalha nas eleições presidenciais de 2026 no Brasil. O candidato do bolsonarismo foi derrotado depois de uma reviravolta espetacular dos votos protagonizada pela sociedade brasileira. Fizemos história, vamos todos ser lembrados por esse movimento popular nos livros do futuro. Foi tanto ineditismo, tanta quebra de marcas anteriores que não sobra dúvida de que mais da metade do povo brasileiro não quer o tipo de sociedade que o bolsonarismo defende. Agora, vem a pergunta: como não cair no caos bolsonarista de novo? O que aprendemos disso tudo, como sociedade?

Vou falar de mim e isso talvez abra um canal de comunicação entre nós. Eu fiquei muito tensa e depois chorei aos bocadinhos em vários momentos da eleição.  No meio do caminho, fui refletindo sobre os acontecimentos de todo o processo, de como a comunicação digital foi importantíssima para mobilizar todo mundo. Isso acionou minhas lembranças sobre o que aprendi em mais de 40 anos estudando a comunicação humana. Aliás, continuo estudando e o que tenho para aprender só aumenta.

Os vínculos que nos fazem sociedade

Toda sociedade humana é formada a partir de vínculos, de ligações simbólicas e materiais entre cada indivíduo ou entre grupos de indivíduos. Sem isso, não existe sociedade e nenhum ser humano pode sobreviver sem estar dentro de uma. Podemos transmitir mentiras quando nos comunicamos, mas o principal objetivo de comunicar é criar laços entre os comunicantes, vínculos que podem ser para o bem o para o mal. Compartilhar verdades cria confiança, um laço muito forte entre as pessoas; difundir mentiras produz vínculos frágeis porque isso em algum momento vai ser revelado, gerar desconfiança. Se a mentira continua, o laço entre os comunicantes se rompe.

Agora, vem a pergunta: como não cair no caos bolsonarista de novo? O que aprendemos disso tudo, como sociedade?

O bolsonarismo não tenta criar laços entre as pessoas. O individualismo é sua principal bandeira econômica. O preconceito é a sua filosofia. A violência é a sua linguagem. Sua proposta se baseia em uma falsa verdade: a de que a vida de todos será melhor numa sociedade assim. Não será, nem mesmo para aqueles que pensam que a exploração de todos os não bolsonaristas é um bom modo de vida. Nenhuma sociedade humana pode existir com base nisso. Nenhum ser humano pode viver muito sem a reciprocidade que mantém qualquer sociedade íntegra e garante que fiquemos todos vivos. Nem os bolsonaristas mais radicais sobreviveriam e todos os impérios caem no fim por essa razão.

O choro é livre

O choro é livre, não é? Ganhamos e eu chorei. Chorei vendo o noticiário cheio da emoção dos eleitores, as ruas lotadas de gente expressando a sua vontade. Chorei levando minha mãe para votar do alto de seus 90 anos em uma cadeira de rodas e a pedido dela. Chorei falando com a minha faxineira sobre ela e sobre primas minhas, todas votando em Lula pelos seus filhos, pelos seus futuros e pela dignidade de todos, inclusive pessoas com deficiência, alvo do deboche do candidato bolsonarista. Elas votaram assim apesar dos seus maridos bolsonaristas ou daqueles em cima do muro, dizendo que político é tudo igual. Não é, isso é papo de quem perdeu a fé no seu próprio poder de mudar as coisas. Ah, essa tragédia contemporânea de tantas mulheres…

Dá trabalho ser assim (…). É sobre sermos responsáveis pelas consequências de nossas ações no mundo para conosco e para com os outros. Sobre sermos adultos, afinal.

Agora, estou escrevendo este artigo para parar de chorar, já é tempo. Descobrir que o povo brasileiro, meu povo, não estava todo podre por dentro foi o maior presente que veio com a vitória de Lula. Uma vitória que não foi apenas dele ou de gente como André Janones e Erika Hilton, importantíssimos aliados na eleição de Lula, ou como Fátima Bezerra nas eleições de Samanda Alves e Cadu Xavier. Foi uma vitória de quem enxerga a fraqueza dos laços bolsonaristas e a ameaça disso para nossa sociedade.

Nossos vínculos hoje como seres sociais estão muito baseados na mídia digital, o que facilita a comunicação sem bases factuais e sem freios, uma comunicação que muitas vezes é violenta e nociva para quem está ali e para quem não está. A mentira como conteúdo e a violência como linguagem tem consequências nefastas demais. A pior a longo prazo é a desacreditação da verdade.

Exercitar a cidadania

Aqui cabe um pensar e um fazer que é filosófico e qualquer pessoa pode exercitar, na religião ou fora dela, tendo estudado muito, pouco ou quase nada. É preciso, sempre questionar, o que sabemos, pôr nossas verdades à prova para não sair por aí divulgando mentiras e depois dizer que não tem culpa, que não sabia… podemos errar, claro, mas nunca por desleixo. Uma vida sem questionamentos e sem exame, principalmente sem autoexame, não é digna. Dá trabalho ser assim, acertar é difícil e descobrir que erramos sempre dói, mas aprendamos com os jovens, que não se conformam consigo mesmos e estão sempre buscando uma melhor versão de si. Isso não tem a ver com ser ou não religioso, mas com um pensar sobre o que somos e fazemos. É sobre sermos responsáveis pelas consequências de nossas ações no mundo para conosco e para com os outros. Sobre sermos adultos, afinal.

A verdadeira batalha, a mais pesada, ainda está por vir. A sociedade brasileira mal começou a acordar para o que são seus direitos e seus deveres. A juventude foi paras ruas sabendo que isso é só o princípio da luta, mas esses jovens não estão cansados. Sua energia é tanta que contagiou os mais velhos. Saímos todos também de nossas casas para participar dessa imensa voz coletiva dizendo o que queremos para quem tem que nos servir quando se elege com nosso voto. Então, hoje eu acho que o mundo está melhor. Podemos ser só pouco mais de 50%, mas agora nós também apreendemos a fazer barulho.

Josimey Costa é escritora, poeta e pesquisadora. Integra o Marginália – Grupo de Estudos e Pesquisas em Comunicação e Cultura da UFRN