Todos os anos, cultivo um ritual quase sagrado. Na primeira segunda-feira de outubro, acordo com o coração acelerado e vou direto visitar o site da Fundação Nobel para assistir, com os olhos brilhando de expectativa, à divulgação dos nomes dos laureados na categoria de Fisiologia ou Medicina. Neste ano de 2026, confesso que carregava uma tristeza profunda no peito com o resultado das eleições, nas quais a extrema direita se tornou a maior força no Congresso Nacional, tanto na Câmara quanto no Senado.
Ouvir os nomes dos ganhadores, no entanto, foi como um feixe de luz que dissipou essas sombras, trazendo de volta a minha alegria e esperança. Afinal, a trajetória desses três cientistas nos conta uma história belíssima sobre como a ciência é, em sua essência, uma construção coletiva e humana.
Optogenética: revolução na pesquisa em neurociência
Podemos celebrar que o Prêmio Nobel coroou as mentes que desenvolveram a optogenética, uma técnica extraordinária que revolucionou a pesquisa em neurociência. É injusto, contudo, não lembrar com profunda gratidão que muitos outros pesquisadores brilhantes estiveram envolvidos no desenvolvimento dessa ferramenta. Por regra, o Nobel é concedido a no máximo três cientistas, mas o triunfo também pertence aos heróis anônimos que não foram laureados, mas que tiveram papéis fundamentais e inesquecíveis nessa jornada.
A ciência nunca foi e nunca será gasto; ela é o investimento mais nobre, belo e essencial para o nosso futuro.
Toda grande revolução tem um começo humilde. A nossa história mágica começa com Peter Hegemann (Alemanha, nascido em 1954), um dedicado professor sênior de Neurociência na Universidade Humboldt, em Berlim. Nos anos 90, movido por uma curiosidade genuína, Hegemann estudava uma pequena alga verde unicelular chamada Chlamydomonas para entender como ela conseguia “enxergar” e nadar graciosamente em direção à luz.

Ele foi o grande pioneiro ao identificar que essa alga possuía fotorreceptores ultrarrápidos, capazes de gerar correntes elétricas. Esses fotorreceptores são proteínas localizadas na membrana celular que funcionam como pequenos canais. Quando tocadas pela luz, essas proteínas sofrem uma transformação estrutural surpreendente, abrindo-se para permitir a passagem de determinados íons e gerando uma faísca de corrente elétrica na membrana.
O segundo nome anunciado foi o de Georg Nagel (Alemanha, nascido em 1953), professor de Fisiologia Molecular de Plantas na Universidade de Würzburg. O professor Nagel passou a trabalhar lado a lado com Hegemann no início dos anos 2000, e sua contribuição foi vital: ele ajudou a isolar e a identificar a proteína exata responsável por esse belo fenômeno na alga — a canalrodopsina.
Parece ficção, mas é ciência

O salto de mestre dado por Nagel e sua equipe foi provar algo que parecia ficção: se o gene dessa proteína fosse introduzido em células de outros animais (como células de sapo ou humanas cultivadas em laboratório), elas também despertariam e passariam a reagir à luz. Nós já conhecíamos algumas proteínas sensíveis à iluminação, como as rodopsinas que protegem a nossa retina e, por essa conexão poética, essas novas proteínas foram batizadas de canalrodopsinas (proteínas que formam canais iônicos na membrana celular e reagem à luz).
A emoção de ver uma profecia se confirmar
O terceiro nome, Karl Deisseroth (EUA, nascido em 1971), é médico psiquiatra e professor de Bioengenharia em Stanford. Foi ele o visionário que teve a ideia audaciosa de levar essa descoberta botânica para as profundezas do cérebro. Em 2005, com uma genialidade inspiradora, ele e sua equipe conseguiram inserir o gene da proteína canalrodopsina em neurônios de mamíferos. Dois anos depois, em 2007, ele demonstrou o funcionamento desse mecanismo em camundongos vivos, usando delicados cabos de fibra óptica inseridos no cérebro para iluminar as células. Era o nascimento prático da técnica que ele mesmo batizou brilhantemente de “optogenética”.

Ao ouvir o nome de Karl Deisseroth ecoar como laureado com o prêmio Nobel em 2026, uma onda de nostalgia me invadiu. Lembrei-me vividamente de quando assisti à palestra plenária de encerramento do 8° Congresso Mundial de Neurociência da IBRO, realizado na deslumbrante Florença, na Itália, em 2011. Aquela conferência inesquecível foi proferida por ele para destacar o desenvolvimento e o potencial ilimitado da optogenética. Após o congresso, a principal conversa que fervilhava entre nós, neurocientistas, era que, muito em breve, o professor Deisseroth receberia o prêmio Nobel. Quinze anos se passaram e, com um nó na garganta de emoção, vejo essa profecia finalmente se tornar realidade.

Essa história comovente nos mostra, de forma cristalina, a importância vital de se investir em ciência básica. Primeiro, dedicamo-nos a entender como um simples organismo unicelular responde à luz. Depois, ao desvendarmos os segredos desses mecanismos, fomos capazes de criar uma técnica que transcende a imaginação.
Hoje, a optogenética é amplamente utilizada na neurociência para desvendar os mistérios da mente e já ilumina os primeiros passos rumo a aplicações clínicas transformadoras. A ciência nunca foi e nunca será gasto; ela é o investimento mais nobre, belo e essencial para o nosso futuro.
John Fontenele Araujo é professor titular aposentado da UFRN e professor colaborador da UFDPar.










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