Pesquisador em laboratório durante atividade de pesquisa científica no Brasil.
As nações deveriam entender que é fundamental gerar conhecimento e investir em sua ciência, como fonte de soberania. E isso passa pela escolha de seus mandatários. (Foto cedida pelo professor Marcelo Bezerra, do PPGCA/Ufersa)

Por que o financiamento público é essencial para a ciência e as universidades

EU VEJO UM MUSEU DE GRANDES NOVIDADES

Há uma grande falácia sobre a fonte primária do financiamento da pesquisa no mundo. Enquanto o conceito privatista defende que a universidade seja paga pelos estudantes, os próprios pais da ideia (os países que implementaram a privatização do ensino superior) permanecem dependentes de financiamento público. Percentuais de investimento do governo em torno de 60% para os EUA e 77% para a Europa provam que a mensalidade dos estudantes (leia-se: aqueles que podem pagar) não é suficiente para bancar a pesquisa (Fonte: Nos países desenvolvidos, dinheiro que financia a ciência na universidade é público – Jornal da USP).

O leitor pode indagar: e as empresas? Ora, elas estão interessadas em sobreviver no mercado e tendem a investir em condições que gerem lucro imediato. Há, no entanto, a pesquisa básica, que é produção de conhecimento que não está focada em retorno imediato, mas é tão necessária quanto a aplicada. Um exemplo foi a vacina contra a covid: para que ela fosse desenvolvida em tão pouco tempo, foram as indústrias que aportaram na universidade para aprender.

Cortes na ciência provocam fuga de pesquisadores e de conhecimento gerado

Então, é ponto pacífico que a cobrança de mensalidades não paga a pesquisa, nem aqui nem na China. Aliás, a cobrança de mensalidade é uma forma de excluir o pobre de sua única via de ascensão social. Há quem defenda isso sob o argumento da meritocracia ou simplesmente por ódio à classe trabalhadora (filho de pedreiro não pode ser médico).

Mas sigamos em frente… As nações deveriam entender que é fundamental gerar conhecimento e investir em sua ciência, como fonte de soberania.  E isso passa pela escolha de seus mandatários. Exemplos não faltam. Tomemos o caso dos nossos vizinhos do norte, em matéria de janeiro de 2026, a Nature relata os resultados do primeiro ano da nova gestão federal dos EUA.

Dois órgãos oficiais de fomento, o National Institutes of Health (NIH) e o National Science Foundation (NSF), fizeram um corte de um total de 5.844 bolsas no NIH 1.996 bolsas no NSF, com cortes orçamentários propostos de 35% — totalizando US$ 32 bilhões. Os maiores cortes recaíram sobre os ensaios clínicos, centros de câncer e infraestrutura, com mais de 800 bolsas que seriam destinadas a doenças infecciosas. Em artigo publicado na Science em 2026 é mostrada que a tendência seria remanejar o dinheiro da pesquisa em ciência básica para iniciativa tecnológica (com cifras da ordem de US$ 1,5 bilhão). Essa mudança de rumos fica ainda mais dramática quando se tem o dado que cerca de 10.109 especialistas com doutorado em ciência e áreas relacionadas deixaram seus empregos no governo dos  EUA,  o que equivale a 14% do total de doutores em ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM) ou áreas da saúde empregados no final de 2024.

O sistema de ciência e tecnologia brasileiro é muito mais frágil do que o dos EUA, e a solução para a grave crise social que tentamos sanar passa necessariamente pela educação.

Não bastasse essa fuga massiva de cérebros, representada pela saída do professor Omar M. Yaghi, vencedor do Prêmio Nobel de Química de 2025, da Universidade da Califórnia em Berkeley, para a Universidade de Tsinghua, na China, conflitos institucionais são instalados rotineiramente. Um exemplo maior é  a relação do governo com  a Universidade de Harvard, que precisou apelar à Suprema Corte contra cortes de mais de 2 bilhões de dólares em seus fundos.

Ora, o investimento público de um país em ciência deveria ser uma questão de Estado, e não de governo. É o que os alemães chamam de “prosperidade em longo prazo”. Essas intervenções indesejadas resultam na evasão de cérebros e criam descontinuidades difíceis de reverter. São escolhas que a sociedade toma e que afetam muitas gerações.

Investimento em ciência deve ser política de Estado

E nós, no Brasil? Cá estamos nós, em meio a uma discussão sobre aderir ou não ao modelo dos primos do norte. Se o absurdo de colocar as universidades para fora do MEC não atrai a atenção da população, a volta da fome, por exemplo, deveria atraí-la.

O sistema de ciência e tecnologia brasileiro é muito mais frágil do que o dos EUA, e a solução para a grave crise social que tentamos sanar passa necessariamente pela educação. Os cientistas jovens buscarão novos caminhos fora do país; os laboratórios sucateados fecharão… No entanto, isso não dói mais do que tirar a uma criança pobre o sonho de vencer na vida. Essa vitória só é possível com a educação em  tempo integral, com a universidade pública, gratuita e de qualidade, distribuída por todos os interiores do Brasil.

Portanto, tudo o que o brasileiro ter é mais empatia pelo povo. E quando faltar empatia, que reste a lembrança do mestre: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo.”  E que não se faça nada por ódio, mas sim pela guarda do sentimento maior: o amor, que não apenas saia de tua boca, mas te habite por inteiro. Sim, é pela família  e também pelos pobres sem teto, por quem passa fome e por quem não tem oportunidade. O museu de grandes novidades está aí escancarado. Só não vê quem não quer.

Helinando Oliveira é físico, professor titular da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) e atualmente é vice presidente da Academia Pernambucana de Ciência