Vista aérea de floresta densa ao lado de um rio com leito exposto, bancos de areia e trechos de água reduzidos.
As imagens de satélite permitem enxergar a destruição. Cabe ao poder público responder a tempo, e à sociedade impedir que o Congresso retire as condições para essa resposta.

PL 2564/2025: a ameaça de atrasar o combate ao desmatamento

O Brasil consegue observar do espaço a derrubada de sua vegetação. O que está em disputa no Congresso é a rapidez com que o Estado poderá reagir ao que vê. Em um país onde grandes áreas podem ser destruídas em poucos dias, obrigar a fiscalização a esperar significa conceder ao dano ambiental um tempo que dificilmente poderá ser recuperado.

Essa é a preocupação central do artigo que publicamos na revista Biological Conservation. Nele, analisamos o Projeto de Lei 2564-A/2025, aprovado pela Câmara dos Deputados em maio de 2026 e atualmente em tramitação no Senado. A proposta prevê notificação prévia e um prazo para esclarecimentos antes da imposição de embargos fundamentados na detecção remota de alterações da vegetação ou de indícios de infração ambiental.

À primeira vista, a mudança pode parecer um ajuste burocrático em defesa do proprietário rural. Seu efeito, porém, alcançaria a capacidade do poder público de interromper a destruição enquanto ela acontece. Quem se beneficia quando uma atividade potencialmente ilegal ganha tempo para avançar? E quem paga pela vegetação que desaparece durante essa espera?

O tempo também protege a natureza

O embargo ambiental suspende atividades em uma área para conter o dano e resguardar sua recuperação. Sua função preventiva depende da possibilidade de agir rapidamente, com fundamento técnico, e de permitir que o atingido conteste a medida. Se a intervenção chega depois da derrubada e da queima, parte dessa função já foi perdida.

Foi para encurtar esse intervalo que o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais desenvolveu o DETER, sistema de alertas de desmatamento que orienta a fiscalização. Em um território continental, as imagens ajudam a direcionar equipes e recursos para os locais que exigem atenção. A tecnologia produz informação útil porque existe uma estrutura capaz de transformar essa informação em ação.

A experiência brasileira oferece evidências dessa combinação. Entre o pico de meados dos anos 2000 e 2012, políticas coordenadas de fiscalização e intervenções nas cadeias da pecuária e da soja contribuíram para reduzir o desmatamento amazônico em aproximadamente 70%. O monitoramento por satélite integrou esse esforço, cuja eficácia depende também de decisões políticas e capacidade institucional.

O projeto manteria os satélites funcionando, mas introduziria uma espera justamente na etapa em que o alerta precisa produzir uma resposta. Durante esse intervalo, a derrubada pode avançar, o fogo pode se espalhar e a ocupação pode se consolidar. Até o encerramento do prazo para esclarecimentos, a área que se pretendia proteger pode já ter sido destruída.

A Caatinga também está nessa disputa

É comum que o debate sobre desmatamento brasileiro comece e termine na Amazônia. A redação da proposta, entretanto, alcança a fiscalização baseada em detecção remota de maneira geral. Seus efeitos potenciais se estendem aos seis biomas terrestres do país, inclusive à Caatinga e à Mata Atlântica que fazem parte da realidade nordestina.

Um exemplo discutido em nosso artigo ajuda a dimensionar o problema. O relatório do MapBiomas sobre 2025 registrou, em uma única propriedade no Piauí, um evento de desmatamento de 13.628 hectares na Caatinga, o maior alerta individual da série. A velocidade estimada equivalia a cerca de seis hectares por hora. Diante dessa escala, qualquer demora precisa ser avaliada pelo que permite destruir.

Na Caatinga, a fragmentação dos remanescentes compromete populações e processos ecológicos. Na Mata Atlântica, muitas espécies sobrevivem em fragmentos pequenos, e uma nova perda pode atingir uma parcela decisiva do seu habitat. Recuperar a cobertura vegetal depois de uma infração exige tempo e investimento, sem garantia de recompor as comunidades que existiam ali.

Por isso, a discussão interessa diretamente ao Nordeste. Tratar o enfraquecimento da fiscalização como uma questão distante, restrita à floresta amazônica, deixa fora do debate ambientes que já sofrem pressão e cuja conservação depende de medidas preventivas.

A conta ambiental das escolhas políticas

Os custos dessa escolha ultrapassam o local desmatado. A vegetação participa da regulação do clima e da circulação de umidade que sustenta chuvas em outras regiões. Pesquisas discutidas em nosso artigo associam a perda histórica de floresta amazônica à redução de precipitação e da produção de soja, inclusive no Rio Grande do Sul, a mais de 1.500 quilômetros da fronteira de desmatamento. A eleição de 4 de outubro de 2026 agravou esse problema político. O Congresso que assumirá em 2027 terá ampla predominância de parlamentares contrários à agenda socioambiental. Segundo análise do Observatório do Clima, divulgada pela Agência Brasil em 7 de outubro, 68,9% dos integrantes da próxima legislatura apresentam convergência ambiental baixa ou muito baixa. No Senado, são 79%. Essa composição favorece o avanço de propostas que enfraquecem a fiscalização e expõem os biomas brasileiros a novas perdas.

O Senado deve rejeitar o PL 2564/2025 em sua redação atual e preservar a possibilidade de embargos rápidos, tecnicamente fundamentados. Mudanças apresentadas como ajustes de procedimento podem comprometer décadas de investimento em ciência e fiscalização. O Congresso recém-eleito ampliou o espaço político de bancadas que apoiam retrocessos ambientais, e a sociedade precisa se organizar desde agora para enfrentá-los. A defesa dos biomas exigirá pressão pública contínua sobre deputados e senadores.

Essa mobilização precisa ter ações concretas. Organizações da sociedade civil, universidades e associações científicas devem acompanhar os projetos em tramitação, divulgar o histórico de votação dos parlamentares e cobrar compromissos públicos com a proteção ambiental. É necessário tornar visíveis os interesses favorecidos por cada mudança e os prejuízos que ela transfere à população. A opinião pública precisa receber informação suficiente para reconhecer e contestar o enfraquecimento da fiscalização, inclusive quando ele se apresenta como uma promessa de simplificação.

As imagens de satélite permitem enxergar a destruição. Cabe ao poder público responder a tempo, e à sociedade impedir que o Congresso retire as condições para essa resposta. O resultado eleitoral tornou a mobilização mais urgente. Precisamos transformar o conhecimento disponível em informação pública e pressão política antes que o prazo concedido à destruição se converta em perda definitiva.

Adriano Caliman é professor do Departamento de Ecologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e primeiro autor do estudo discutido neste artigo.