
Deu o que falar, na semana passada, o caso do vestibulando que tirou zero na redação da Fuvest e que, inconformado, moveu um processo contra o reitor da USP. O motivo alegado para o zero: fuga do tema e incoerência em detrimento de uma linguagem extremamente rebuscada. Deixemos que a introdução da redação diga por si:
Perpassa em altivez, pela procela, a grandiloquência condoreira, em cuja máxima aforística revela a tétrica languidez do sofrer recôndito.
Opiniões – e risos – à parte, esse caso nos dá o que pensar a respeito de uma, dentre tantas, particularidade das línguas: a diversidade linguística, isto é, as múltiplas possibilidades de usos que uma mesma língua oferece.
Esse aliás, é um postulado básico que qualquer linguista conhece, sobretudo aquele que se inscreve nas perspectivas da dialetologia e da sociolinguística. Em linhas gerais, trata-se de pensar que a língua não é somente um sistema de formas (léxico) e funções (gramática), mas que implica necessariamente características heterogêneas de uso próprias de determinada região e grupo social. Nessa direção, por exemplo, poderíamos especular que o verborrágico vestibulando – pretenso aluno de Direito – imaginou direcionar-se a um determinado público que tem a verve típica do – como diria o sábio senso comum – “juridiquês”, no qual o ornamento retórico da mensagem se sobrepõe ao conteúdo em si.
Toda essa discussão traça um paralelo com um importante livro da cena editorial potiguar: Geringonça do Nordeste – a fala proibida do povo, de autoria do jornalista e professor Geraldo Queiroz. Publicado originalmente pela Editora Clima em parceria com a Fundação José Augusto em 1989, com reedição pela Editora da UFRN em 2009, o livro é fruto de uma dissertação de Mestrado em Educação que se centrou na pesquisa do professor Clementino Câmara (1888-1954) sobre a gíria nordestina e cuja publicação foi censurada no governo de Getúlio Vargas em 1937. Geraldo Queiroz, ao se deparar com o processo de proibição no Arquivo Público, foi então investigar os meandros de tal processo, com os agentes e argumentos envolvidos. O grande mérito é, sem dúvida, recuperar o estudo de Clementino Câmara, um verdadeiro ensaio de linguística, como se pode ver no trecho a seguir:
"A língua, uma vez fora do âmbito das fronteiras lusitanas, foi adquirindo novas plasticidade, novos elementos que cedo lhe juntaram (...). A opulência do português no Brasil, no entanto, não decorre somente do que acima ficou exposto. Criações indígenas, africanas e populares produziram entre a mestiçagem inculta não um dialeto propriamente dito mas um geringonça em que figuram termos, expressões e construções muitos dos quais gozando já de fóruns de cidade inteiramente desconhecidos para os portugueses. A pronúncia, dada a influência climatérica e a distância, diferencia-se sobretudo pela enunciação pausada de todas as vogais em contraste com a dicção portuguesa que é mais breve, só deixando perceber a sílaba tônica (Câmara Apud Queiroz, 2009, p. 129).”
E segue-se, então, o dicionário censurado há quase noventa anos, resgatado do esquecimento graças à pesquisa de Geraldo Queiroz, um precioso registro de como a língua foi (ainda é) utilizada. Sabe o que significava dizer de alguém “afetado” e que “já é com Deus”? Nada mais que referir-se a alguém que, por conta da tuberculose, faleceu. Ou designar alguém como “pau” é simplesmente chamar esse alguém de maçante, enquanto “jurubitança” é uma “exorbitância”
Terão, então, julgado a redação do garoto uma juribitança de pau?

E como palavra puxa palavra, inspirado com o livro de Geraldo Queiroz, em 1989, o pesquisador e escritor Celso da Silveira, parceiro firme de Carlos Lima (o editor da Clima) nas aventuras editoriais, decidiu seguir o exemplo de Clementino Câmara e saiu em busca dos usos peculiares da língua pelos interiores do Rio Grande do Norte. E como livro puxa livro, publicou pelo seu próprio selo editorial Boágua o título “Giros, Girolas, Geringonças” em 1996. Assim, esses casos de ontem e de hoje ilustram bem que, para além dos procedimentos de controle e de interdição (de bancas avaliadoras de vestibular ou de governos ditatoriais), a língua continua viva, dinâmica e plural, acontecendo de maneira potente e pulsante em inúmeras e diversas procelas de palavras.
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Cellina Muniz é escritora e professora do Departamento de Letras e do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.










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