Ainda era madrugada quando estudantes da Ufersa deixaram Angicos rumo a Natal. Alguns haviam acordado por volta das duas horas da manhã. Na bagagem, levavam computadores, protótipos, apresentações e, sobretudo, o sonho de provar que jovens do interior também são capazes de desenvolver tecnologia e criar soluções para transformar a realidade do campo. Ao final da competição, voltariam para casa campeões. Mais importante do que os notebooks conquistados como prêmio, porém, carregariam a certeza de que suas vidas jamais seriam as mesmas.

Essa é a história de dezenas de universitários que encontraram no Eli Agro, iniciativa promovida pelo Sebrae-RN em parceria com os demais atores do ecossistema de inovação, a oportunidade de transformar o conhecimento adquirido em sala de aula em inovação, empreendedorismo e desenvolvimento para o semiárido.
Dificuldade para conseguir certificação
Foi assim com Marcelo Vitorino Dantas Júnior. Em 2023, ainda cursando o terceiro período de Sistemas de Informação no campus de Angicos, ele reuniu colegas e convenceu o professor João Paulo Damásio Sales a orientar uma equipe que sequer imaginava onde poderia chegar. Depois de visitar um produtor de orgânicos e ouvir suas dificuldades com a burocracia para obter a certificação, nasceu a ideia do Groa.
“A gente tinha apenas 90 dias de existência quando conquistou o primeiro lugar. Foi um marco histórico para a Ufersa e para todos nós”, lembra Dantas Júnior. A vitória abriu portas para participações em feiras, palestras, programas de aceleração e editais de inovação. “Percebemos que quem mora no interior também pode desenvolver tecnologia de ponta. Basta acreditar, estudar e trabalhar muito”.
O projeto amadureceu, conquistou investimentos, ganhou reconhecimento estadual e nacional e, recentemente, recebeu o registro oficial de software junto ao INPI. A startup SerTão Devs tornou-se símbolo de uma geração de estudantes que descobriu, na universidade, muito mais do que uma formação profissional: encontrou a possibilidade de empreender e gerar impacto social.
Aumentar a produtividade
No ano seguinte, foi a vez de outra equipe escrever seu nome na história do EliAgro. Liderados por Vinícius Sátiro de Azevedo Dantas, estudantes de Sistemas de Informação encararam o desafio de encontrar uma solução para aumentar a produtividade de um pequeno produtor de leite de Angicos. Depois de ouvir atentamente suas dificuldades, perceberam que o problema ia além da seca: faltava acesso à informação técnica.

Daquela visita nasceu a M.A.R.I., uma inteligência artificial integrada ao WhatsApp, desenvolvida para orientar produtores por comandos de voz, tornando o conhecimento acessível mesmo para quem tem dificuldades de leitura.
“O EliAgro me mostrou que conhecimento técnico só ganha valor quando resolve o problema de alguém”, afirma Dantas. Durante um mês, a equipe virou noites estudando, investiu recursos do próprio bolso e trabalhou para apresentar um produto funcionando, enquanto muitos concorrentes levavam apenas protótipos. O esforço foi recompensado com o primeiro lugar.
Legado
Hoje, embora a startup tenha encerrado suas atividades, o legado permanece. Dantas fundou sua própria empresa de desenvolvimento de sistemas e atribui ao desafio o despertar para o empreendedorismo. “Foi ali que descobri que era possível transformar tudo o que aprendia na universidade em soluções reais e construir meu próprio caminho profissional”.
As trajetórias dos estudantes demonstram que o EliAgro vai muito além de uma competição. A iniciativa fortalece a cultura da inovação, aproxima universidade e mercado e revela talentos que talvez jamais descobrissem seu potencial.
Ao unir a expertise acadêmica da Ufersa à experiência do Sebrae-RN na formação de empreendedores, o programa mostra que as grandes ideias não têm endereço. Elas também nascem no interior, cruzam as porteiras do sertão e ganham o mundo. Quando as luzes da premiação se apagam, o que permanece é a certeza de que o sertão também produz inovação. E que, quando universidade e empreendedorismo caminham juntos, o interior deixa de ser apenas lugar de origem para se tornar também lugar de oportunidades. (Todas as fotos foram enviadas pelos entrevistados)
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