O Portal Nossa Ciência conversou com exclusividade com o professor Fabrizio de Luiz Rosito Listo sobre o monitoramento e o enfrentamento aos riscos ambientais no Brasil. Ele é coordenador do grupo de pesquisa em Geotecnologias Aplicadas a Geomorfologia de Encostas e Planícies (Enplageo) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). O Enplageo desenvolve estudos sobre redução de riscos de desastres, movimentos de massa, enchentes, erosão e vulnerabilidade socioambiental.
Na entrevista, o pesquisador explica por que o país precisa investir cada vez mais em prevenção, planejamento urbano e participação das comunidades. Listo defende que o Brasil já possui conhecimento científico e instrumentos para prevenir desastres ambientais, mas enfrenta o desafio de transformar esse conhecimento em políticas públicas efetivas e permanentes.
Aviso da natureza: O Brasil precisa aprender a avaliar os riscos antes dos desastres acontecerem
Para ele, a redução de riscos depende de planejamento urbano integrado, mapeamento de áreas vulneráveis, participação das comunidades, fortalecimento da Defesa Civil e investimentos contínuos em prevenção. O pesquisador ressalta ainda que os desastres não são apenas fenômenos naturais, mas resultado da combinação entre mudanças climáticas, ocupação desordenada do território e desigualdades sociais, tornando essencial a articulação entre governos, universidades e população para construir cidades mais resilientes.
Incorporação do conhecimento ao planejamento das cidades
Nossa Ciência: O Brasil possui estudos voltados para a prevenção de riscos ambientais?
Fabrizio Listo: Sim. O Brasil possui uma trajetória consolidada de estudos e políticas voltadas à prevenção de riscos ambientais e de desastres, especialmente após a criação da Secretaria Nacional de Periferias do Ministério das Cidades e o fortalecimento da política nacional de redução de riscos. Hoje, um dos principais instrumentos são os Planos Municipais de Redução de Riscos (PMRR), que identificam e mapeiam áreas suscetíveis a deslizamentos, inundações e outros processos, classificam os graus de risco e definem prioridades para intervenções estruturais e não estruturais. Esses planos subsidiam o planejamento urbano e orientam investimentos públicos de forma preventiva. Desde 2023, o Governo Federal vem ampliando significativamente essa política, com a meta de expandir os PMRRs para centenas de municípios brasileiros.
Outro avanço importante são os Planos Comunitários de Redução de Riscos e Adaptação Climática (PCRA). Diferentemente dos PMRRs, que possuem uma abordagem municipal, os PCRAs colocam as comunidades no centro do processo e se aplicam na escala da comunidade. Os moradores participam do mapeamento dos problemas, da identificação das vulnerabilidades e da construção de soluções adaptadas à realidade local, fortalecendo a capacidade de prevenção e adaptação às mudanças climáticas.
Além desses instrumentos, as universidades brasileiras têm desempenhado um papel fundamental ao desenvolver pesquisas sobre suscetibilidade, vulnerabilidade social, modelagem de riscos, adaptação climática, sistemas de alerta, educação para redução de riscos e mapeamentos participativos. Esse conhecimento científico é essencial para transformar informações técnicas em políticas públicas capazes de salvar vidas e reduzir prejuízos.
É importante destacar que a prevenção é uma responsabilidade compartilhada entre cidadãos, poder público, universidades e demais instituições. Quanto maior a articulação entre esses atores, maior será a capacidade de reduzir riscos, fortalecer a preparação das comunidades e construir cidades mais seguras frente aos desastres e às mudanças climáticas.
O grande desafio, hoje, já não é apenas produzir conhecimento, mas garantir que esse conhecimento seja efetivamente incorporado ao planejamento das cidades. A prevenção é sempre mais eficiente, menos custosa e socialmente mais justa do que atuar apenas após a ocorrência dos desastres.
Nossa Ciência: O terremoto registrado recentemente na Venezuela representa algum risco para o Brasil?
Fabrizio Listo: Sim, mas em escala muito diferente. O Brasil pode registrar tremores de terra, mas o risco de grandes terremotos como o ocorrido na Venezuela é muito baixo. Isso acontece porque o Brasil está situado no interior da Placa Sul-Americana, longe das principais bordas tectônicas, onde normalmente ocorrem os terremotos mais fortes. A Venezuela, por outro lado, está próxima de zonas de contato entre placas e falhas tectônicas ativas, o que explica a maior possibilidade de eventos sísmicos intensos. O USGS registrou, em 24 de junho de 2026, dois fortes terremotos na Venezuela, de magnitudes 7,2 e 7,5.
Isso não significa que o Brasil esteja totalmente livre de abalos sísmicos. Eles existem, são monitorados pela Rede Sismográfica Brasileira e, em geral, estão associados à reativação de antigas falhas geológicas no interior da placa tectônica. Normalmente são eventos de baixa a moderada magnitude, com menor potencial destrutivo.
Portanto, o risco sísmico no Brasil é considerado baixo quando comparado a países andinos ou caribenhos. Ainda assim, é importante manter redes de monitoramento, normas técnicas de construção e estudos regionais, porque risco não depende apenas do fenômeno natural, mas também da vulnerabilidade das edificações, da exposição da população e da capacidade de resposta.

Nossa Ciência: Quais pesquisas são desenvolvidas pelo Enplageo?
Fabrizio Listo: O Enplageo desenvolve pesquisas voltadas à compreensão, ao mapeamento e à redução dos riscos associados à dinâmica ambiental e à produção desigual do espaço urbano. Nossas investigações articulam geotecnologias, trabalho de campo, modelagens ambientais e diálogo com comunidades e gestores públicos.
Entre as principais linhas de pesquisa estão a cartografia de risco e os mapeamentos participativos, a análise de processos erosivos, a dinâmica de encostas e planícies, a previsão de movimentos de massa, os estudos sobre enchentes e inundações urbanas e a aplicação de geotecnologias no diagnóstico ambiental.
Também investigamos como a metropolização, a urbanização excludente e a ocupação de áreas ambientalmente frágeis contribuem para a formação de áreas de risco. Nesse sentido, o risco não é tratado apenas como um fenômeno natural, mas como resultado da combinação entre processos físicos, vulnerabilidade social, fragilidades institucionais e desigualdades territoriais.
Outra frente importante do grupo é a Educação para Redução de Riscos de Desastres, a ERRD, com ações junto a escolas, comunidades e projetos de extensão. O objetivo é transformar o conhecimento técnico em instrumentos acessíveis, capazes de fortalecer a prevenção, a percepção de risco e a participação social.
Nossa Ciência: O avanço do mar em direção ao continente é motivo de preocupação?
Fabrizio Listo: O avanço do mar observado em diversos trechos do litoral brasileiro é resultado da combinação de processos naturais e da intensificação das mudanças climáticas. Entretanto, a intensidade dos impactos varia de uma região para outra e depende também de fatores locais, como a dinâmica costeira, o balanço de sedimentos, a ação das ondas e das marés, além das intervenções humanas sobre o litoral.
Em muitas áreas costeiras, a erosão marinha é agravada pela ocupação acelerada da faixa litorânea, pela retirada da vegetação de restinga e dos manguezais e pela construção de obras costeiras que alteram o transporte natural de sedimentos. Essas intervenções reduzem a capacidade natural da costa de dissipar a energia das ondas e de se adaptar às mudanças ao longo do tempo.
A presença de milhões de brasileiros em áreas de risco não pode ser compreendida como uma escolha individual das famílias, mas como consequência de um processo histórico de urbanização marcado por desigualdades sociais, déficit habitacional e acesso desigual à terra urbanizada.
Além disso, eventos extremos, como ressacas, tempestades e marés, tendem a produzir impactos mais severos quando ocorrem sobre um nível do mar mais elevado. Como consequência, observamos com maior frequência episódios de erosão costeira, alagamentos e danos à infraestrutura em áreas litorâneas.
Diante desse cenário, torna-se fundamental investir em planejamento costeiro, monitoramento contínuo, recuperação de ecossistemas naturais e estratégias de adaptação às mudanças climáticas. Essas medidas são essenciais para reduzir os impactos sobre as cidades costeiras e aumentar a segurança das populações que vivem nessas áreas.
Nossa Ciência: Como a população pode contribuir para reduzir os riscos de desastres?
Fabrizio Listo: A prevenção começa pelo acesso à informação e pela percepção de risco. É importante que a população conheça os principais perigos existentes no local onde vive, esteja atenta aos alertas emitidos pelos órgãos oficiais e saiba como agir em emergências.
Também é fundamental fortalecer a integração entre a população, as lideranças comunitárias e a Defesa Civil. A participação em reuniões, simulados, capacitações e ações de mapeamento participativo contribuem para que a comunidade reconheça melhor os riscos presentes em seu território e saiba como agir antes, durante e após um evento extremo. Além disso, comunicar precocemente sinais de perigo, como trincas em edificações, movimentação de encostas, alagamentos recorrentes ou alterações em cursos d’água, permite que os órgãos responsáveis atuem de forma mais rápida e eficiente.
A Educação para Redução de Riscos e Desastres (ERRD) também desempenha um papel estratégico. Quando escolas, comunidades e instituições públicas trabalham juntas na construção de uma cultura de prevenção, a população passa a reconhecer melhor os riscos e a responder de forma mais adequada diante de eventos extremos.
Por fim, é importante destacar que a prevenção é uma responsabilidade compartilhada entre cidadãos, poder público, universidades e demais instituições. Quanto maior a articulação entre esses atores, maior será a capacidade de reduzir riscos, fortalecer a preparação das comunidades e construir cidades mais seguras frente aos desastres e às mudanças climáticas.
Nossa Ciência: Muitas famílias vivem em áreas de risco. Como enfrentar esse problema?
Fabrizio Listo: A presença de milhões de brasileiros em áreas de risco não pode ser compreendida como uma escolha individual das famílias, mas como consequência de um processo histórico de urbanização marcado por desigualdades sociais, déficit habitacional e acesso desigual à terra urbanizada. Muitas pessoas acabam ocupando áreas suscetíveis a deslizamentos, inundações e outros processos porque são, muitas vezes, as únicas alternativas de moradia disponíveis.
Por isso, a redução dos riscos não pode ser tratada apenas como uma questão de engenharia ou de resposta a desastres. Ela exige políticas públicas integradas que articulem habitação, planejamento urbano, infraestrutura, regularização fundiária, saneamento, preservação ambiental e gestão de riscos. É justamente essa abordagem integrada que tem sido fortalecida nos últimos anos por instrumentos como os Planos Municipais de Redução de Riscos (PMRR) e os Planos Comunitários de Redução de Riscos e Adaptação Climática (PCRAs).
A prevenção depende dessa capacidade de planejamento de longo prazo e da atuação integrada entre ciência, gestão pública e participação social.
Ao mesmo tempo, é fundamental ampliar a participação das comunidades na construção dessas políticas. Os moradores conhecem profundamente seus territórios e, quando trabalham em conjunto com universidades, Defesas Civis e gestores públicos, contribuem para identificar problemas, definir prioridades e construir soluções mais eficazes. Reduzir o risco significa, acima de tudo, garantir que as pessoas possam viver em cidades mais seguras, inclusivas e preparadas para enfrentar os desafios impostos pelas mudanças climáticas.
Nossa Ciência: Falta uma política pública que direcione atenção mais especial à questão ambiental no Brasil?
Fabrizio Listo: O Brasil dispõe de um conjunto importante de políticas públicas e instrumentos voltados à gestão ambiental, ao planejamento urbano, à proteção e defesa civil e à redução de riscos de desastres. O principal desafio não é a ausência de políticas públicas, mas garantir que elas sejam implementadas de forma contínua, integrada e adaptadas às diferentes realidades do país. Isso exige coordenação entre os diferentes níveis de governo, investimentos permanentes, fortalecimento das capacidades técnicas dos municípios e maior articulação entre universidades, órgãos públicos, Defesas Civis e comunidades.
A gestão dos riscos ambientais é um processo permanente. À medida que as cidades crescem e que os eventos extremos se tornam mais frequentes e intensos, as políticas públicas precisam ser constantemente atualizadas, aperfeiçoadas e fortalecidas para responder aos novos desafios. A prevenção depende dessa capacidade de planejamento de longo prazo e da atuação integrada entre ciência, gestão pública e participação social.
Nossa Ciência: Qual é o principal caminho para reduzir os desastres ambientais no Brasil?
Fabrizio Listo: Para evitar ou amenizar os riscos nas áreas mais propícias, o primeiro passo é conhecer bem o território. Isso significa produzir e atualizar mapeamentos de risco, identificar as áreas mais suscetíveis, compreender quem está mais exposto e definir prioridades de ação.
A partir desse diagnóstico, é possível planejar medidas estruturais, como obras de drenagem, contenção de encostas, estabilização de taludes, recuperação de margens de rios e melhoria da infraestrutura urbana, combinando sempre que possível o uso de Soluções baseadas na Natureza (SbN). Mas também são fundamentais as medidas não estruturais, como sistemas de alerta, planos de contingência, simulados, educação para redução de riscos, mapeamentos participativos e fortalecimento da Defesa Civil.
A redução de riscos precisa integrar conhecimento técnico, gestão pública e participação comunitária. As soluções mais eficazes são aquelas construídas de forma articulada entre governos, universidades, Defesas Civis, lideranças locais e moradores, respeitando as características de cada território. Portanto, não se trata apenas de agir depois que o desastre acontece, mas de antecipar problemas, reduzir vulnerabilidades e criar condições para que as comunidades estejam mais preparadas frente a eventos extremos.
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