Ciência, tecnologia, inovação e Divulgação

A produção de conhecimento nas instituições de pesquisa percorre uma sequência lógica que lembra uma linha de produção de uma fábrica: primeiro surgem as hipóteses para solução de um dado problema, que são testadas no papel para depois seguir para a bancada de laboratório. Quando bem sucedida, a solução passa a ser concebida em termos de um protótipo, chega ao estágio de MVP (Minimum Viable Product) e viabiliza a concepção de startup e iniciativas tecnológicas de inovação. Durante toda esta caminhada, a divulgação se faz necessária – migrando desde o print da capa do artigo no Insta (estratégia de alimento do ego do autor et al.) até a propaganda elaborada (aquela que busca as dores do cliente) convencendo-o de que ele não pode viver sem aquele produto.

Passeando por este trajeto que parece fluido e lógico fica a impressão de que há uma harmonia entre os estágios de ciência básica, aplicada, inovação e divulgação científica… No entanto, no chão de fábrica, esta realidade é bem diferente. Cada área constrói seus castelos e isolamentos. Há cientista raiz que publica em revistas especializadas e divulga apenas entre os pares em eventos (congressos e encontros). A terminologia do seu trabalho e área estão tão arraigados em sua forma de se comunicar que poucas pessoas fora de seu círculo de contatos o entenderão. E como catedrático e sumidade no assunto, isso pode ser algo agradável para ele. Perde a divulgação científica, pelo desinteresse do acadêmico em se comunicar com o povo.

E essa característica de isolamento pode ser também aplicável ao pessoal da inovação. Com seu glossário de termos do marketing e canvas de todos os tipos, faz o diálogo da etapa de transição entre a universidade e o mercado um processo mais dolorido. E nesse eixo nem cabe falar em divulgação científica, pois tudo é segredo. A única comunicação necessária é lá adiante, não para o povo, mas sim para os clientes.

Fica claro que há um bloqueio entre a ciência dura e a inovação, da inovação para a divulgação científica e da publicação especializada e o dia-a-dia das pessoas. Como resolver?

O primeiro passo, discreto, já vem sendo dado pelas agências de fomento à pesquisa. E não é pedir demais a criação de um perfil em redes sociais. Ao invés de foto de capa com et al… vale a pena criar um podcast de 1 minuto. A IA já faz isso….

E o diálogo da ciência e inovação tem de ser construído pela via direta ciência-inovação. Há de existir mais cientistas que encarem os “job-to-be-done, business model canva, top of mind” e pense em negócios, para além dos artigos do Lattes.

Ter um pé em cada quadrante dessa coisa complicada que é a produção de conhecimento e sua transformação em produto é uma forma de sentir as dores de cada um e se despir daquilo que separa ao invés de unir.

E ser tudo ao mesmo tempo, é simples? Não. No final prevalecerá aquilo que te levou mais tempo. Se prevalecer o ser cientista, que seja. Ao menos será um cientista que já visitou o castelo do outro lado e que construiu pontes entre eles.

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Helinando Oliveira é físico, professor titular da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) e atualmente é vice presidente da Academia Pernambucana de Ciência