A escassez de água é um dos principais desafios para quem vive e produz no Semiárido nordestino. Mas pesquisas científicas mostram que, com tecnologias adequadas e manejo correto, é possível transformar um recurso antes descartado em uma importante alternativa para fortalecer a produção de alimentos, ampliar a segurança hídrica e promover o desenvolvimento sustentável.

Professor titular da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa) e pesquisador nível 1A do CNPq, Nildo da Silva Dias afirma que o reuso da água representa uma das estratégias mais promissoras para a convivência com a seca, principalmente na agricultura familiar. Segundo ele, o maior obstáculo ainda não é tecnológico, mas estrutural. “A principal dificuldade ainda está na insuficiência de investimentos públicos voltados à implantação de sistemas de coleta, tratamento, distribuição e monitoramento da água de reuso”, destaca.
Políticas públicas
No mais alto nível da carreira acadêmica na classificação do CNPq, o pesquisador acrescenta que a expansão dessa prática também depende de capacitação técnica, manutenção dos sistemas, controle permanente da qualidade da água e maior aceitação por parte da população. Para ele, o reuso precisa fazer parte de políticas públicas permanentes voltadas à segurança hídrica, ao saneamento rural, à produção de alimentos e ao desenvolvimento sustentável.

Outro desafio recorrente no Semiárido é a presença de águas salobras. Apesar das limitações, Dias explica que diversos estudos, incluindo pesquisas desenvolvidas na universidade, comprovam que essas águas podem ser utilizadas na irrigação quando acompanhadas de técnicas adequadas de manejo. “O mais importante é compreender que não existe uma solução única. O manejo deve resultar da combinação de diferentes estratégias, ajustadas ao tipo de solo, à cultura, à qualidade da água, ao sistema de irrigação e às condições locais de produção”, explica. Entre essas estratégias estão o cultivo de espécies mais tolerantes à salinidade, a mistura de águas de diferentes qualidades, sistemas de drenagem, irrigação localizada, além do uso de bioestimulantes para reduzir os efeitos do estresse salino.
A ciência também demonstra que a agricultura familiar pode manter bons níveis de produção mesmo em regiões com pouca disponibilidade hídrica. De acordo com o pesquisador, tecnologias sociais como cisternas, barragens subterrâneas, sistemas de captação da água da chuva, trincheiras e estruturas para conservação da água e do solo têm contribuído para transformar a realidade de muitas comunidades rurais. “O semiárido brasileiro demonstra que é possível conviver com a escassez por meio de políticas públicas territoriais, conhecimento técnico e valorização das tecnologias sociais”, afirma Dias.
Gestão da água
As pesquisas coordenadas pelo professor reforçam que a qualidade da água, isoladamente, não determina o sucesso da produção agrícola. Os resultados apontam que a produtividade depende da interação entre água, solo, cultura, sistema de irrigação, drenagem e práticas de manejo. Outro aspecto considerado essencial é o monitoramento contínuo da salinidade do solo, do estado nutricional das plantas e da eficiência dos sistemas de irrigação. “O manejo integrado é o que torna possível produzir com segurança em condições adversas”, resume.

Entre as soluções estudadas pela equipe da Ufersa, as lavanderias ecológicas se destacam por unir benefícios ambientais e sociais. Esses sistemas permitem tratar e reutilizar águas cinzas que normalmente seriam descartadas, reduzindo o consumo de água potável e possibilitando seu aproveitamento na irrigação de plantas, limpeza de áreas e outras atividades que não exigem água própria para consumo humano.
Além de preservar os recursos hídricos, as lavanderias ecológicas podem gerar renda, melhorar as condições de trabalho e fortalecer a autonomia das mulheres rurais. Quando associadas a tecnologias de baixo custo, como sistemas de energia solar, tornam-se uma alternativa ainda mais eficiente para comunidades do Semiárido.
Adaptação ao clima
Para o pesquisador, enfrentar a escassez de água exige um conjunto de ações integradas. Entre elas estão a captação e o armazenamento da água da chuva, o reuso de águas cinzas e efluentes tratados, a dessalinização de águas salobras, a recuperação de nascentes, a conservação do solo e o uso de sistemas de irrigação mais eficientes. Também são fundamentais o cultivo de espécies adaptadas ao clima semiárido, o monitoramento da umidade do solo e o planejamento da produção conforme a disponibilidade hídrica.
O semiárido brasileiro demonstra que é possível conviver com a escassez por meio de políticas públicas territoriais, conhecimento técnico e valorização das tecnologias sociais.
Nildo Dias destaca que o desafio não se resume ao aumento da oferta de água. “A gestão da água é tão importante quanto a disponibilidade de água”, ressalta. Segundo ele, assistência técnica, educação ambiental, manutenção das estruturas, participação das comunidades, atuação dos comitês de bacias hidrográficas e políticas públicas permanentes são elementos essenciais para garantir que a ciência continue transformando a convivência com a seca em oportunidades para o desenvolvimento sustentável do Semiárido.
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