Um estudo realizado em uma comunidade rural do Agreste de Pernambuco mostra que a conservação das plantas alimentícias silvestres da Caatinga vai além da permanência das espécies no ambiente. Ao comparar dados coletados entre 2008 e 2010 com informações reunidas em 2024 e 2025, os pesquisadores observaram como mudanças ecológicas, sociais e culturais estão relacionadas ao consumo atual e passado dessas plantas.
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O grupo também investigou se os padrões de abandono do uso eram semelhantes entre espécies com características evolutivas em comum. Os resultados reforçam que a conservação das plantas não pode ser separada da conservação das relações que as pessoas estabelecem com elas.
O estudo não revela simplesmente uma história de plantas que desapareceram da Caatinga. Muitas espécies continuam presentes no ambiente, mas podem estar perdendo espaço no cotidiano e na memória das pessoas.
Proteger a biodiversidade, proteger as pessoas
A pesquisa amplia, assim, a própria maneira de pensar a conservação da Caatinga. Proteger as plantas não significa apenas garantir sua permanência no ambiente. Também é preciso considerar as relações que as comunidades constroem com essas espécies ao longo do tempo. Em muitos territórios, os moradores não estão à margem da história da biodiversidade, mas fazem parte dela por meio do manejo, do uso, dos conhecimentos acumulados e das formas de transformação dos ambientes.
A população pesquisada vive na comunidade de Carão, uma comunidade rural pertencente ao município de Altinho, a cerca de 160 quilômetros de Recife (PE), localizada em uma área de Caatinga do semiárido nordestino.

“Esse território nos permite compreender sobre a Caatinga, ele mostra que as transformações do bioma não são apenas ambientais. Mudanças na população, migração, formas de produção, acesso ao mercado e modos de vida também modificam a maneira como as pessoas interagem com as plantas e com o território”, explica Marleny Prada De La Cruz, primeira autora do artigo Repeated cross-sectional study of knowledge and use of wild food plants in the Caatinga of Northeastern Brazil, publicado na revista Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine, da Springer Nature.
17 anos acompanhando o conhecimento sobre plantas da Caatinga
A escolha de Carão está relacionada a uma característica pouco comum em pesquisas desse tipo: a possibilidade de acompanhar a mesma comunidade durante um período prolongado. O grupo mantém uma relação de cerca de 17 anos com os moradores, com pesquisas, visitas, diálogo e atividades de devolutiva.
Para De La Cruz, essa continuidade permite observar como a relação das pessoas com a biodiversidade se transforma. A comunidade também possui uma relação histórica com as plantas alimentícias silvestres, especialmente em períodos de seca e escassez de alimentos. Como já havia dados coletados entre 2008 e 2010, os pesquisadores puderam retornar ao mesmo território mais de uma década depois e fazer uma comparação temporal. “Manter o vínculo ao longo do tempo permite construir confiança, dialogar sobre os resultados e estabelecer uma relação mais contínua entre universidade e comunidade”, afirma.
A comparação entre os dois períodos também ajuda a mostrar que as mudanças observadas na comunidade não têm como única explicação as alterações na paisagem. Segundo a pesquisadora, transformações na população, migração, formas de produção, acesso ao mercado e modos de vida também interferem na maneira como os moradores se relacionam com as plantas.
As plantas desapareceram?
Uma das conclusões que pode parecer contraintuitiva é que o abandono do uso das plantas não esteve diretamente relacionado à degradação ambiental. “Um ponto importante é que nossa pesquisa não mostrou uma relação direta entre degradação ambiental e desaparecimento dessas plantas”, explica De La Cruz.

Ao comparar o uso e a cobertura do solo no entorno da comunidade nos dois períodos, os pesquisadores encontraram uma paisagem relativamente estável, com mudanças consideradas mais modestas. A disponibilidade das plantas no ambiente, por outro lado, estava mais associada ao consumo no passado.
Uma versão em voz ativa seria:
Isso significa que os moradores consumiam muitas espécies porque as encontravam disponíveis e mantinham contato cotidiano com a Caatinga. Com as mudanças no modo de vida, esse contato pode ter diminuído. A presença da planta na paisagem, portanto, não é suficiente para garantir que ela continue sendo utilizada como alimento.
As espécies que permanecem em uso aparecem mais associadas a fatores socioculturais, como tradição, preferência, memória e formas de preparo. “Conservar essas plantas não depende apenas de elas continuarem existindo na paisagem. Também é importante manter as relações e práticas culturais que conectam as pessoas a esses recursos”, afirma a doutoranda em Biologia Vegetal, na UFPE.
Um conhecimento que ainda está na memória
Os resultados também chamam atenção para a diferença entre aquilo que os moradores conseguem lembrar espontaneamente e aquilo que ainda conseguem reconhecer quando recebem algum estímulo. O bom-nome e a maniçoba estão entre as espécies que não foram mencionadas espontaneamente pelos participantes no levantamento mais recente, mas voltaram a ser reconhecidas quando os pesquisadores apresentaram fotografias.

O resultado sugere que parte desse conhecimento pode não ter desaparecido completamente, embora já não ocupe o mesmo lugar no repertório imediato e no cotidiano da comunidade.
O coordenador do Laboratório de Ecologia e Evolução de Sistemas Socioecológicos (LEA), da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e do estudo, Ulysses Paulino de Albuquerque, explica que é preciso ter cuidado ao interpretar a redução das plantas mencionadas pelos moradores como uma simples perda de conhecimento. “O que nossos resultados sugerem é que precisamos diferenciar perda de conhecimento de uma mudança na forma como esse conhecimento é mantido e acessado”, afirma.
É preciso ver para lembrar
Quando os pesquisadores repetiram a mesma técnica utilizada no primeiro período do estudo, observaram uma redução no número e na frequência de plantas lembradas espontaneamente. Mas, quando utilizaram fotografias e outros estímulos de memória, os participantes voltaram a reconhecer várias espécies.
Isso indica que parte do conhecimento não desapareceu completamente. Ele permanece na memória, mas perdeu espaço no cotidiano. Nove espécies que haviam sido registradas no primeiro período, mas que não apareceram nas listas espontâneas atuais, foram recuperadas por meio da lembrança auxiliada por fotografias.
Para o professor do Departamento de Botânica da UFPE, essa diferença é importante porque o conhecimento tradicional não depende apenas da capacidade de reconhecer ou nomear uma planta. Ele se fortale pela prática: encontrar a espécie no ambiente, coletá-la, prepará-la, consumi-la e aprender essas atividades com outras pessoas.
“Quando essas interações diminuem, o conhecimento pode permanecer durante algum tempo como memória ou reconhecimento, mas pode se tornar mais vulnerável à perda nas gerações seguintes”, explica Albuquerque.
Quando a evolução também entra na história
O estudo buscou ainda entender se havia relação entre o abandono do uso das plantas e o parentesco evolutivo entre as espécies. Em outras palavras, os pesquisadores quiseram saber se plantas que possuem características evolutivas em comum apresentavam tendências semelhantes de abandono.
O resultado mostrou um sinal filogenético limitado. Em termos simples, o parentesco evolutivo entre as plantas exerce alguma influência sobre a continuidade ou o abandono de seu uso, mas essa influência não é suficiente para explicar o destino das espécies.
Plantas evolutivamente próximas podem compartilhar características que interferem na possibilidade de consumo, como espinhos, sabores intensos, toxicidade ou necessidade de processamento antes de serem ingeridas.
Mas espécies aparentadas podem seguir caminhos diferentes. O contraste aparece até entre plantas do mesmo gênero. A maniçoba (Manihot dichotoma) foi consumida no passado pela comunidade, enquanto a purnunça (Manihot glaziovii), também do gênero Manihot, era conhecida, mas nunca consumida. É um exemplo de como espécies evolutivamente próximas podem ocupar lugares diferentes na cultura alimentar de uma população.
“Nosso resultado mostra que a história evolutiva, sozinha, não explica o destino dessas espécies. Plantas aparentadas podem seguir trajetórias diferentes porque fatores culturais também têm um papel muito importante, como tradição, preferência, memória, formas de preparo e valor simbólico”, explica De La Cruz.
Para a pesquisadora, o resultado mostra que o uso das plantas vem da interação entre biologia e cultura. De La Cruz desenvolve, em seu doutorado, o tema Plantas alimentícias silvestres diante das mudanças climáticas: contribuição para os sistemas alimentares locais no semiárido do Nordeste do Brasil. O trabalho tem orientação de Albuquerque com coorientação de Michelle Cristine Medeiros Jacob, do Departamento de Nutrição da Universidade federal do Rio Grande do Norte.
Mudanças na comunidade
A transformação desse repertório de plantas ocorre em um contexto mais amplo de mudanças sociais e econômicas. O coordenador da pesquisa cita entre esses processos a redução populacional, a migração, a mecanização agrícola, a maior inserção em circuitos de mercado e a diversificação das fontes de renda observadas na comunidade estudada.

No passado, segundo ele, o contato frequente com determinados ambientes favorecia um consumo oportunístico: a pessoa encontrava uma planta enquanto realizava outras atividades e a incorporava à alimentação. Com as transformações socioeconômicas, esse contato cotidiano pode diminuir.
O pesquisador ressalta, porém, que os resultados não permitem atribuir isoladamente essas mudanças ao abandono do uso das plantas. Elas formam o contexto da transformação do repertório.
Biodiversidade também é memória
Para os pesquisadores, acompanhar o conhecimento das comunidades pode ser uma forma complementar de observar mudanças na biodiversidade. De La Cruz considera esse conhecimento um indicador biocultural complementar. Quando as pessoas deixam de lembrar, reconhece ou utilizar determinadas plantas, isso pode ter relação tanto com mudanças ambientais quanto com transformações sociais e culturais.
Por isso, monitorar apenas a presença ou o número de espécies em determinado território pode não revelar toda a dimensão da mudança. Uma paisagem pode manter relativamente estável sua biodiversidade, enquanto algumas das espécies que possuem importância alimentar e cultural para uma comunidade deixam de fazer parte de sua vida cotidiana.
“Além de monitorar quais espécies existem no território, seria importante acompanhar também quais continuam sendo reconhecidas, coletadas, utilizadas e transmitidas entre gerações”, explica a pesquisadora.
Conservar a planta e a relação com ela
A pesquisa aponta, assim, para um desafio que vai além da conservação das espécies. Para Albuquerque, que é membro da Membro da Academia Pernambucana de Ciências, proteger uma área de Caatinga é fundamental, mas isso pode não ser suficiente para preservar o conhecimento associado às plantas se as pessoas deixarem de interagir com elas no cotidiano.

“Uma das principais mensagens do nosso estudo é que não podemos separar a conservação da biodiversidade da conservação das relações entre as pessoas e essa biodiversidade”, afirma.
O pesquisador defende duas frentes simultâneas: conservar e restaurar os ambientes onde as espécies ocorrem e, ao mesmo tempo, fortalecer as condições para que o conhecimento continue sendo praticado e transmitido. Entre as possibilidades estão a valorização da gastronomia local, o apoio a produtos e circuitos locais de comercialização e, principalmente, a criação de oportunidades de aprendizagem entre gerações por meio da prática.
A ideia também questiona uma visão de conservação que coloca as populações locais como obstáculos à proteção da natureza. Para ele, em muitos territórios essas populações fazem parte da própria história de manejo, uso, conhecimento e transformação dos ambientes. No caso de Carão, as plantas podem continuar presentes na paisagem. O desafio é fazer com que elas também continuem presentes na vida das pessoas. O artigo tem a participação de Aníbal Silva Cantalice do LEA/UFPE. (Todas as imagens desta matéria foram cedidas pela pesquisadora Marleny Prada De La Cruz).










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