Uma análise internacional de dados de neuroimagem mostra que substâncias psicodélicas podem alterar de maneira ampla a comunicação entre diferentes redes do cérebro, tornando sua atividade mais integrada e menos rígida. O estudo, publicado na revista científica Nature Medicine, reuniu 11 conjuntos de dados de pesquisas realizadas em três continentes e cinco países e contou com a participação de dois pesquisadores brasileiros do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (ICe/UFRN): o professor Dráulio Barros de Araújo e a neuroengenheira Fernanda Palhano-Fontes.
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Intitulado An international mega-analysis of psychedelic drug effects on brain circuit function, o trabalho é assinado por 27 pesquisadores e representa uma das mais abrangentes análises já realizadas sobre os efeitos de psicodélicos na organização funcional do cérebro. Foram investigados dados obtidos por ressonância magnética funcional (fMRI) em estado de repouso de voluntários saudáveis que receberam cinco diferentes substâncias: psilocibina, LSD, mescalina, DMT e ayahuasca.
A participação do grupo brasileiro ocorreu por meio dos dados de uma pesquisa liderada por Araújo com ayahuasca. Os pesquisadores do ICe vêm desenvolvendo estudos sobre os efeitos de substâncias psicodélicas há anos, incluindo investigações sobre seus mecanismos de ação no cérebro e suas possíveis aplicações terapêuticas.
Uma visão mais ampla do cérebro sob efeito dos psicodélicos
De maneira geral, os resultados indicam que os psicodélicos modificam a comunicação entre diferentes redes cerebrais, especialmente aquelas relacionadas à cognição e à percepção. A alteração da conectividade sugere uma reorganização da atividade cerebral, com redução da rigidez dos padrões habituais de comunicação entre regiões.

A análise conjunta de diferentes estudos foi importante para identificar padrões que poderiam não ser percebidos em pesquisas individuais, muitas vezes limitadas por amostras pequenas.
“A fMRI é uma técnica de neuroimagem amplamente utilizada, pois permite inferir a atividade cerebral de forma não invasiva e com boa resolução espacial. No entanto, ela não é obrigatória nem padrão em todos os estudos clínicos com psicodélicos. Muitos trabalhos focam apenas em desfechos clínicos e subjetivos”, explicou Fernanda Palhano-Fontes, em entrevista concedida à Agência de Comunicação da UFRN.
Os 11 conjuntos de dados analisados foram produzidos por diferentes grupos de pesquisa. A estratégia adotada pelos autores permitiu aplicar uma metodologia comum às informações coletadas em estudos distintos, aumentando a capacidade de identificar efeitos consistentes associados às substâncias.
A participação da UFRN
No caso brasileiro, apenas a pesquisa coordenada por Dráulio Barros de Araújo apresentou dados compatíveis com os critérios definidos para a mega-análise.
“Os dados coletados no estudo foram obtidos com a ayahuasca. Outros grupos também usam a fMRI para investigar substâncias psicodélicas, mas, neste caso, apenas o nosso grupo possuía dados no formato de interesse para essa análise”, explicou o pesquisador.
Araújo atualmente concentra parte de suas pesquisas nos efeitos do DMT, uma das substâncias analisadas no estudo internacional.
A pesquisa com psicodélicos desenvolvida no ICe reúne estudos sobre os efeitos dessas substâncias no funcionamento cerebral e suas possíveis aplicações no tratamento de transtornos psiquiátricos.
Embora a análise tenha identificado tendências gerais entre os psicodélicos, os resultados não foram iguais para todas as substâncias. A ayahuasca apresentou um padrão de conectividade diferente daquele observado predominantemente nos demais psicodélicos.
“Não foi realizada nenhuma análise específica por nacionalidade, e sim por substâncias. A ayahuasca apresentou um padrão distinto dos demais psicodélicos: enquanto outras substâncias aumentaram a conectividade entre redes, ela mostrou, predominantemente, reduções, especialmente nos sistemas sensório motores, límbicos e subcorticais, com poucos aumentos consistentes”, explicou Palhano-Fontes.
Segundo a pesquisadora, algumas características podem ajudar a explicar essa diferença. A ayahuasca possui uma composição farmacológica mais complexa, combinando DMT e inibidores da monoamina oxidase (MAO). Além disso, diferenças no tamanho das amostras e no desenho experimental dos estudos analisados também precisam ser consideradas.
Esses fatores, segundo Palhano-Fontes, limitam comparações diretas entre as substâncias e indicam a necessidade de novos estudos.
Um campo de pesquisa ainda recente
Apesar do uso de substâncias capazes de alterar a consciência acompanhar diferentes sociedades ao longo da história, a investigação científica moderna dos psicodélicos é relativamente recente.
Um dos principais marcos dessa trajetória ocorreu em 1938, quando o químico suíço Albert Hofmann sintetizou a dietilamida do ácido lisérgico, o LSD. Desde então, diferentes grupos passaram a investigar os efeitos dessas substâncias sobre a percepção, a atividade cerebral e, mais recentemente, seu potencial terapêutico.
O campo ainda apresenta, portanto, muitas questões em aberto. Estudos de neuroimagem realizados nas últimas décadas ajudaram a revelar que os psicodélicos não atuam simplesmente sobre uma única região do cérebro, mas podem modificar a dinâmica de comunicação entre diferentes sistemas.
É nesse cenário que a mega-análise publicada na Nature Medicine ganha relevância. Ao reunir dados de diferentes países e substâncias em uma mesma investigação, o trabalho oferece uma visão mais abrangente de como os psicodélicos alteram a organização funcional do cérebro.
Consórcio internacional
A realização do estudo também levou à criação de um consórcio internacional reunindo grupos que atuam na pesquisa com psicodélicos.

“O consórcio foi criado inicialmente com o objetivo de conduzir a análise cujos resultados acabam de ser publicados. Outras análises podem ser feitas com base nos mesmos dados, mas, no momento, não há nada em andamento. Também não há, por ora, previsão de inclusão de novos conjuntos de dados. A participação do nosso grupo reflete a inserção e a contribuição do trabalho realizado no Brasil nesse contexto”, afirmou Araújo.
Para Fernanda Palhano-Fontes, a colaboração internacional ajuda a enfrentar um dos principais desafios de uma área ainda em consolidação: a fragmentação dos resultados.
“O estudo contribui para dar maior consistência a um campo ainda bastante fragmentado. Até então, os estudos com psicodélicos e neuroimagem eram, em geral, pequenos e, frequentemente, apresentavam resultados divergentes. Ao reunir dados de diferentes países com o mesmo método analítico, essa análise permite identificar padrões mais robustos de ação dos psicodélicos no cérebro”, avaliou.

Para a pesquisadora, o trabalho também representa um marco para a trajetória do grupo da UFRN. “Para o nosso grupo, representa um marco em uma trajetória de cerca de duas décadas, evidenciando a qualidade e a relevância da pesquisa em desenvolvimento”, concluiu.










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