Imagem de Nossa Senhora Aparecida com manto azul-marinho bordado em dourado e coroa ornamentada.
Foi protocolado o Projeto de Lei 2.623/2007, que propunha alterar a Lei nº 6.802/1980 para substituir a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. (Foto: Mônica Costa)

O neoconservadorismo como discurso

No próximo domingo, dia 4 de outubro, o Brasil vai viver mais um momento histórico, eleições para presidente, senadores e deputados federais. Um momento decisivo entre a manutenção das instituições democráticas e o aceno para o retrocesso ao autoritarismo que o bolsonarismo representa.

Como entender que o bolsonarismo ainda siga firme e forte, após tantas evidências contra o mínimo que seja um Estado de direito? Foi em busca dessa compreensão que me detive na leitura do livro “O novo conservadorismo brasileiro”, de Marina Basso Lacerda. Publicado originalmente pela Editora Zouk, em 2019, foi finalista no Prêmio Jabuti (62ª. Edição) e vencedor do Prêmio Minuano de Literatura.

O que é o neoconservadorismo

Resultado da Tese de Doutorado em Ciência Política no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ, escrita entre 2016 e 2018, o livro teve reedição ampliada em 2024 e apresenta um panorama geral e detalhado do neoconservadorismo, desde suas origens no governo de Ronald Reagan nos EUA até alcançar sua expressão brasileira no bolsonarismo.

Amparada no referencial teórico de autores como Sara Diamond, David Harvey e Wendy Brown, cujos estudos voltaram-se para os movimentos e modos de pensamento conservadores e de direita nos Estados Unidos, a autora assim conceitua tal movimento:

O neoconservadorismo é um movimento político que forjou um ideário privatista (defende o predomínio do poder privado da família e das corporações), antilibertário (a favor da interferência pública em aspectos da vida pessoal), neoliberal (contra a intervenção do estado para a redução de desigualdades), conservador (articula-se em reação ao Estado de bem-estar e aos movimentos feminista e LGBT) e de direita (opõe-se a movimentos reivindicatórios que buscam maior igualdade de direitos) (Lacerda, 2024, p. 68).

Marina se propôs então a investigar a manifestação do neoconservadorismo brasileiro. Em outras palavras, procurou compreender as condições de possibilidade para que, no Brasil, se elegesse em 2018 um presidente “outsider” de ideário neoconservador.

Bolsonarismo e a ascensão da direita cristã

Assim,  a autora remontou à legislatura de 2015, quando Eduardo Cunha assumiu a Presidência da Câmara dos Deputados e se intensificaram ações em nome da “família tradicional”, mas já embrionadas na cooptação das manifestações de rua de 2013. O resultado, todos vimos e sofremos: a emergência desse fenômeno chamado bolsonarismo. Atuando como deputado federal pelo Rio de Janeiro, mudando de sigla partidária nove vezes, assim a autora descreve a trajetória política de Bolsonaro, o pai:

Ao longo dos 18 anos estudados, não há menções relevantes a temas como saúde (a maior parte de referências ao tema é ao plano e ao fundo de saúde dos militares), saneamento, educação (exceto em relação ao kit gay), transportes, cultura e infraestrutura. Sobre a agricultura, parte das suas intervenções é contra o MST e contra demarcações de terras indígenas. Quanto aos projetos sociais, Bolsonaro basicamente sempre foi contra ações que atendessem aos pobres. O político foi contra o Bolsa Escola, o Fome zero e o Bolsa Família, e defendia o Bolsa Família apenas no caso de laqueadura e vasectomia (Lacerda, 2024, p. 219)

E por mais que teses e mais teses tenham sido escritas e publicadas, ainda é de se estarrecer como uma figura sem expressão nenhuma no campo político tenha alcançado o posto máximo de dirigente da nação. E que outra, do mesmo calibre, se pretenda novamente.

Livro O Novo Conservadorismo Brasileiro, de Marina Basso Lacerda, sobre a ascensão do conservadorismo no Brasil
Com nova reedição em 2024, o livro de Marina Bessa foi publicado originalmente pela Editora Zouk, em 2019. Foi finalista no Prêmio Jabuti (62ª. Edição) e vencedor do Prêmio Minuano de Literatura. (Foto; Cellina Muniz)

As condições de possibilidade para isso são apontadas por Marina Lacerda especialmente no capítulo 6 de seu livro, sumarizadas da seguinte forma: a) a força do argumento, em que o poder privado do livre mercado mais a força do patriarcado convencem e persuadem; b) a ascensão do voto confessional, em que é forjada a relação estreita entre o exercício do voto e a firmação da fé religiosa, o que ocorre em paralelo ao c) crescimento da Direita cristã, cuja bancada evangélica majoritariamente é composta por bolsonaristas; d) o grande caldo formado por Militares, Olavo de Carvalho e a guerra cultural, o que fez recrudescer o anticomunismo e o antipetismo; e, por fim, mas não menos importante, e) o uso das mídias digitais, em que, a exemplo da cartilha de Steve Bannon e da campanha de Donald Trump, o uso massivo de robots e a divulgação de fake news foram estratégia decisisva. Junto a tudo isso, claro, a retirada de Lula da disputa política de 2018, graças ao ardil da Operação Lava-Jato.

A atualização do discurso neoconservador

A história se repete. Agora, o filho do pai tenta se eleger e o bolsonarismo tenta voltar ao poder oficial fazendo uso dos mesmos estratagemas políticos. Uma rápida leitura de uma postagem em uma de suas redes sociais mostra como o discurso neoconservador se reatualiza, tomando como exemplo a polêmica envolvendo a destituição de Nossa Senhora de Aparecida de padroeira do Brasil.

Em 2007 foi protocolado o Projeto de Lei 2.623/2007, que propunha alterar a Lei nº 6.802/1980 para substituir a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”, de autoria do então deputado Victório Galli Filho, depois assessor especial de Jair Bolsonaro em 2019 e apoiador de Flávio Bolsonaro nestas eleições. O projeto foi arquivado em 2008, mas Flavio Bolsonaro chegou a declarar textualmente que, ao tornar-se candidato a presidente, “um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do senhor Jesus Cristo”.

Diante das reações, o candidato postou:

Eu defendo que os católicos, os evangélicos e que pessoas de qualquer fé possam exercer sua fé livemente. Não caiam em fake news, eu jamais tiraria Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil. Isso não cabe ao presidente. Quem desrespeita a fé e o cristianismo é o Lula e a esquerda. É só procurar o que os aliados dele fazem mundo afora.

Mais uma vez, a estratégia discursiva de atribuir ao opositor (Lula) uma imagem odiosa, amparada no velho discurso anticomunista/antipetista, de quem “desrespeita a fé e o cristianismo”. A estratégia – isso que podemos chamar “ethos atribuído” – nada mais visa que angariar a simpatia de seua auditório, a “boa e velha” direita cristã. Somado à – mais uma – negação, o resultado é simples: pura e vazia retórica.

A história se repete, sim, bem sabemos, e o neoconservadorismo em sua expressão bolsonarista continua vivo, muito vivo. Sejamos vivos também e não caiamos no erro do retrocesso político.