O Informe OCTI Ano 7 nº 9, produzido pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, oferece um retrato analítico da produção científica brasileira indexada na Web of Science (WoS) entre 2015 e 2025.
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A metodologia combina três indicadores principais: o Índice de Especialização (IE) – razão entre a participação percentual de uma área na produção brasileira e sua participação mundial –, a participação relativa de cada área no portfólio nacional e o percentual de colaboração internacional. Utilizam-se ainda o crescimento percentual no triênio e diagramas estratégicos que cruzam essas dimensões, com eixos fixados nas medianas do período. A base WoS, reconhecida por sua curadoria, apresenta menor cobertura em Humanidades e Ciências Sociais, o que exige cautela interpretativa.
A série anual mostra uma trajetória de expansão, inflexão e recuperação. O número de artigos com participação brasileira passou de 53.308, em 2015, para o pico de 80.579, em 2021. Em 2022 e 2023, recuou para 69.481 e 65.894, respectivamente, retomando o crescimento em 2024 e 2025, com 71.027 artigos no último ano. O saldo do período é de crescimento de 33,2% em dez anos. Simultaneamente, a colaboração internacional avançou de 30% para 39% no mesmo intervalo, indicando inserção crescente em redes globais, ainda que em ritmo distinto da produção total.

O mapa da especialização brasileira é fortemente concentrado nas Ciências da Vida e Biomedicina. Das 30 áreas com maior IE no triênio 2023-2025, 27 pertencem a essa macroárea. Parasitologia lidera com IE de 5,04, seguida por Medicina Tropical (4,70), Odontologia (4,00) e Zoologia (3,70). Agricultura (2,62), Silvicultura (2,58) e Biodiversidade e Conservação (2,50) também figuram entre as mais especializadas, evidenciando o vínculo entre a pesquisa nacional e suas características territoriais, ambientais e produtivas. Apenas três áreas fora do eixo biomédico aparecem no topo: Geografia (1,99), Astronomia e Astrofísica (1,55) e Ciência da Informação e Biblioteconomia (2,08).
As chamadas “Fortalezas Estruturais” somam 49 áreas que combinam IE acima da mediana de 0,90 e participação superior a 0,49% do portfólio brasileiro – dominadas pelas Ciências da Vida. Os “Nichos Especializados” reúnem 27 áreas com alta especialização, mas baixo peso interno, como Mineralogia, que tem IE superior a 1,0 e representa apenas 0,19% da produção total. Já as “Áreas de Potencial Estratégico” têm participação relevante, mas IE inferior a 1,0, caso de Engenharia (0,54), Ciência dos Materiais (0,54) e Ciência da Computação (0,53). Óptica, com IE de 0,30, e Geriatria (0,51) aparecem como áreas que requerem monitoramento.
Internacionalização da Ciência Brasileira
A colaboração internacional expõe outro padrão. Astrofísica e Astronomia lideram com 77,2% de artigos em coautoria estrangeira, seguidas por Biologia Evolucionária (70,7%), Ciência de Imagem e Tecnologia Fotográfica (61,0%) e Psiquiatria (59,1%). Sensoriamento Remoto (57,4%), Física (57,0%) e Geoquímica (55,9%) também apresentam alta inserção internacional. Áreas da saúde como Parasitologia (35%) e Medicina Tropical, apesar de altamente especializadas, mostram percentuais de colaboração abaixo da média nacional de 39%, refletindo agendas fortemente orientadas para desafios domésticos e regionais, não por fragilidade, mas por sua ancoragem em realidades brasileiras.

A análise da relação entre especialização e colaboração internacional revela padrões distintos. Áreas como Parasitologia e Medicina Tropical, embora apresentem os mais altos índices de especialização relativa do País, registram percentuais de colaboração internacional abaixo da média nacional de 39%. Esse dado não indica fragilidade, mas reflete a ancoragem dessas pesquisas em problemas sanitários e ambientais específicos do território brasileiro, com forte orientação para demandas domésticas.
Redes globais
Em contrapartida, campos tecnológicos como Ciência dos Materiais, Ciência da Computação e Telecomunicações combinam baixa especialização relativa (IE entre 0,5 e 0,6) com colaboração internacional elevada, superando 50% em alguns casos. Essa configuração indica que tais áreas, embora ainda pouco especializadas frente à média mundial, já possuem inserção em redes globais, representando oportunidades para adensamento e escala.
Já áreas como Engenharia, Energia e Combustíveis e Automação e Sistemas de Controle apresentam um quadro mais crítico: além de índices de especialização inferiores a 1,0, suas taxas de colaboração internacional situam-se abaixo da mediana, revelando uma posição de transição ou estagnação. Essa combinação sinaliza risco estratégico, pois são campos diretamente associados à base produtiva, à infraestrutura e à soberania tecnológica.
A leitura integrada dos indicadores mostra que, para a Tecnologia, não há um bloco homogêneo. Algumas áreas – como Ciência dos Materiais, Ciência da Computação e Sensoriamento Remoto – têm volume relevante na produção nacional e inserção internacional consolidada, o que as coloca em posição favorável para políticas de escala e cooperação. Outras, porém, como Engenharia e Energia, demandam instrumentos mais diretos de indução temática, articulação com o setor produtivo e continuidade de financiamento, sob pena de ampliação do fosso tecnológico em relação aos países centrais e emergentes.
Frentes estratégicas
As recomendações do informe demandam atenção e urgência. Primeiro, preservar as fortalezas em saúde, biodiversidade, ambiente e agricultura, garantindo continuidade institucional e financiamento estável. Segundo, internacionalizar a partir da competência nacional: em áreas de alta especialização e menor colaboração, a estratégia não deve ser importar agendas externas, mas fortalecer redes Sul-Sul e valorizar dados, biomas e sistemas de saúde brasileiros. Terceiro, a Tecnologia exige instrumentos diferenciados: campos com articulação internacional já estabelecida podem se beneficiar de programas de escala; áreas em transição demandam políticas de adensamento mais diretas, com indução temática e articulação com o setor produtivo.
O informe propõe duas frentes estratégicas simultâneas: consolidar e proteger as vantagens científicas existentes e reduzir assimetrias em campos transversais ao desenvolvimento produtivo e à soberania tecnológica. Biodiversidade, saúde, agricultura, ambiente, dados, materiais, inteligência artificial, energia e infraestrutura científica podem formar agendas integradas de maior valor para o País. Essa integração exige superar a lógica de crescimento dependente e construir pontes entre as fortalezas consolidadas e as áreas tecnológicas capazes de ampliar impacto, aplicação e autonomia.
Volumosa, especializada e internacionalmente relevante
A principal implicação estratégica é que o Brasil precisa tratar sua especialização como um ativo, não como uma fotografia estática. O IE mostra onde o País é proporcionalmente mais ou menos especializado; a participação relativa indica o peso interno das áreas; a colaboração internacional revela diferentes modos de inserção em redes globais. A combinação desses indicadores permite distinguir o que deve ser preservado, o que deve ser adensado, o que pode ganhar escala internacional e o que requer acompanhamento mais próximo – uma bússola para o planejamento do Sistema Nacional de CT&I.
Os dados indicam que a ciência brasileira é volumosa, especializada e internacionalmente relevante, mas marcada por assimetrias internas e dependência de agendas externas. A Tecnologia, em particular, aparece como ponto crítico – com IE baixo e colaboração internacional insuficiente em áreas estratégicas para a reindustrialização e a transição energética. Superar esse descompasso exige políticas orientadas por missões, que integrem universidades, centros de pesquisa e setor produtivo em torno de desafios nacionais concretos, sem deslocar recursos das fortalezas existentes.
Soberania
O informe do OCTI, ao oferecer um monitoramento sistemático e comparado, não é um retrato estático, mas um instrumento de inteligência para a decisão. Ele mostra que o Brasil tem competências consolidadas em áreas ligadas à sua realidade tropical e ambiental, mas que a ampliação da autonomia tecnológica e a redução das desigualdades regionais dependem de escolhas deliberadas de política pública. A ciência brasileira avança, mas seu futuro será determinado pela capacidade de transformar especialização em soberania – e de fazê-lo de forma equitativa no território.
A análise da relação entre especialização e colaboração internacional revela padrões distintos. Áreas como Parasitologia e Medicina Tropical, embora apresentem os mais altos índices de especialização relativa do País, registram percentuais de colaboração internacional abaixo da média nacional de 39%. Esse dado não indica fragilidade, mas reflete a ancoragem dessas pesquisas em problemas sanitários e ambientais específicos do território brasileiro, com forte orientação para demandas domésticas.
Adensamento e escala
Em contrapartida, campos tecnológicos como Ciência dos Materiais, Ciência da Computação e Telecomunicações combinam baixa especialização relativa (IE entre 0,5 e 0,6) com colaboração internacional elevada, superando 50% em alguns casos. Essa configuração indica que tais áreas, embora ainda pouco especializadas frente à média mundial, já possuem inserção em redes globais, representando oportunidades para adensamento e escala.

Já áreas como Engenharia, Energia e Combustíveis e Automação e Sistemas de Controle apresentam um quadro mais crítico: além de índices de especialização inferiores a 1,0, suas taxas de colaboração internacional situam-se abaixo da mediana, revelando uma posição de transição ou estagnação. Essa combinação sinaliza risco estratégico, pois são campos diretamente associados à base produtiva, à infraestrutura e à soberania tecnológica.
A leitura integrada dos indicadores, como analisada aqui, mostra que, para a Tecnologia, não há um bloco homogêneo. Algumas áreas – como Ciência dos Materiais, Ciência da Computação e Sensoriamento Remoto – têm volume relevante na produção nacional e inserção internacional consolidada, o que as coloca em posição favorável para políticas de escala e cooperação. Outras, porém, como Engenharia e Energia, demandam instrumentos mais diretos de indução temática, articulação com o setor produtivo e continuidade de financiamento, sob pena de ampliação do fosso tecnológico em relação aos países centrais e emergentes.
Cidoval Morais de Sousa é professor e pesquisador da Universidade Estadual da Paraíba (PPGDR e PPGECEM), colaborador do PPGCTS (UFSCar), pesquisador associado do IE (Unicamp). Coordenou e editou as trilogias Celso Furtado: a esperança militante e Cartas a Paulo Freire – escritas por quem ousa esperançar – esta última vencedora do Prêmio ABEU (2023) na área de Ciências Humanas.










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