O presente artigo agenda uma discussão sobre o impacto da Inteligência Artificial (IA) no desenvolvimento regional, investigando como essa tecnologia atua como o novo vetor de reprodução ou superação da dependência econômica contemporânea. Longe de enxergar o avanço algorítmico como um fenômeno politicamente neutro ou mera ferramenta de produtividade, a reflexão aqui desenvolvida busca desvelar as assimetrias geográficas e os dualismos estruturais que ameaçam fraturar ainda mais a periferia global na era digital.
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Esta abordagem foi construída e inspirada a partir da releitura crítica de obras seminais de Celso Furtado, tais como Formação Econômica do Brasil (1959), Desenvolvimento e Subdesenvolvimento (1961), Teoria e Política do Desenvolvimento Econômico (1967), O Mito do Desenvolvimento Econômico (1974) e Cultura e Desenvolvimento em Época de Crise (1984). Ao transpor conceitos clássicos furtadianos como centro-periferia, mimetismo cultural e intencionalidade do planejamento para a economia das Big Techs, o objetivo é oferecer caminhos políticos e institucionais para a construção de uma IA soberana, regionalizada e genuinamente emancipatória.
Otimismo ingênuo
O estudo do desenvolvimento econômico sob a ótica estruturalista clássica, inaugurado por Celso Furtado, sempre colocou o progresso técnico no centro das transformações sociais e das assimetrias geográficas. Para Furtado, a técnica não opera em um vácuo de neutralidade política; ela atua como o motor que molda as relações de poder entre as nações e desenha os fluxos de riqueza no território.
No cenário contemporâneo, a emergência da Inteligência Artificial não deve ser compreendida apenas como uma mera evolução incremental das forças produtivas ou uma ferramenta neutra de eficiência gerencial. Ela se consolida, fundamentalmente, como o novo vetor de reprodução ou de ruptura das velhas vulnerabilidades que historicamente aprisionam a periferia global. Investigar o impacto da IA no desenvolvimento regional exige despir-se do otimismo tecnológico ingênuo para desvelar os mecanismos de dominação econômica nela embutidos.
A arquitetura global da economia digital contemporânea mimetiza a clássica divisão internacional do trabalho que cindiu o mundo entre o centro industrializado e a periferia provedora de bens primários. Hoje, assistimos à cristalização de um “imperialismo de dados”, onde um punhado de megacorporações sediadas nos Estados Unidos e na China detém o quase-monopólio do poder computacional e dos modelos fundacionais de algoritmos.
Essa modernização superficial gera uma grave ilusão de progresso econômico, pois melhora os índices locais de produtividade aparente ao mesmo tempo em que hipertrofia a dependência externa. O resultado desse arranjo é a reprodução de uma estrutura produtiva altamente heterogênea, na qual ilhas de eficiência digitalizada coexistem com vastos oceanos de exclusão e informalidade socioeconômica.
À periferia e às suas regiões menos integradas ao dinamismo global, reserva-se o papel subalterno de fornecer dados brutos residuais, extraídos do cotidiano de seus cidadãos, e de consumir soluções tecnológicas enlatadas e proprietárias. Essa assimetria aprofunda a transferência líquida de valor real para o centro do capitalismo global, drenando o excedente econômico regional na forma de pagamentos contínuos por licenças e assinaturas de infraestruturas que jamais controlaremos.
O processo de modernização na periferia frequentemente se manifesta por meio daquilo que Furtado denominava de mimetismo cultural e consumo reflexo, fenômeno que agora ganha contornos digitais nítidos. As elites econômicas e políticas regionais tendem a importar entusiasticamente os padrões de consumo tecnológico do centro, adotando a inteligência artificial para automatizar processos locais sem que haja qualquer esforço de internalização da capacidade criativa. Essa modernização superficial gera uma grave ilusão de progresso econômico, pois melhora os índices locais de produtividade aparente ao mesmo tempo em que hipertrofia a dependência externa. O resultado desse arranjo é a reprodução de uma estrutura produtiva altamente heterogênea, na qual ilhas de eficiência digitalizada coexistem com vastos oceanos de exclusão e informalidade socioeconômica.

No âmbito estritamente regional, a difusão desregulada da inteligência artificial acentua o dualismo estrutural que historicamente fragmenta e penaliza o território de nações em desenvolvimento como o Brasil. As regiões que já contam com ecossistemas de inovação consolidados e forte infraestrutura de conectividade tendem a fagocitar os ganhos da virada tecnológica, atraindo investimentos e empregos de maior valor. Em contrapartida, os estados e territórios historicamente marginalizados sofrem com a exclusão digital crônica, sendo incapazes de reter o valor gerado ou de criar soluções aderentes às suas realidades produtivas. Em vez de atuar como uma força de convergência econômica, a IA acelera a polarização geográfica, ampliando a distância de produtividade e de bem-estar entre o centro dinâmico e as periferias.
Fuga de cérebros
A reconfiguração do mercado de trabalho sob o impacto da automação algorítmica desenha um cenário de profunda complexidade para o subemprego estrutural, tema que foi quase obsessão na obra furtadiana. A introdução de sistemas inteligentes em setores tradicionais da economia regional, como o comércio de serviços e a agricultura, tende a deslocar a mão de obra de baixa qualificação em velocidade superior à capacidade de absorção do sistema. Sem políticas públicas compensatórias e de reconversão profissional ativa, o excedente de força de trabalho será empurrado para a informalidade precária das plataformas digitais de entrega e transporte, convertendo trabalhadores em engrenagens de um sistema que extrai valor sem garantir direitos mínimos. A produtividade cresce no topo da pirâmide produtiva, mas a base social experimenta o desemprego tecnológico disfarçado.
Uma dimensão perversa desse novo arranjo espacial reside na reconfiguração da fuga de cérebros, que agora prescinde do deslocamento físico dos indivíduos para desestruturar a inteligência dos territórios periféricos. Com a consolidação do trabalho remoto globalizado, as mentes mais brilhantes formadas nas universidades públicas regionais são contratadas diretamente por corporações estrangeiras sem precisarem deixar suas cidades natais. Embora essa dinâmica traga o benefício imediato da injeção de renda salarial direta na economia local, o excedente de inovação e a propriedade intelectual gerada por esses cérebros são integralmente apropriados pelos centros de comando externos. Cria-se, assim, um enclave cognitivo virtual que priva as instituições locais da inteligência crítica necessária para formular respostas aos desafios complexos do próprio desenvolvimento territorial.
Diante desse diagnóstico sombrio, a tradição furtadiana nos lembra de que o subdesenvolvimento não é uma etapa natural do crescimento econômico, mas sim um processo histórico que exige intencionalidade política para ser superado. Romper a armadilha da dependência digital requer que o Estado assuma o seu papel insubstituível de planejador e indutor do desenvolvimento, recusando a crença de que as forças cegas do mercado corrigiriam essas assimetrias. As agências de desenvolvimento regional e os governos locais precisam formular estratégias deliberadas de soberania tecnológica, estruturando investimentos que transformem a inteligência artificial em um instrumento de emancipação social. O planejamento deve deixar de ser meramente reativo para se tornar o vetor de construção de uma infraestrutura digital pública, autônoma e descentralizada.
Autonomia tecnológica
O caminho para a construção dessa autonomia tecnológica passa, obrigatoriamente, pela implementação de políticas de inovação orientadas por missões públicas específicas, profundamente enraizadas nas vocações reais de cada território. Em vez de mimetizar os modelos abstratos criados pelo Vale do Silício, as regiões periféricas devem financiar o desenvolvimento de inteligências artificiais voltadas à resolução de seus estrangulamentos estruturais mais urgentes.
Uma dimensão perversa desse novo arranjo espacial reside na reconfiguração da fuga de cérebros, que agora prescinde do deslocamento físico dos indivíduos para desestruturar a inteligência dos territórios periféricos.
Isso significa priorizar o desenho de ferramentas algorítmicas voltadas para a sustentabilidade da agricultura familiar e empreendimentos de economia solidária no semiárido, para a otimização logística da bioeconomia na Amazônia ou para a gestão preditiva de recursos hídricos. A tecnologia deve se curvar às necessidades humanas e geográficas do território, abandonando a lógica puramente mercantilista do lucro imediato.
Para viabilizar essa guinada conceitual, é urgente tratar os dados gerados pela população e pelas instituições públicas como um bem comum impenhorável, um verdadeiro patrimônio estratégico de desenvolvimento regional. As informações produzidas cotidianamente pelos sistemas públicos de saúde, educação e transporte nas cidades brasileiras não podem continuar sendo entregues de forma gratuita para o treinamento de modelos das grandes corporações privadas. O texto propõe a criação de repositórios públicos regionais de dados, os chamados data lakes comunitários, devidamente protegidos e geridos sob rigoroso controle social. Esses ativos públicos devem servir como a matéria-prima essencial para que centros de pesquisa locais e cooperativas de tecnologia desenvolvam suas próprias soluções, retendo a riqueza informacional no território.
As compras públicas governamentais despontam, nesse contexto, como o instrumento mais imediato e poderoso para estimular a formação de tecidos industriais e de serviços tecnológicos endógenos nas regiões periféricas. O Estado, ao atuar como comprador de última instância, tem o poder de direcionar o poder de compra do orçamento público para demandar soluções de inteligência artificial de empresas e cooperativas locais.
Ao estabelecer critérios de preferência para tecnologias que garantam a abertura de códigos e o processamento de dados em servidores nacionais, a administração pública cria um mercado cativo e seguro para o desenvolvimento científico regional. Essa estratégia fortalece a soberania nacional, descentraliza a produção de alta tecnologia e reduz de maneira drástica a vulnerabilidade externa da nossa balança de pagamentos.
Cultura e desenvolvimento
A dimensão cultural do desenvolvimento, pilar indispensável na reflexão de Celso Furtado, ganha uma centralidade dramática quando analisamos os vieses ideológicos e cognitivos internalizados nos grandes modelos de linguagem globais. Os algoritmos hegemônicos que consumimos diariamente são treinados com base nos valores, na história e na mundividência do centro geopolítico, operando uma forma sutil, porém devastadora, de alienação cultural.
Defender a identidade regional exige, portanto, o financiamento de pesquisas voltadas à criação de modelos de linguagem locais que compreendam e valorizem as nossas nuances linguísticas, sotaques, tradições e memórias históricas. A inteligência artificial regionalizada deve se converter em um escudo de resistência cultural, impedindo o soterramento das subjetividades periféricas pela homogeneização digital global.
No campo da comunicação pública, o desafio reside em desmistificar o debate em torno da inteligência artificial, retirando-o do isolamento tecnocrático e do jargão corporativo que servem apenas para afastar a participação popular. A sociedade civil organizada precisa compreender a IA não como uma força mística, mágica ou inevitável da natureza, mas como uma infraestrutura pública essencial, comparável ao saneamento básico, às estradas e à energia.
Comunicar o projeto de desenvolvimento tecnológico regional de forma transparente e acessível é um imperativo democrático fundamental para construir a legitimidade política necessária que sustentará as transformações de longo prazo. A tecnologia só se converte em verdadeiro desenvolvimento quando passa a ser disputada, compreendida e apropriada pelo conjunto da comunidade.
O futuro das regiões periféricas na era da inteligência artificial não está previamente escrito por um determinismo tecnológico inexorável, mas permanece como um espaço aberto de intensa disputa política e institucional. A escolha que se apresenta para as lideranças e para a sociedade regional é clara: ou aceitamos a modernização reflexa que aprofunda a submissão ao centro, ou ousamos planejar a nossa própria autonomia.
A sociedade civil organizada precisa compreender a IA não como uma força mística, mágica ou inevitável da natureza, mas como uma infraestrutura pública essencial, comparável ao saneamento básico, às estradas e à energia.
A perspectiva furtadiana nos convoca a rejeitar o papel de espectadores passivos da história para assumirmos a responsabilidade histórica de moldar o progresso técnico a favor da justiça social. A inteligência artificial deve, em última instância, deixar de ser o vetor da nossa velha dependência para se transformar na ferramenta definitiva da nossa emancipação territorial.
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Cidoval Morais de Sousa é professor e pesquisador da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), permanente nos quadros do PPGDR e PPGECEM, colaborador do PPGCTS (UFSCar) e pesquisador associado do GETETE IE Unicamp. É membro do CICEF, do Fórum e do Programa Celso Furtado (PB).










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