Vegetação nativa da Caatinga no Semiárido.
Para um bioma que perdeu milhões de hectares de áreas naturais desde 1985, o próximo passo será transformar essa redução em conservação duradoura. (Foto: Eduardo Mendonça)

Caatinga reduz desmatamento, mas expansão de usinas solares cria novo desafio ambiental

A Caatinga registrou uma redução de 34,3% no desmatamento entre agosto de 2024 e julho de 2025, segundo os dados mais recentes do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes), divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Mesmo com a queda, 2.289,54 km² de vegetação nativa foram suprimidos no período, área equivalente a aproximadamente 229 mil hectares.

O resultado representa uma mudança importante em relação ao ciclo anterior, quando o Prodes havia registrado 3.484 km² de desmatamento no bioma. Mas os números mais recentes também revelam outra transformação em curso no Semiárido brasileiro: ao mesmo tempo em que a pressão geral sobre a vegetação diminui, a Caatinga se consolida como o principal território brasileiro para a expansão das usinas fotovoltaicas.

De acordo com a Coleção 10 do MapBiomas, em 2024 havia 21,8 mil hectares ocupados por usinas fotovoltaicas dentro da Caatinga, o equivalente a 62% de toda a área ocupada por esse tipo de empreendimento no Brasil. Em 2016, eram 337 hectares. Em oito anos, portanto, a área mapeada cresceu mais de 60 vezes.

Energia solar avança sobre um território em transformação

O crescimento da energia solar na Caatinga acompanha o potencial de geração elétrica do Nordeste e a expansão das fontes renováveis no país. O problema ambiental não está na fonte solar em si, mas na forma como a infraestrutura ocupa o território.

O levantamento do MapBiomas mostra que, dos 21,8 mil hectares ocupados por usinas fotovoltaicas na Caatinga em 2024, 52,6% — cerca de 11,4 mil hectares — eram anteriormente áreas de vegetação nativa, classificadas como formações savânicas ou florestais. Outros 35%, aproximadamente 7,5 mil hectares, correspondiam a pastagens.

A expansão também não está distribuída igualmente pelo bioma. Minas Gerais concentrava 5,6 mil hectares de usinas fotovoltaicas, seguida pela Bahia, com 3,8 mil hectares; Rio Grande do Norte, com 3,5 mil; Ceará, com 3,2 mil; Pernambuco, com 2,6 mil; Piauí, com 1,7 mil; e Paraíba, com 1,3 mil hectares.

Os números mostram, portanto, que a transição energética está produzindo uma transformação territorial significativa justamente em um bioma que ainda conserva pouco mais da metade de sua cobertura natural.

O papel das renováveis no desmatamento

Em 2025, a Caatinga perdeu 128.947 hectares de vegetação nativa segundo os alertas de desmatamento validados e refinados pelo MapBiomas. A agropecuária respondeu por 126.524 hectares desse total.

Grandes áreas de vegetação cobertas por placas de energia solar.
No RN, a devastação da Caatinga teve como causa o pasto, a mineração, a produção de lenha e carvão. Agora, a ameaça são as usinas solares. (Foto: Scatec / Divulgação)

Isso significa que a expansão agropecuária continua sendo, de forma amplamente predominante, o principal vetor de supressão da vegetação no bioma.

Entretanto, quando o recorte considera especificamente o desmatamento associado a empreendimentos de energia renovável, aparece um dado que chama a atenção: 1.375 hectares de vegetação nativa foram associados a esse vetor em todo o Brasil em 2025, dos quais 1.332 hectares estavam na Caatinga — cerca de 97% do total nacional.

Os números não significam que as energias renováveis sejam responsáveis pelo desmatamento da Caatinga como um todo. Eles mostram algo mais específico: entre os casos de supressão de vegetação identificados pelo MapBiomas como associados a empreendimentos de energia renovável, a concentração na Caatinga é extremamente elevada.

Essa distinção é importante porque permite compreender as duas transformações simultaneamente: a agropecuária permanece como o principal vetor de perda de vegetação, enquanto os empreendimentos de energia renovável constituem um vetor menor em área absoluta, mas fortemente concentrado no bioma.

Caatinga perdeu 9,25 milhões de hectares em quatro décadas

A pressão atual se soma a uma transformação territorial que vem ocorrendo há décadas. A atualização da Coleção 10 do MapBiomas mostra que, entre 1985 e 2024, a Caatinga perdeu 9,25 milhões de hectares de áreas naturais, equivalentes a aproximadamente 14% de sua cobertura natural no início da série. A expansão da agropecuária foi o principal fator de transformação.

Em 2024, cerca de 59% da área do bioma, aproximadamente 51,3 milhões de hectares, ainda era coberta por vegetação nativa. Quando são incluídos corpos d’água, praias, dunas e outras áreas naturais não vegetadas, a proporção de áreas naturais chega a aproximadamente 61%.

A formação savânica, característica de grande parte da Caatinga, foi a mais afetada. Segundo o MapBiomas, foram perdidos 8,9 milhões de hectares desse tipo de vegetação entre 1985 e 2024.

Um estudo publicado na revista Scientific Reports concluiu que as mudanças no uso da terra, associadas à atividade humana, são o principal fator relacionado à degradação da vegetação florestal da Caatinga, enquanto as condições climáticas explicam principalmente a distribuição natural dos diferentes tipos de vegetação.

O desafio de produzir energia sem repetir antigos padrões de ocupação

A expansão das energias renováveis acrescenta uma nova camada à discussão sobre o uso da terra no Semiárido. A energia solar é uma fonte de baixa emissão de gases de efeito estufa durante sua operação, mas a instalação de grandes complexos exige espaço e pode envolver supressão de vegetação, alteração do solo, cercamento de áreas e mudanças nas formas de uso do território.

Um estudo publicado em 2025 na Revista NERA, por exemplo, analisou os impactos de um empreendimento fotovoltaico sobre a Comunidade Quilombola Pitombeira, na Paraíba. Os pesquisadores registraram conflitos relacionados ao território e ao modo de vida da comunidade e discutiram impactos ambientais e sociais associados à implantação do empreendimento. Trata-se de um estudo de caso e, portanto, seus resultados não podem ser automaticamente generalizados para todos os parques solares da Caatinga.

Outro estudo, publicado em 2026, analisou a expansão de empreendimentos eólicos e híbridos na Bahia e descreveu conflitos socioambientais envolvendo comunidades tradicionais, incluindo disputas territoriais e preocupações relacionadas à supressão de vegetação e ao uso do território.

Essas pesquisas apontam para uma questão que ganha importância à medida que a transição energética avança: onde instalar os novos empreendimentos e como planejar essa ocupação para reduzir impactos sobre biodiversidade, recursos hídricos e comunidades locais?

Licenciamento ganha importância

Em maio de 2026, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) publicou um levantamento nacional sobre a legislação de licenciamento ambiental aplicável aos empreendimentos de geração eólica e solar fotovoltaica. O estudo reúne as normas federais e estaduais, critérios de enquadramento, modalidades de licenciamento e estudos ambientais exigidos para diferentes situações.

No caso de usinas fotovoltaicas, o Ibama destaca que empreendimentos implantados em áreas sensíveis podem exigir licenciamento e que a análise deve considerar também situações de supressão de vegetação, intervenção em áreas de preservação permanente e manejo de fauna.

O desafio, portanto, não é simplesmente escolher entre conservação ambiental e geração de energia. É incorporar a localização, a biodiversidade e as características sociais do território ao planejamento da expansão energética.

Queda do desmatamento abre espaço para conservação

A redução registrada pelo Prodes em 2025 ocorre em um momento em que o país também começa a criar instrumentos específicos para recuperar a vegetação da Caatinga.

Em junho de 2026, foi sancionada a Lei nº 15.430, que instituiu a Política Nacional para Recuperação da Vegetação da Caatinga e criou o Programa Nacional para a Recuperação da Vegetação da Caatinga. A legislação estabelece entre seus objetivos a recuperação de áreas degradadas, a conservação da biodiversidade, a segurança hídrica e o estímulo ao manejo florestal sustentável.

Recaatingar: nova lei coloca a recuperação da Caatinga no centro da agenda ambiental

No mesmo contexto, o programa Recaatingar foi criado com a meta de contribuir para a recuperação de 10 milhões de hectares de terras degradadas na Caatinga até 2045.

Os novos instrumentos chegam em um momento particularmente importante. O bioma ainda carrega quatro décadas de perda de vegetação natural, mas os dados mais recentes indicam redução do desmatamento anual. Ao mesmo tempo, uma nova frente de transformação territorial cresce rapidamente com a expansão da geração solar.

A Caatinga passa, assim, a enfrentar um desafio duplo: reduzir a perda de sua vegetação remanescente e, simultaneamente, planejar a transição energética para que a geração de energia renovável não reproduza os padrões de ocupação que historicamente degradaram o bioma.

A queda de 34,3% registrada pelo Prodes é um sinal de mudança na trajetória recente do desmatamento. Mas, para um bioma que perdeu milhões de hectares de áreas naturais desde 1985, o próximo passo será transformar essa redução em conservação duradoura — conciliando geração de energia, recuperação ambiental, biodiversidade e os modos de vida das populações que vivem na Caatinga.

Caatinga perdeu 8,6 milhões de hectares de vegetação nativa