Fachada do Tribunal Superior Eleitoral em Brasília, relacionada à carta aberta de instituições científicas sobre decisões eleitorais.
Oito instituições científicas questionam decisão monocrática sobre a retirada de um canal do WhatsApp e defendem a isonomia na disputa eleitoral.

Instituições científicas criticam decisão do TSE sobre canal no WhatsApp

“Calar em bloco canais e perfis de apoiadores de um candidato, por decisão individual e provisória, a duas semanas da eleição presidencial, é medida de outra natureza: atinge milhões de eleitores, desequilibra a disputa e cria um precedente perigoso para todas as eleições futuras.”

O trecho integra uma Carta Aberta dirigida ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), às autoridades da República, às plataformas digitais e à sociedade brasileira. A carta é assinada por oito instituições que representam a ciência no Brasil foi divulgada neste domingo, dia 11, após uma decisão individual do ministro Kássio Nunes Marques, presidente do TSE mandar tirar do ar um canal do Whatsapp, chamado Exército de Lula.

Destacando que faltam duas semanas para as eleições do segundo turno e o que Tribunal já começou a tomar decisões que alteram as condições da disputa, as instituições garantem que seu objetivo não é defender uma candidatura. “Trata-se de impedir que a Justiça Eleitoral seja usada para silenciar eleitores, enquanto as interferências mais graves destas eleições seguem sem resposta”, justifica o documento.

Campanhas tem que ser tratadas com isonomia

A carta alerta para a obrigatoriedade de a justiça tratar com isonomia as duas campanhas. Porém não é o que está ocorrendo. Ainda não se tem resposta para um dos esquemas mais graves de interferência destas eleições: o token B22, que ofereceu criptomoedas a quem publicasse pedidos de voto em Flávio Bolsonaro e enviou 120 milhões de tokens a um grupo de dança infantil de Uganda, que publicou um vídeo com crianças cantando uma mensagem eleitoral.

As instituições lembram que a Justiça Eleitoral brasileira é reconhecida no mundo por sua integridade. “É essa integridade que pedimos que seja preservada agora: rigor contra quem paga para manipular o debate, proteção a quem apenas manifesta sua opinião e respeito à palavra do eleitor”, finalizam.

A carta é assinada pelas seguintes instituições: ABC – Academia Brasileira de Ciências, ANDES-SN – Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior, ANDIFES – Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior, ANPG – Associação Nacional de Pós-Graduandos, FASUBRA Sindical – Federação de Sindicatos de Trabalhadores Técnico-Administrativos em Instituições de Ensino Superior Públicas do Brasil, PROIFES-Federação – Federação de Sindicatos de Professores e Professoras de Instituições Federais de Ensino Superior, Reitores pela Democracia – Movimento Reitores pela Democracia e pela SBPC – Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.

Reversão

Ainda no domingo, o corregedor-geral da Justiça Eleitoral, ministro Ricardo Villas-Boas Cueva suspendeu a ordem de Nunes Marques e reabilitou o funcionamento do canal Exército de Lula. A nova decisão é preliminar e deve ser discutida pelo plenário do TSE.

Leia o documento na íntegra abaixo.

Carta Aberta ao Tribunal Superior Eleitoral em Defesa da Integridade e do Equilíbrio das Eleições de 2026

Ao Tribunal Superior Eleitoral, às autoridades da República, às plataformas digitais e à sociedade brasileira

As entidades que assinam esta carta dirigem-se ao Tribunal Superior Eleitoral em um momento decisivo. Faltam duas semanas para o segundo turno, e o Tribunal já começou a tomar decisões que alteram as condições da disputa. Não se trata de defender uma candidatura. Trata-se de impedir que a Justiça Eleitoral seja usada para silenciar eleitores, enquanto as interferências mais graves destas eleições seguem sem resposta.

No domingo, 11 de outubro, atendendo a pedido da campanha de Flávio Bolsonaro, o presidente do TSE, ministro Kássio Nunes Marques, determinou a suspensão do canal “Exército do Lula” no WhatsApp, administrado pelo deputado federal André Janones e com mais de 3 milhões de participantes. A mesma campanha pede ainda a suspensão de 32 perfis, a remoção de 221 publicações e a cassação do registro da chapa adversária, acusando uma rede de 1.525 contas de espalhar desinformação, embora os próprios autores reconheçam que nenhuma das publicações saiu do perfil do candidato adversário.

Se houve publicações falsas, elas devem ser removidas e seus autores responsabilizados. Mas calar em bloco canais e perfis de apoiadores de um candidato, por decisão individual e provisória, a duas semanas da eleição presidencial, é medida de outra natureza: atinge milhões de eleitores, desequilibra a disputa e cria um precedente perigoso para todas as eleições futuras. O próprio Tribunal já mostrou o caminho certo ao remover, nos últimos dias, publicações específicas de ambas as campanhas, com fundamentação. É esse padrão que deve prevalecer.

O contraste é evidente. A candidatura que pede a suspensão de canais adversários foi a beneficiária declarada de um dos esquemas mais graves de interferência destas eleições: o token B22, que ofereceu criptomoedas a quem publicasse pedidos de voto em Flávio Bolsonaro e enviou 120 milhões de tokens a um grupo de dança infantil de Uganda, que publicou um vídeo com crianças cantando uma mensagem eleitoral. O TSE suspendeu o mecanismo, a campanha nega envolvimento, e até hoje não se sabe quem o criou, quem o financiou e quem lucrou. Em teste independente, a Meta aprovou ainda uma montagem falsa em que Donald Trump declarava apoio ao mesmo candidato.

O ambiente digital destas eleições já está contaminado. O NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, encontrou anúncios que se passavam pela Justiça Eleitoral e ofereciam uma falsa “votação remota” a eleitores com problemas de saúde, 568 anúncios irregulares no período em que a propaganda paga era proibida e anúncios contra as instituições que renderam até R$ 2,1 milhões à Meta. A campanha de Lula acusa a Meta de restringir seletivamente o alcance de suas publicações, o que a empresa nega, e o TSE determinou que a plataforma explique se aplica as mesmas regras às duas campanhas. É esse tipo de verificação que deve valer para todas as denúncias.

A legislação oferece os instrumentos para agir com firmeza e equilíbrio. O Código Eleitoral pune quem oferece vantagem em troca de voto ou usa prêmios para atrair eleitores (arts. 299 e 334). A Lei das Eleições restringe a propaganda paga na internet e pune a captação ilícita de sufrágio (arts. 57-C e 41-A). A Resolução TSE nº 23.610/2019 proíbe remunerar quem divulga propaganda e responsabiliza as plataformas que não agem contra a desinformação. E a Constituição assegura a todos a liberdade de expressão, o contraditório e o devido processo legal, garantias que valem para os dois lados.

Por isso, pedimos ao Tribunal Superior Eleitoral que submeta com urgência ao Plenário a suspensão do canal “Exército do Lula”, substituindo-a, se for o caso, pela remoção das publicações irregulares; que não conceda suspensões coletivas de canais e perfis sem análise individual, prova concreta e direito de defesa, aplicando os mesmos critérios a todas as candidaturas; que dê prioridade à investigação do B22, identificando quem criou, financiou e lucrou com o token; que apure por perícia independente as denúncias contra as plataformas, comparando os dados de todas as candidaturas; e que torne públicas as decisões e seus fundamentos. Às plataformas, pedimos revisão humana dos anúncios eleitorais até o segundo turno e acesso de pesquisadores independentes aos seus dados.

A Justiça Eleitoral brasileira é reconhecida no mundo por sua integridade. É essa integridade que pedimos que seja preservada agora: rigor contra quem paga para manipular o debate, proteção a quem apenas manifesta sua opinião e respeito à palavra do eleitor.

11 de outubro de 2026.

Assinam esta carta:

ABC – Academia Brasileira de Ciências.

ANDES-SN – Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior.

ANDIFES – Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior.

ANPG – Associação Nacional de Pós-Graduandos.

FASUBRA Sindical – Federação de Sindicatos de Trabalhadores Técnico-Administrativos em Instituições de Ensino Superior Públicas do Brasil.

PROIFES-Federação – Federação de Sindicatos de Professores e Professoras de Instituições Federais de Ensino Superior.

Reitores pela Democracia – Movimento Reitores pela Democracia.

SBPC – Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.