Árvore de umburana com galhos parcialmente cobertos por folhas verdes, em meio à vegetação da Caatinga. No canto inferior direito, há uma fotografia em destaque de um anfíbio semelhante a um sapo, sobre o solo pedregoso.
Descoberta pode mudar a forma como essas árvores são consideradas nos processos de licenciamento. (Imagem: Montagem sobre foto de Jaqueiuton Jorge)

Umburanas abrigam anfíbios na Caatinga e alertam para riscos ambientais

Quem teve alguma convivência com o Semiárido nordestino deve lembrar de uma certa sensação de torpor que acomete pessoas e bichos no auge da seca, especialmente quando se está no meio da Caatinga. É parecido com preguiça, mas parece ser mais forte do que a vontade de se manter desperto. Pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) descobriram que os sapos da Caatinga se deixam dominar por esse torpor nos ocos das umburanas. A descoberta pode reforçar a necessidade de rever a forma como essas árvores são consideradas nos processos de licenciamento ambiental, já que sua retirada pode significar também a perda de refúgios utilizados pela fauna.

O estudo identificou que cavidades naturais em árvores das espécies Amburana cearensis e Amburana leptophloea funcionam como refúgios para muitos anfíbios simultaneamente. A pesquisa registrou oito agregações, com 475 anuros adultos de seis espécies e até 98 indivíduos em uma única cavidade. Em 32 cavidades de árvores vivas, foram feitas comparações entre o microclima interno e o ambiente externo, encontrando-se, em média, temperatura interna 5,43 °C menor e umidade relativa 15 pontos percentuais maior. “É como se fosse uma sala com ar-condicionado ligado no meio do deserto”, compara o primeiro autor do artigo, Jaqueiuto da Silva Jorge.

Nos últimos 20 anos, entretanto, a ampliação de universidades e institutos federais na região Nordeste contribuiu para mudar esse cenário. O aumento do número de pesquisadores e de pesquisas realizadas na região vem permitindo conhecer melhor a diversidade e o funcionamento dos ambientes semiáridos.

Jaqueiuton Jorge de barba e bigode pretos, usando boné bege, óculos escuros, camisa verde-oliva e mochila, posando diante de uma árvore de tronco largo em uma área arborizada.
Jaqueiuton Jorge, autor da pesquisa: O licenciamento ambiental precisa considerar a presença de umburanas, seu porte e a existência de cavidades e animais associados.

O achado não é apenas que anfíbios entram nos ocos das árvores, mas que essas cavidades funcionam como “estruturas-chave” capazes de abrigar os animais durante meses de seca. Essas estruturas se formam naturalmente à medida que as árvores envelhecem e criam espaços internos que oferecem aos animais temperatura mais amena e maior umidade. A maioria dos registros ocorreu entre outubro e novembro, no auge da estação seca. Os anfíbios estavam em uma espécie de dormência e voltavam a sair quando chegava a estação chuvosa, por volta de janeiro e fevereiro. “A novidade vem que nunca tinha sido documentado anfíbio passando a transição do período seco, que é quando eles diminuem a atividade, e esperar até a próxima estação chuvosa que leva meses”, revela o herpetólogo.

Caatinga ainda esconde biodiversidade pouco conhecida

A descoberta deve ser compreendida em um contexto maior: o problema não é apenas que os anfíbios estavam usando os ocos das umburanas; é que a biodiversidade da Caatinga ainda é subestimada porque o bioma foi historicamente pouco estudado. “A Caatinga é um ambiente muito mais diverso do que se imagina”, afirma Adriano Caliman, professor titular do Programa de Pós-Graduação em Ecologia da UFRN e coordenador da pesquisa. Para ele, a percepção de que o Semiárido seria um ambiente pobre está relacionada, entre outros fatores, ao baixo investimento histórico em pesquisas sobre a região.

Sapo de dorso amarelo-acastanhado com manchas escuras, entre folhas e vegetação rasteira.
Nunca tinha sido documentado anfíbio passando a transição do período seco até a próxima estação chuvosa, que leva meses. (Foto: Jaqueiuton Jorge)

A biodiversidade da Caatinga, segundo Caliman, pode estar escondida justamente nos pequenos ambientes que costumam passar despercebidos em levantamentos mais gerais. O pesquisador cita ocos de árvores, moitas de vegetação e formações rochosas como exemplos de micro-hábitats capazes de criar condições diferentes das encontradas no ambiente ao redor. “A diversidade se esconde, ela se desenvolve em microclimas”, afirma. Por isso, defende que a biodiversidade do bioma precisa ser estudada de maneira mais minuciosa, considerando também esses pequenos espaços e as relações que se estabelecem dentro deles.

De acordo com o pesquisador, a quantidade de estudos dedicados à documentação da biodiversidade da Caatinga sempre foi menor do que a de outros biomas brasileiros. “Por diversas razões, talvez a principal delas seja pela Caatinga se situar em uma região do Brasil que ainda tinha muito poucos investimentos em pesquisa, investimentos públicos em pesquisa”, avalia. Essa falta de conhecimento ajudou a alimentar a imagem de um ambiente seco e pouco diverso.

Nos últimos 20 anos, entretanto, a ampliação de universidades e institutos federais na região Nordeste contribuiu para mudar esse cenário. O aumento do número de pesquisadores e de pesquisas realizadas na região vem permitindo conhecer melhor a diversidade e o funcionamento dos ambientes semiáridos. Para Caliman, quanto maior o esforço de pesquisa, maior será também a descoberta de espécies, relações ecológicas e ambientes até então desconhecidos. “O resultado desse estudo, de certa forma, mostra que existe muita biodiversidade desconhecida na Caatinga”, afirma. A tendência, segundo ele, é que novas pesquisas revelem com frequência cada vez maior essa riqueza escondida.

A umburana não é apenas uma árvore: ela sustenta uma comunidade inteira

A importância das umburanas, porém, não se limita aos anfíbios. Os ocos também são utilizados por abelhas nativas sem ferrão, que fazem nesses espaços suas colônias. A árvore, portanto, pode funcionar como abrigo para diferentes grupos de organismos e, ao mesmo tempo, prestar serviços ecossistêmicos aos seres humanos. Suas flores são importantes para abelhas, inclusive em períodos de seca, e a madeira possui usos tradicionais e econômicos. Para que uma árvore alcance o porte necessário para formar uma cavidade capaz de abrigar grandes agregações de animais, no entanto, são necessários muitos anos. Os pesquisadores ainda não sabem exatamente quanto tempo uma umburana leva para formar uma estrutura desse tipo.

Oco no tronco de uma umburana na Caatinga, estrutura natural que serve de refúgio para anfíbios durante a seca.
A pesquisa identificou 475 anuros adultos de seis espécies e até 98 indivíduos em uma única cavidade. (Foto: Jaqueiuton Jorge)

Essa função de refúgio pode se tornar ainda mais importante diante das mudanças climáticas. Caliman chama atenção para a possibilidade de a Caatinga enfrentar secas mais intensas e processos de desertificação, tornando os microclimas criados por árvores e outras estruturas naturais cada vez mais importantes para a sobrevivência da fauna. “Esses micro-hábitats no oco dessas árvores tendem a se tornar ainda mais locais de refúgio frente a essas mudanças climáticas”, afirma. A perda de árvores adultas, por outro lado, pode significar menor disponibilidade de cavidades e aumentar a competição entre os animais pelos poucos espaços existentes.

Retirada de umburanas pode eliminar refúgios de anfíbios

A retirada dessas árvores durante a implantação de empreendimentos também pode provocar uma perda que passa despercebida. Jorge explica que, quando a vegetação é suprimida com máquinas, os animais podem ser carregados junto com a madeira. Na região de Açu, onde parte dos dados foi obtida, a lenha retirada da área pode ser destinada a olarias para a fabricação de telhas e tijolos. Como os anfíbios estão em torpor durante a seca, podem permanecer dentro das cavidades sem serem percebidos. “Eles estão ali no período de torpor, eles vão ser queimados juntos, o que provavelmente vem acontecendo e passou despercebido até então”, alerta o pesquisador.

Adriano Caliman, um homem de cabelos longos, ondulados e castanhos, com barba grisalha no queixo e bigode, usando camiseta azul e olhando diretamente para a câmera em ambiente interno.
Adriano Caliman: “Pouco investimento em pesquisas e falta de conhecimento ajudaram a alimentar a imagem de que a Caatinga é um ambiente seco e pouco diverso.”

O caso também revela uma limitação dos processos de resgate de fauna associados ao licenciamento ambiental. Os dados utilizados no estudo foram produzidos durante operações realizadas por empresas e só puderam ser transformados em pesquisa porque houve colaboração e autorização para acesso às informações.

Jaqueiuto Jorge, que já trabalhou como consultor de empresas com atuação em campo, chama atenção para a importância da formação das equipes que trabalham em campo. Segundo ele, profissionais recém-formados podem chegar às operações sem treinamento específico para reconhecer determinadas relações ecológicas. “Se tem uma equipe que é treinada, o olhar passa para além do resgate em si, tem um olhar científico.” Para Caliman, os protocolos precisam considerar as particularidades da Caatinga, porque, caso contrário, “a gente está podendo tirar uma série de outros componentes da biodiversidade local de forma inadvertida”, garante o professor e ex-chefe do Departamento de Ecologia da UFRN.

Pesquisa propõe mudanças no licenciamento ambiental da Caatinga

A partir dos resultados, os pesquisadores defendem que o licenciamento ambiental considere especificamente a presença de umburanas, seu porte e a existência de cavidades e animais associados. Quando a supressão for inevitável, Jorge sugere que sejam utilizadas ferramentas adequadas para a retirada da árvore, que os ocos sejam verificados e que os animais encontrados sejam realocados para ambientes semelhantes. Sempre que possível, a árvore deveria ser mantida em pé. Também é necessário avaliar alternativas de plantio e compensação, inclusive com a possibilidade de plantar várias árvores para cada indivíduo retirado.

Anfíbio de coloração cinza-acastanhada sobre folhas secas no chão da mata.
Os anfíbios estavam em uma espécie de dormência e voltavam a sair quando chegava a estação chuvosa. (Foto: Jaqueiuton Jorge)

Para Caliman, essa descoberta mostra uma limitação dos atuais processos de avaliação. “Na verdade, a gente está podendo tirar uma série de outros componentes da biodiversidade local de forma inadvertida”, afirma. O pesquisador defende que os protocolos de licenciamento sejam pensados de acordo com as características próprias da Caatinga, em vez de simplesmente reproduzir procedimentos concebidos para outros ecossistemas.

Umburanas podem ter proteção diferenciada no licenciamento ambiental

Uma das possibilidades levantadas pelo pesquisador é que determinadas árvores da Caatinga, como a umburana, passem a ser tratadas de maneira diferenciada pela legislação ambiental justamente por sua capacidade de criar abrigos para outras espécies.

Área de vegetação da Caatinga desmatada, com troncos cortados e tocos de árvores expostos em terreno seco, diante de uma paisagem de serras ao fundo.
Pesquisadores argumentam que a supressão quando for inevitável, deve ser realizada com ferramentas adequadas, que os ocos sejam verificados e os animais encontrados sejam realocados para ambientes semelhantes. (Foto: Paulo Marinho)

Poderia ser adotada uma lógica semelhante à proteção especial dada a determinadas árvores que desempenham funções ecológicas singulares em outros biomas. “Pode haver algumas espécies de árvores na Caatinga, tal como a umburana, que, dada a sua característica de criar esses abrigos dentro do seu tronco, ela possa vir a se tornar uma espécie que deva ser olhada com uma visão pela legislação ambiental diferente”, afirma Caliman, cuja principal linha de pesquisa é a investigação das causas e consequências da diversidade biológica em ecossistemas aquáticos e terrestres.

Essa preocupação está relacionada também aos serviços ecossistêmicos perdidos quando a relação entre árvore, anfíbios, abelhas e outros organismos é rompida. As abelhas associadas às umburanas contribuem para a polinização de cultivos, enquanto os anfíbios ajudam no controle de insetos, alguns deles considerados pragas agrícolas. Para Jorge, esses serviços são difíceis de mensurar em toda a sua complexidade, mas a perda de uma área extensa de vegetação pode afetar simultaneamente diferentes funções ecológicas. Por isso, ele defende que a análise dos impactos não se limite ao número de animais resgatados, mas considere as relações ecológicas que podem ser interrompidas.

A pesquisa mostra o valor da parceria entre empresa e universidade

A pesquisa também mostra a importância da aproximação entre universidades e empresas que atuam na transformação do território. Os dados foram cedidos por empresas envolvidas nas operações de campo, e a colaboração permitiu que observações feitas durante o licenciamento ambiental se transformassem em conhecimento científico.

Edson Soares opera um controle de drone em área de vegetação da Caatinga, com aerogeradores ao fundo.
Edson Soares, coordenador de campo da Prima Ambiental, empresa responsável por ceder os dados para a pesquisa. (Foto: Acervo Prima Ambiental)

Para Edson Soares, coordenador de campo da Prima Ambiental, essa relação pode ir além da área ambiental e envolver tecnologia, saúde, engenharia e outras frentes. A empresa atua em consultoria ambiental, licenciamento e programas ligados principalmente a empreendimentos de energia renovável e linhas de transmissão. Segundo ele, quando há seriedade dos dois lados, a parceria pode gerar inovação, corrigir perdas, melhorar a execução dos projetos e produzir conhecimento que retorna para a sociedade. A própria empresa participa de ações de comunicação científica, educação ambiental, saúde, agricultura sustentável e apoio a pesquisas. “O mercado, as empresas, têm muito a aprender com a dinâmica, métodos e com a visão da academia, assim como o sentido inverso também tem fundamental importância”, afirma. Segundo ele, “quando há seriedade de ambos os lados o ganho é gigantesco”.

O futuro dos anfíbios da Caatinga diante das mudanças ambientais

Tronco de árvore nativa da Caatinga com casca alaranjada e galhos grossos, em meio à vegetação seca.
Pesquisa ganha importância diante da combinação entre supressão de vegetação, pressão humana e mudanças climáticas. (Foto: Jaqueiuton Jorge)

O próximo passo, para os pesquisadores, é entender o que acontece quando as umburanas desaparecem progressivamente da paisagem. A permanência dos anfíbios nas áreas onde as umburanas desaparecem dependerá da possibilidade de ocuparem outras árvores que também formam cavidades ou de encontrarem refúgios capazes de substituir essas estruturas.Na ausência dessas alternativas, algumas espécies podem deixar de ocorrer nessas áreas. Essas questões ganham importância diante da combinação entre supressão de vegetação, pressão humana e mudanças climáticas.

E o próprio autor do artigo aponta as perguntas que irão direcionar os próximos passos de sua pesquisa: “Qual é o cenário dos anfíbios na Caatinga, frente a essas mudanças de pressão antrópica, a pressão do ser humano, a pressão ambiental de mudança climática, como é que esses organismos vão responder a esse futuro que é até então incerto? Essa é a pergunta maior.” A continuidade ou não dos estudos sobre este e outros biomas brasileiros está nas mãos de cada brasileiro na hora de decidir o rumo da país nas eleições de 25 de outubro.