O Rio Grande do Norte produz atualmente cerca de sete vezes mais energia elétrica renovável do que consome. Essa vantagem energética tende a crescer nos próximos anos e pode colocar o estado diante de uma nova oportunidade de desenvolvimento: transformar a geração de energia limpa em base para a atração de indústrias e para a produção de bens de baixo carbono. A avaliação é de Mário Orestes Aguirre Gonzalez, professor titular da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e coordenador do Grupo de Pesquisa CREATION.
Para o pesquisador, o cenário cria condições para que o Rio Grande do Norte avance de uma posição de destaque na geração de energias renováveis para uma participação mais ampla em novas cadeias produtivas industriais. Entre as possibilidades estão a produção de aço verde, fertilizantes verdes, amônia verde, plástico verde e cimento verde. “Dessa forma, o Rio Grande do Norte tem a oportunidade de transformar sua vantagem energética em uma vantagem industrial, agregando maior valor aos seus recursos e criando novas cadeias produtivas”, pontua.
Segundo Gonzalez, a eletricidade gerada por fontes renováveis, principalmente eólica e solar, poderá ser utilizada também na produção de hidrogênio verde. O combustível, por sua vez, pode funcionar tanto como vetor energético quanto como insumo para diferentes processos industriais.
Do potencial energético à produção industrial
O Brasil possui condições naturais favoráveis para ampliar a geração de energia renovável. De acordo com o professor, o potencial de geração proveniente dessas fontes é superior a 17 vezes a demanda total de energia do país. O crescimento da participação das fontes renováveis, entretanto, traz também novos desafios. Como a geração eólica e solar é variável e intermitente, aumenta a necessidade de desenvolver mecanismos de armazenamento de energia.

Nesse contexto, o hidrogênio verde aparece como uma das alternativas consideradas mais promissoras. Ele é produzido pela separação das moléculas de água por meio da eletrólise, utilizando eletricidade proveniente de fontes renováveis, como eólica, solar ou hidrelétrica.
O hidrogênio obtido pode ser utilizado diretamente como vetor energético ou empregado como matéria-prima em processos industriais. Para o professor, essa característica amplia seu papel na transição para uma economia de baixo carbono.
No caso do Rio Grande do Norte, a disponibilidade de eletricidade renovável pode favorecer justamente essa integração entre geração de energia e produção industrial. A perspectiva é aproveitar a energia disponível no estado para produzir hidrogênio e, a partir dele, desenvolver produtos com maior valor agregado. “Essa realidade cria uma importante oportunidade para o estado atrair indústrias que demandam grandes quantidades de energia, especialmente energia renovável”, explica Gonzalez.
Nordeste deixa de ser importador e passar a exportar energia
A transformação da matriz energética também já modificou a posição do Nordeste no sistema nacional. Segundo o pesquisador, a região passou de importadora de energia, no início dos anos 2000, para exportadora. A mudança está diretamente relacionada à expansão das fontes renováveis, principalmente a energia eólica e a solar. O Rio Grande do Norte está entre os estados que se destacam nesse processo, ao lado do Piauí.

A energia eólica, em particular, apresenta no estado condições de competitividade. O professor destaca o potencial existente principalmente na costa e no litoral potiguar, tanto para a geração onshore, realizada em terra, quanto offshore, no mar. “O potencial eólico do Brasil é vasto. Soma-se a isso a elevada competitividade dos custos de geração de eletricidade, principalmente na costa e litoral do Rio Grande do Norte”, afirma.
Para Gonzalez, a consolidação das novas fontes energéticas também está relacionada ao processo de aprendizagem tecnológica. Novas fontes tendem inicialmente a apresentar custos mais elevados e podem depender de mecanismos de incentivo. Com o desenvolvimento tecnológico, o ganho de escala e o avanço da curva de aprendizagem, porém, a tendência é de aumento da competitividade.
O professor também aponta desafios para as fontes tradicionais, especialmente as fósseis. Entre eles está a necessidade de produzir energia com captura de carbono, tecnologia que ainda apresenta custos significativos e pode impactar o preço final da eletricidade.
Porto-indústria Verde como infraestrutura estratégica
Dentro dessa perspectiva de transformação da matriz energética em base para a industrialização, o projeto do Porto-Indústria Verde do Rio Grande do Norte aparece como uma infraestrutura estratégica.

Segundo Gonzalez, o projeto está sendo desenvolvido em duas frentes. Uma delas envolve os estudos necessários para a obtenção da Licença Prévia, por meio de convênio entre o Ministério de Portos e Aeroportos, o Governo do Rio Grande do Norte e a UFRN. A outra envolve a modelagem econômico-financeira para o lançamento do edital de concorrência da Parceria Público-Privada (PPP), em parceria entre o Governo do Estado e o BNDES.
Para o pesquisador, o porto poderá contribuir para que o estado deixe de apenas produzir e exportar recursos e passe a agregar valor a eles dentro do próprio território. “O Porto-Indústria Verde constitui uma infraestrutura estratégica que poderá proporcionar ao estado e à sua população maiores oportunidades de agregar valor ao que o Rio Grande do Norte já produz, como eletricidade renovável, frutas, minérios e outros recursos”, vislumbra.
A proposta é reduzir custos logísticos e criar condições para a transformação industrial de produtos que atualmente podem ser exportados com baixo nível de processamento. Ao mesmo tempo, a concepção do empreendimento prevê que as atividades estejam associadas à proteção ambiental e ao uso sustentável dos recursos naturais.
A estimativa apresentada pelo professor é de que o projeto possa contribuir para a criação de mais de 50 mil empregos e estimular o desenvolvimento econômico e social do estado, da região onde será instalado e, potencialmente, de outras áreas do Nordeste.
Os estudos ambientais do empreendimento ainda estão em andamento. De acordo com Gonzalez, essa etapa deverá identificar e avaliar os principais impactos associados à implantação e à operação do porto, além de definir medidas de prevenção, mitigação, compensação e monitoramento.
Pesquisa aplicada à transição energética
A discussão sobre energias renováveis, hidrogênio verde e neoindustrialização também está relacionada à produção de conhecimento científico. O Grupo de Pesquisa CREATION, coordenado pelo professor Gonzalez, desenvolve pesquisas na área de energia eólica há quase duas décadas.

Os resultados desses estudos já são utilizados por instituições públicas e privadas. Entre elas estão o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, a Embaixada do Reino Unido, o IBAMA, o Governo do Rio Grande do Norte e a Petrobras.
O cenário descrito pelo pesquisador aponta para uma mudança no papel da energia renovável no desenvolvimento econômico. Mais do que ampliar a geração de eletricidade, a disponibilidade de fontes limpas pode criar condições para a instalação de novas indústrias, produção de hidrogênio verde e formação de cadeias produtivas associadas à economia de baixo carbono. Para o Rio Grande do Norte, o desafio está em transformar a vantagem já conquistada na geração de energia em capacidade de produção industrial, agregando valor aos recursos naturais e energéticos disponíveis no estado.










Entre na discussão