A ciência é, por natureza, um ato de esperança no futuro. Com a definição das eleições e o início de um novo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva a partir de 2027, a comunidade científica brasileira vivencia um momento de profundo alívio, mas também de alerta e cautela. O alívio nasce do resgate de um ambiente democrático em que a pesquisa pôde, enfim, voltar a respirar após os severos e dolorosos cortes sofridos entre 2019 e 2022.
A ciência precisa da estabilidade democrática para florescer; o respeito inegociável às evidências científicas na criação de políticas públicas não é apenas um luxo acadêmico, mas uma questão de vida ou morte, como o Brasil aprendeu tragicamente durante a pandemia de covid-19.
A lição mais dura que a última década nos ensinou é que o avanço científico não pode depender das flutuações de humor político.
Neste período recente de reconstrução, celebramos vitórias que trouxeram oxigênio aos laboratórios: as bolsas de mestrado e doutorado da Capes e do CNPq, congeladas por cerca de uma década, foram finalmente reajustadas. O Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) voltou a operar sem os cruéis contingenciamentos que o asfixiavam, e iniciativas audaciosas, como o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, recolocaram a ciência no coração do projeto de desenvolvimento do país.
O coração da pesquisa: nossos jovens cientistas
No entanto, por trás de cada equipamento de laboratório e de cada artigo publicado, há o rosto e a dedicação de um pesquisador. É aqui que reside a nossa maior urgência emocional: precisamos abraçar e valorizar nossos jovens doutores. A falta de perspectivas e a instabilidade crônica têm provocado uma triste evasão de talentos, forçando mentes brilhantes a deixarem a academia ou a buscarem refúgio no exterior. Como podemos construir um projeto de nação — focado na transição energética, na proteção da Amazônia e na saúde pública — se deixarmos escapar as pessoas que detêm esse conhecimento? Garantir reajustes periódicos, ampliar vagas e oferecer uma carreira digna a esses jovens não é um gasto, mas a única forma de garantir o amanhã.
A fragilidade das conquistas em um cenário disputado
A cautela da comunidade científica se justifica porque a reconstrução ainda está incompleta e o espaço fiscal brasileiro é bastante restrito. A fragilidade das nossas vitórias ficou evidente quando, no orçamento de 2026, o Congresso Nacional aplicou cortes que atingiram o MEC e o MCTI.
Se o novo governo conseguir blindar a ciência e torná-la um compromisso duradouro e inabalável, deixará um legado extraordinário que ultrapassará o seu próprio mandato.
Foi necessária uma mobilização intensa e um crédito suplementar de cerca de R$ 1,36 bilhão apenas para recompor o que já estava planejado para as universidades e agências de fomento, sem que isso representasse um aumento real de investimentos. Em um ambiente político ainda polarizado e submetido às regras do arcabouço fiscal, a ciência muitas vezes é forçada a disputar recursos com outras áreas vitais de imensa pressão social.
Um legado que transcende governos
A lição mais dura que a última década nos ensinou é que o avanço científico não pode depender das flutuações de humor político. Conquistas que dependem apenas da boa vontade de um governo podem ser facilmente destruídas pelo próximo. É por isso que os cientistas clamam, com urgência, para que a ciência seja protegida por lei e se torne uma verdadeira Política de Estado. Isso significa garantir financiamento estável, proteger orçamentos contra bloqueios e recuperar a infraestrutura de universidades que ainda sofrem com prédios deteriorados e equipamentos obsoletos.

A esperança para este mandato que se inicia em 2027 é a de uma “continuidade com ambição”. O Brasil precisa aproximar seus investimentos em pesquisa dos países que deseja igualar, fortalecendo as pontes entre as universidades e o setor produtivo. Se o novo governo conseguir blindar a ciência e torná-la um compromisso duradouro e inabalável, deixará um legado extraordinário que ultrapassará o seu próprio mandato. Se falhar, a nossa apaixonada comunidade científica continuará, como tem feito há anos, firmemente mobilizada para defender o direito do Brasil de sonhar e de existir através do conhecimento.










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