A cultura do caju tem grande importância econômica para o Nordeste brasileiro, mas ainda enfrenta um desafio que limita o aproveitamento de todo o seu potencial: a perda do pedúnculo, a parte carnosa e suculenta do fruto. Embora a castanha seja o principal produto comercializado, o pedúnculo apresenta possibilidades de aproveitamento que podem ampliar a renda dos produtores e fortalecer a cadeia produtiva. Para isso, os cuidados com a colheita e a conservação após a retirada do campo são fundamentais.
A professora titular do Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular da Universidade Federal do Ceará (UFC), Maria Raquel Alcântara de Miranda, desenvolve pesquisas voltadas à qualidade pós-colheita do caju. Um dos trabalhos mais recentes da pesquisadora investiga o efeito da aplicação de giberelina, substância que atua no crescimento e no desenvolvimento das plantas, sobre a qualidade e o metabolismo do pedúnculo.
O estudo, publicado na revista científica Journal of Plant Growth Regulation, parte de um problema relevante para a cajucultura: o elevado volume de perdas durante a colheita. Segundo a professora, a queda dos cajus e a insuficiência de mão de obra para recolher toda a produção no período adequado estão entre os fatores que comprometem o aproveitamento da parte carnosa do fruto.
A safra concentrada em aproximadamente quatro meses do ano amplia essa dificuldade. Na região Nordeste, onde a cajucultura ocupa mais de 650 mil hectares, a perda do pedúnculo pode chegar a 90%, considerando a concentração da produção, a extensão das áreas cultivadas e a escassez de trabalhadores no campo.
Em 2025, a produção brasileira de castanha de caju alcançou 114.749 toneladas. O Ceará respondeu por 60% desse total, seguido por Piauí, Rio Grande do Norte e Bahia. Os números demonstram a relevância da atividade para a economia regional e a importância de buscar alternativas que permitam aproveitar melhor a produção.
Pesquisa da UFC investiga alternativas para conservar o pedúnculo do caju
Intitulado “Preharvest Gibberellin Treatment Modulates Postharvest Quality and Metabolism in CCP76 Cashew Peduncle”, que pode ser traduzido como “Tratamento pré-colheita com giberelina modula a qualidade pós-colheita e o metabolismo do pedúnculo de caju CCP76”, o artigo avaliou se a aplicação de giberelina (GA₃), antes da colheita, poderia influenciar a qualidade do pedúnculo.

A pesquisa utilizou diferentes doses da substância, aplicadas em uma fase inicial do desenvolvimento dos cajus da variedade CCP76. As análises foram realizadas quando os pedúnculos atingiram o ponto de colheita comercial.
Os resultados indicaram que o tratamento pode provocar alterações no metabolismo do pedúnculo, interferindo em processos relacionados à produção e ao uso de energia pelas células e nos mecanismos naturais de proteção contra danos oxidativos. Essas mudanças ajudam a compreender como a aplicação da substância pode influenciar as características do produto e sua qualidade após a colheita.
O trabalho amplia o conhecimento sobre o uso de reguladores do crescimento vegetal e aponta uma possibilidade de investigação para melhorar a conservação e o aproveitamento comercial do caju. A estratégia poderá contribuir para reduzir perdas e agregar valor à produção, mas ainda demanda avanços na compreensão de seus efeitos e de suas possíveis aplicações na cadeia produtiva.
A pesquisa também reforça a importância de estudar o pedúnculo para além de suas características no momento da colheita. A qualidade comercial depende de fatores que atuam durante o desenvolvimento do fruto e de procedimentos que ajudam a preservar suas propriedades depois que ele é retirado da planta.
Cuidados na colheita ajudam a preservar a qualidade do caju
Para Miranda, a conservação do caju não começa no armazenamento, mas ainda no campo. A forma como o fruto é colhido e manuseado interfere diretamente na qualidade que poderá ser mantida nas etapas seguintes. “A máxima qualidade de um produto vegetal é obtida na colheita e, depois, o uso de tecnologias pós-colheita tem como objetivo manter essa qualidade pelo maior tempo possível”, explica ao Portal Nossa Ciência.
A colheita deve ser realizada, preferencialmente, nos horários de temperaturas mais baixas. O pedúnculo precisa apresentar tamanho máximo, firmeza, ausência de deformações e coloração característica do tipo ou clone cultivado.
Os cuidados com o manuseio também são importantes para evitar ferimentos. A orientação é que os colhedores mantenham as unhas aparadas e limpas e acomodem os cajus em uma única camada nas caixas plásticas utilizadas na colheita. Essas caixas devem ser revestidas internamente com uma camada de espuma e mantidas protegidas do sol.
Essas medidas ajudam a evitar danos mecânicos e a exposição excessiva ao calor, fatores que podem comprometer a conservação do produto. Como o pedúnculo é bastante perecível, os cuidados iniciais são decisivos para que chegue ao consumidor com boa aparência e qualidade.
A atenção a essa etapa também tem relação direta com o potencial comercial da cultura. Quanto menor o volume de frutos danificados ou perdidos, maiores são as possibilidades de aproveitamento da produção e de ampliação da oferta para o mercado de frutas frescas.
Refrigeração pode prolongar a conservação do pedúnculo do caju
Depois da colheita, o manejo adequado continua sendo determinante para preservar a qualidade do caju. Para comercialização como fruta fresca, a recomendação é lavar os pedúnculos em água fria, a 20 °C, para remover a sujeira proveniente do campo e ajudar a reduzir sua temperatura.
Após a secagem, os frutos devem ser selecionados, retirando-se aqueles que apresentem danos. Em seguida, devem ser acondicionados em bandejas envolvidas com filme plástico flexível de PVC.
O armazenamento exige cuidados para evitar o amassamento. Por isso, as bandejas não devem ser empilhadas e precisam permanecer sob refrigeração, em temperaturas entre 3 °C e 5 °C, com umidade relativa do ar de 85% a 90%.
De acordo com as orientações técnicas de pós-colheita da Embrapa, essas condições podem prolongar a vida útil do pedúnculo de 15 para até 28 dias, ampliando o período disponível para transporte, distribuição e comercialização.
A refrigeração é uma das principais tecnologias para conservar frutas perecíveis. Seu uso pode ser associado a embalagens capazes de modificar a atmosfera ao redor do produto, como determinados filmes plásticos, contribuindo para retardar as alterações que ocorrem durante o armazenamento.
A escolha dos procedimentos, entretanto, precisa considerar as características do fruto e as condições em que ele será comercializado. O objetivo não é modificar a natureza do caju, mas preservar por mais tempo sua qualidade, suas propriedades e suas características nutricionais.
Aproveitamento do pedúnculo pode fortalecer a cajucultura
A ampliação do mercado do caju depende também de soluções para reduzir as perdas e diversificar o aproveitamento da produção. Embora a castanha concentre a comercialização, o pedúnculo pode ser utilizado na elaboração de diferentes produtos, abrindo possibilidades para agregar valor à atividade.
O potencial econômico da cajucultura envolve, portanto, tanto o aumento da produtividade no campo quanto a melhoria das condições de colheita, conservação, processamento e comercialização. A instalação de unidades de extração próximas às áreas produtoras, por exemplo, pode facilitar o aproveitamento do pedúnculo e reduzir o desperdício.
Outras medidas incluem o desenvolvimento de novos produtos, o aprimoramento das embalagens, a criação de canais de comercialização e o fortalecimento das relações entre produtores e indústrias. A mecanização também aparece como alternativa para enfrentar a escassez de mão de obra e melhorar a eficiência da produção.
Nesse cenário, as tecnologias de pós-colheita têm papel estratégico, pois ajudam a diminuir a distância entre o volume produzido e a quantidade efetivamente aproveitada. A conservação adequada pode favorecer o acesso a mercados que exigem frutas frescas com qualidade e maior tempo de vida útil, enquanto o processamento abre caminhos para utilizar os frutos que não atendem aos padrões de aparência exigidos para a venda in natura.
A redução das perdas representa uma oportunidade especialmente importante para o Nordeste, região que reúne condições favoráveis ao cultivo e concentra a produção nacional de castanha de caju. No Rio Grande do Norte, assim como nos demais estados produtores, o melhor aproveitamento do pedúnculo pode contribuir para ampliar as possibilidades econômicas da atividade.
Condições de cultivo também influenciam a qualidade
O desempenho da cajucultura depende das condições de cultivo e do manejo adotado pelos produtores. Por ser uma espécie nativa do Brasil, o cajueiro apresenta boa adaptação a regiões litorâneas com precipitação anual superior a 600 milímetros e estação seca de quatro a cinco meses.
A irrigação pode ampliar a produtividade, favorecer o prolongamento do período de colheita e melhorar a qualidade do pedúnculo e da castanha. Conforme as informações técnicas da Embrapa, o manejo irrigado pode elevar a produtividade em até 300%, dependendo das condições de produção.
Além da disponibilidade de água, a proteção fitossanitária é necessária para preservar o desenvolvimento das plantas. Entre as principais pragas está a broca-das-pontas, causada pela mariposa Anthistarcha binocularis. As lagartas formam galerias no interior dos ramos frutíferos, que podem secar e deixar de produzir frutos.

O controle desses problemas, associado ao uso de mudas adequadas e ao manejo eficiente da produção, contribui para melhorar o desempenho dos pomares. Quando essas práticas são articuladas com os cuidados pós-colheita, aumentam as possibilidades de reduzir desperdícios e aproveitar melhor o potencial econômico do caju.
A experiência de pesquisa da professora Miranda destaca, assim, a importância de olhar para todas as etapas da cadeia produtiva. A qualidade do pedúnculo não depende apenas das condições em que cresce no campo, mas também da maneira como é colhido, manuseado, acondicionado e armazenado.
O desafio da cajucultura é transformar uma produção expressiva em maior aproveitamento comercial, reduzindo perdas de uma parte do fruto que ainda enfrenta limitações para chegar ao mercado. Nesse processo, o desenvolvimento e a aplicação de tecnologias de pós-colheita podem contribuir para conservar a qualidade, ampliar as oportunidades de comercialização e fortalecer a cadeia produtiva do caju no Nordeste brasileiro.










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