Quando pensamos no progresso científico, frequentemente imaginamos mentes brilhantes e jovens rompendo barreiras, desafiando paradigmas e mudando nossa compreensão do mundo. A história da ciência é construída sobre ideias de alto risco e elevada recompensa. No entanto, a realidade dos laboratórios e universidades atuais é bem diferente: a ciência moderna tornou-se, em grande parte, uma máquina produtivista que sufoca a ousadia, especialmente entre os cientistas mais jovens.
Em um artigo recente, (How contemporary academic structures constrain scientific creativity and hold back early-career researchers), os autores argumentam que os sistemas científicos atuais estão cada vez mais limitando pesquisas de alto risco e conceitualmente inovadoras. A ciência acadêmica contemporânea está estruturada em torno de ciclos curtos de financiamento, critérios de avaliação baseados em produtividade e estruturas avessas ao risco que favorecem resultados de pesquisa previsíveis e não transformadores.
Por que a ciência está perdendo espaço para a criatividade?
O artigo enfatiza que na atual realidade há uma pressão desproporcional sobre os pesquisadores em início de carreira, incentivando-os a produzir trabalhos seguros, tratáveis e fáceis de serem avaliados e publicados. Mecanismos estruturais, como a avaliação por pares, os altos custos de publicação, o emprego precário e as dependências hierárquicas, interagem de forma a tornar a “conformidade estratégica” um caminho de carreira racional, suprimindo a criatividade no exato momento em que a independência científica desses jovens deveria florescer. Como resultado das pressões de seleção, estratégias de pesquisa incrementais e de baixa variância são favorecidas, penalizando a novidade conceitual e desviando o tempo dos pesquisadores para a otimização de métricas e expansão administrativa.
Os autores analisam as redes de apadrinhamento e inbreeding acadêmico (que eles chamam de avaliação com dependências hierárquicas) para mostrar como o poder é centralizado nas mãos de pesquisadores seniores. As evidências apontam que os jovens pesquisadores são frequentemente inseridos em projetos controlados por investigadores principais, reduzindo-os a executores de tarefas estritamente definidas e suprimindo suas agendas de pesquisa independentes.
O texto ainda alerta que, sob essas condições, as contribuições substanciais de jovens pesquisadores estão diminuindo, e os talentos correm o risco de abandonar a academia ou se concentrar apenas em um número limitado de instituições bem financiadas.
Produtividade acadêmica e o dilema dos jovens pesquisadores
A academia contemporânea foi progressivamente moldada por ciclos curtos de financiamento e uma cultura implacável do “publique ou pereça”. Avaliados constantemente pelo volume de artigos científicos que publicam, pesquisadores em início de carreira (recém-doutores e jovens professores) se veem presos em um dilema: arriscar anos em uma ideia profundamente inovadora que pode não dar certo, ou realizar pesquisas seguras, incrementais e previsíveis para garantir o próximo financiamento? Para sobreviver em um ambiente de empregos precários e alta dependência hierárquica, a maioria é empurrada para o que especialistas chamam de “conformidade estratégica”.
É exatamente nesse ponto que a ciência global (e a brasileira) perde. A criatividade científica não é apenas um traço de personalidade; ela é o resultado de um ambiente que oferece autonomia, tempo e tolerância à incerteza. Quando não estimulamos os nossos jovens pesquisadores e os sobrecarregamos com a necessidade de otimizar currículos, corremos o risco de estagnar o conhecimento humano.
Políticas de apoio: como estamos avaliando o futuro?
Para garantir que a ciência continue a dar saltos transformadores, como escreveu Thomas Kuhn (1922-1996), para irmos além da ciência normal e promovermos uma revolução científica, precisamos urgentemente reformular a maneira como apoiamos os projetos científicos de jovens pesquisadores, afastando-nos das métricas puramente quantitativas. O cenário brasileiro oferece exemplos claros do que deve ser evitado e do que pode servir de modelo.
Como um clássico contraexemplo dos problemas estruturais apontados pelo estudo, podemos observar os critérios tradicionalmente utilizados para a concessão das Bolsas de Produtividade em Pesquisa (PQ) do CNPq. Historicamente, esse sistema foca de maneira quase exclusiva no volume de publicações passadas, índice H, e número de alunos orientados.
Como financiar a inovação científica no Brasil?
Ao priorizar o peso acumulado do currículo, esse modelo acaba gerando o chamado “Efeito Mateus” — onde pesquisadores seniores, já estabelecidos e com grandes grupos, continuam concentrando a maior parte dos recursos, enquanto jovens talentos com ideias disruptivas, mas sem o mesmo volume quantitativo, ficam marginalizados. Isso induz a ciência nacional a uma pesquisa incremental, onde é mais rentável publicar pequenos recortes frequentes do que tentar resolver um grande e complexo problema.
Por outro lado, o exemplo positivo de uma política que visa proteger a criatividade juvenil vem de iniciativas como as do Instituto Serrapilheira. O Serrapilheira foca especificamente em apoiar pesquisadores em início de carreira que apresentam as chamadas “pesquisas de risco”. Em seu Programa de Ciência está escrito que “o programa tem como missão financiar cientistas que buscam excelência em suas pesquisas, fazendo perguntas fundamentais, com o risco e o sonho de oferecer grandes contribuições às suas áreas de atuação”.
Também há a seguinte orientação: “Apoiamos em longo prazo pesquisas de excelência de jovens cientistas no Brasil nas áreas de ciências naturais, ciência da computação e matemática. As propostas devem ser ousadas, e o risco é considerado bem-vindo.” Fica claro que o instituto entende que para fazer grandes descobertas, o cientista precisa de financiamento flexível e da liberdade para errar, permitindo que os jovens foquem na profundidade de suas análises, longe da pressão de publicar vários artigos superficiais por ano.
O caminho a seguir
Para que possamos voltar a ver quebras de paradigmas científicos, os sistemas de avaliação precisam passar por reformas estruturais. Precisamos de mais “Serrapilheiras” e de revisões nos critérios tradicionais do fomento estatal. Tolerar a incerteza, oferecer ciclos de financiamento mais longos e recompensar ideias ambiciosas são os passos necessários para tirar os jovens pesquisadores do atual quadro de estresse crônico e precarização. Só assim a ciência deixará de ser apenas uma esteira de produção de artigos para voltar a ser a verdadeira fronteira da descoberta humana.

Para reverter esse quadro, eu defendo que a criatividade científica é uma propriedade emergente de um ambiente acadêmico favorável, sendo necessárias amplas reformas estruturais, principalmente na pós-graduação, nas agências de fomento e na carreira dos docentes. Tais reformas devem incluir tomadas de decisão descentralizadas, ciclos de financiamento mais longos e estruturas de avaliação que valorizem a originalidade, a persistência e a colaboração, em vez de métricas puramente quantitativas. Adicionalmente, precisamos de carreiras estáveis e bem remuneradas para a atração dos jovens.
O progresso científico depende tanto da continuidade quanto da renovação. Se queremos que a ciência continue a transformar nossa compreensão do mundo, precisamos revisar as políticas públicas de fomento, descentralizar as lideranças e, acima de tudo, apostar na energia disruptiva que apenas a nova geração de cientistas pode oferecer.
John Fontenele Araujo é professor titular aposentado da UFRN e professor colaborador da UFDPar.










Entre na discussão