A pesquisa pública no Nordeste com foco na Indústria de Alimentos Destruição Criativa

quinta-feira, 10 setembro 2020

Os desafios do setor serão apresentados e analisados numa série de quatro textos

A evolução do ramo alimentar do Nordeste, dentro da Indústria de Transformação, foi verificado em sete dos nove estados da região no ano de 2017, como uma das três principais atividades da Indústria de Transformação em termos de participação percentual no Valor  da Transformação Industrial (VTI), ou seja, na geração de renda, conforme dados levantados pela publicação InfoNordeste (2017): Alagoas (58.1%), Sergipe (26.2%), Pernambuco (26.0%), Ceará (21.5%), Paraíba (18.0%), Rio Grande do Norte (12.1%) e Bahia (10.2%). Segundo Viana (2020), o Nordeste detém 21,7% dos estabelecimentos e 18,2% do emprego formal no ramo de produtos alimentícios, em relação ao Brasil.

A Indústria de Alimentos engloba uma grande diversidade de produtos, porém seu crescimento é dependente de fatores relacionado ao mercado consumidor e, pelas características de seus padrões de produção, possui forte interligação com os setores agrícola e pecuário, já que estes são fornecedores dos principais insumos utilizados na Indústria de Alimentos.

O Objetivo deste artigo é esboçar a demanda, de modo geral, da indústria de alimentos, por meio do levantamento de seus desafios.  E em seguida, apresentarmos o lado da oferta, através do conhecimento científico e tecnológico, que poderá contribuir para a compreensão, análises e soluções dos desafios enfrentados. Tendo como referencial a pesquisa pública e o seu potencial transformador por toda cadeia produtiva da indústria de alimentos.

Desafios da Indústria de Alimentos no Nordeste

Como resultado dos avanços da pesquisa em Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I), os padrões de produção sofrem mudanças ao responder as demandas, cada vez mais especializadas, e ao mesmo tempo, tornam-se competitivas perante os concorrentes. Assim, o desempenho da indústria de alimentos está fortemente relacionado com a pesquisa e desenvolvimento (P&D) focada para o aumento da produtividade, seja na agropecuária ou ao longo de toda cadeia produtiva dessa indústria. Especificamente, o aumento de produtividade na agricultura demanda pesquisas com sementes geneticamente modificadas, o que denominamos de inovação genética.  Outras práticas inovadoras também estão sendo adotadas, como a utilização de agricultura de precisão, correta aplicação de fertilizantes, rotação de culturas, correção de acidez do solo, manejo integrado de pragas e uso de defensivos agrícolas, conforme Filho et al. (2012).

Somam-se a estas. as inovações tecnológicas, entre elas: novos produtos, novos processos, novas matérias-primas, novos usos de matérias-primas tradicionais, além de inovações de mercado (novas embalagens, mudanças na dieta das pessoas) e tantas outras inovações como na logística e organizacional. Outra fonte de atividades em P&D na indústria de alimentos diz respeito ao padrão de competitividade apoiado no processo de certificação de qualidade de produtos, certificação de conformidade de processos ambientalmente correto e selos de denominação de origem. Filho et al. (2012) enfatiza que o reconhecimento da denominação de origem implica a organização de arranjos locais de produção e inovação, promovendo o desenvolvimento local sustentado, a exemplo:  o café do cerrado (CERTICAFÉ) e a cachaça artesanal mineira (certificado de conformidade e selo de qualidade). Há no Brasil diversos produtos regionais, entre eles, alimentícios e vinhos, com potencial de serem promovidos nos mercados nacional e internacional, como processo de diferenciação no mercado.

Outro fator importante de agregação de valor na indústria de alimentos é a sua vocação para segmentação dos produtos de acordo com seu público-alvo, por exemplo:  produtos para atender crianças, idosos, grupos com restrições alimentares (alimentos funcionais), famílias grandes e pequenas, entre outros.  Neste contexto, as inovações de mercado são sinalizadas pelas tendências do comportamento do público-alvo das empresas que devem preparar-se para atender a elas em tempo hábil.

Portanto, a característica da moderna produção de alimentos é a sua integração com as atividades agropecuária-industrial-comércio-serviços, fortemente envolvida em interações intersetoriais, de acordo com a publicação “Apoio do BNDES à Agroindústria: Retrospectiva e Visão de Futuro” (2012).

O moderno agricultor passou a ser um especialista, confinado às atividades de cultivo e criação. […] A jusante da fazenda, formaram-se complexas estruturas de armazenamento, transporte, processamento, industrialização e distribuição. […] e a montante, da fazenda: a produção de insumos agrícolas e fatores de produção, incluindo máquinas e implementos, tratores, combustíveis, fertilizantes, suplementos para ração, vacinas e medicamentos, sementes melhoradas, matrizes, agroquímicos[…] além de serviços bancários, técnicos de pesquisa e informação. (Filho et al., 2012)

Todas essas atividades, a jusante e a montante, demandam investimentos em P&D, modernização tecnológica e maior eficiência de gestão.  A indústria de alimentos é bastante diversificada, grande número de produtos ofertados, incluindo produtos associados à saúde e bem-estar. As empresas do setor adotam estratégias de inovação em produtos, em processos de produção, mudança organizacional, investimentos em marketing e novos modelos de negócios. A indústria de alimentos se caracteriza por forte marco regulatório e certificação de conformidade, a exemplo das novas tendências alimentares: a vegana e a orgânica. Os padrões de competitividade do mercado internacional também devem ser levados em consideração pelas empresas nacionais, em virtude de diversas empresas multinacionais atuaram no mercado brasileiro.

Todos esses elementos associados a fabricação de produtos alimentícios geram oportunidades de investimentos nas atividades de P&D. A pesquisa pública por meio de seus principais atores, professores-pesquisadores, é parte do sistema inovativo que apoia o crescimento da produtividade em toda cadeia produtiva do setor.

A pesquisa pública focada na Indústria de Alimentos

Constatamos um número expressivo de Grupos de Pesquisa no total de 262 (duzentos e sessenta e dois), todos pertences as universidades públicas localizadas no Nordeste brasileiro. Eles desenvolvem atividades de pesquisa e desenvolvimento (P&D) com foco na indústria de alimentos.

O Gráfico 1 abaixo especifica a distribuição desta base técnico-cientifica em curso no Nordeste, por grandes áreas de conhecimento, assim evidenciada:  bastante concentrada nas Ciências Agrárias com 143 Grupos de Pesquisa, em torno de 54.6% do total; com participações  muito próximas as áreas de Ciências da Saúde e Ciências Exatas e da Terra, com um total de 37 e 36 grupos, simultaneamente; as Engenharias com 10 grupos de pesquisa e as Ciência Humanas e Ciências Sociais Aplicadas com um total de 8 e 6 grupos, concomitantemente.

Com o objetivo de identificar as especialidades dos Grupos de Pesquisa que estão voltados para a indústria de alimentos, desagregamos as grandes áreas de conhecimento, de acordo com a tipologia do CNPq. Com esse fim, utilizamos as informações coletadas na base de dados corrente do DGP-CNPq, em 01/09/2020.

As Ciências Agrárias somam um total de 143 Grupos de Pesquisa. Predomina a Ciência e Tecnologia de Alimentos, com 83 grupos e Zootecnia com 42 grupos; em seguida, muito atrás, Medicina Veterinária e Agronomia, com 7 grupos cada um; por último, Recursos Pesqueiros e Engenharia de Pesca e Recursos Florestais e Engenharia Florestal, com 3 e 1 grupos de pesquisa, respectivamente.

A grande área de conhecimento Ciências da Saúde totaliza 37 Grupos de Pesquisa. O destaque é para Nutrição, com 24 grupos; muito abaixo, Farmácia com 5 grupos; Saúde Coletiva com 4 grupos; Educação Física com 2 grupos; Enfermagem e Medicina com 1 grupo cada.

Nas Ciências Exatas e da Terra, há o registro de 36 Grupos de Pesquisa. A Matemática marca sua presença com um único grupo, cabendo a Química, com 35 grupos, assumir o protagonismo da pesquisa no setor de alimentos.

As Ciências Biológicas, apresentam 19 Grupos de Pesquisa ao todo. Individualmente, Microbiologia concentra 9 grupos; com quase a metade, Biotecnologia agrega 4 grupos; seguida por Bioquímica com 3 grupos; Ecologia com 2 grupos e Parasitologia com um único grupo.

As Engenharias computam 10 grupos desenvolvendo atividades com foco na fabricação de produtos alimentícios. Destaque para a Engenharia Química, com 8 grupos; as Engenharias Elétrica e Mecânica participam com 1 grupo cada.

As Ciências Humanas vêm em seguida, com 8 Grupos de Pesquisa. Distribuídos uniformemente por cinco áreas de conhecimento: Antropologia com 2 grupos; Sociologia com 2 grupos; Educação com 2 grupos; Geografia e Arqueologia, 1 grupo cada

Por último, as Ciências Sociais Aplicadas contabilizam apenas 6 grupos dedicados a estudar e contribuir com a cadeia produtiva de alimentos. Com Turismo atuando com 4 grupos de pesquisa; Economia e Direito, com apena 1 grupo cada.

Conclusão

Sabe-se da importância da Indústria de Alimentos no Nordeste brasileiro e de toda sua cadeia produtiva, assim como tem-se conhecimento dos seus desafios. A questão colocada propõe suprir os desafios enfrentados por este setor, seja na esfera tecnológicas, sociais e ambientais, através de investimentos em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), em particular aqueles ligados a pesquisa pública.

A desagregação dos Grupos de Pesquisa por Grandes Áreas de Conhecimento revelou que a Grande área Ciências Agrárias apresenta um total de grupos de pesquisa bastante representativo (143 grupos), fortalecendo a inter-relação existente entre a indústria de alimentos, a agricultura e pecuária. Uma relação moderada com as grandes áreas de Ciências da Saúde e Ciências Exatas e da Terra. Um pouco menor com a grande área Ciências Biológicas e uma relação pouco expressiva com as demais áreas.

O importante a destacar é que os desafios existem e, com o desenvolvimento tecnológico eles tendem a aumentar; do mesmo modo espera-se que também cresçam os interesses em investimentos em P&D com objetivos de análises e soluções para os desafios que surgirão.

Este é o primeiro artigo da tetralogia com enfoque na Indústria de Alimentos. Nos próximos evidenciaremos a análise por estado, dividido em três grupos, com ênfase nos desafios enfrentados e o que se oferta em termos de pesquisa pública, além de identificar o potencial de parcerias estabelecidas entre os Grupos de Pesquisa e as Instituições Públicas e Privadas.

Referências:

infoNordeste – A região em Números. A Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI): 2020.

VIANA, F. L. E. Indústria de Alimentos. Caderno Setorial ETENE, Ano 5, n. 115, maio, 2020.

FILHO, E. D. B.; LIMA, J. F.; CAPANEMA, L. X. L.; MORAES, V. E. G. Apoio do BNDES à agroindústria: retrospectiva e visão de futuro. In: SOUSA, F. L. (org.).  BNDES 60 anos: perspectivas setoriais. Rio de Janeiro: BNDES, v. 1, 2012.

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Leia outros textos dos mesmos autores: Caatinga e Semiárido na pesquisa brasileira

Vaneide Ferreira Lopes é pesquisadora e Líder do Grupo Inovação, Tecnologia e Projetos na Paraiba (GiTecPB) e Carlos Alberto da Silva é professor titular da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e Líder do Laboratório de Pesquisas em Economia Aplicada e Engenharia de Produção (Lapea).

Uma resposta para “A pesquisa pública no Nordeste com foco na Indústria de Alimentos”

  1. Fernando Luiz Alves Barroso disse:

    Este artigo representa mais uma contribuição, em termos de divulgação científica, dos pesquisadores Carlos Alberto da Silva e Vaneide Lopes. O tema “pesquisa sobre a indústria alimentícia no nordeste brasileiro”, é absolutamente apropriado e oportuno. Não resta dúvida sobre a importância do desenvolvimento econômico e social desta região. E o trabalho destes pesquisadores contribui para fortalecer este processo de desenvolvimento. Os autores estão de parabéns.

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