Se há algo raro no laboratório, isso se chama rotina. Até quando as coisas fogem do controle (aquilo que chamamos de “deu errado”), elas acontecem de forma totalmente aleatória e imprevisível. Todavia nenhum momento de tensão supera aquele email com título “Your submission”…
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Depois de muitos meses de trabalho, discussão, escrita, submissão de um artigo científico para a revista, sempre chega a hora de saber a opinião dos revisores. A única certeza é que, após a leitura, muito trabalho vem pela frente… E, às vezes, concentrado em duas ou três semanas. É fato que no final, seja o trabalho aceito ou não, há uma melhora considerável com o olhar criterioso dos revisores.
Quando o revisor vira parte da história
Revisores que às vezes são econômicos nas palavras ou exageram ao enviar dezenas de questionamentos. O que tenho percebido nestes vinte e tantos anos de labuta é um costume (mau costume, por sinal) que vem se consolidando: a sugestão de referências a trabalhos dos próprios revisores a serem citadas no artigo revisado.
Algumas delas são desnecessárias e deixam claro que a intenção é obter citação (e fator H) às custas de um trabalho voluntário. Alguns editores sacam a jogada e alertam os autores de que não são obrigados a citar todas. Todavia, a maioria sucumbe e cita o que foi solicitado, para alimentar o ego do revisor e deixá-lo “confortável” para aceitar o trabalho na próxima rodada de revisão.
O fato é que esse costume predatório de alguns revisores tem mais efeitos colaterais: sua identidade fica exposta, já que seu nome, por vezes, é o que aparece em todas as sugestões (o parecer seria anônimo no processo). Com o tempo, fui adquirindo habilidades para adivinhar os nomes dos revisores pelos seus pareceres. Porém, nada foi mais assustador do que o que vivi nesta semana. Ao reunir as sugestões de artigos no parecer, percebi que os nossos trabalhos (meu e do revisor X da Ásia) seguem pelo mesmo caminho, com os mesmos objetivos e com detalhes incrivelmente iguais (a gambiarra do porta-amostras feita na impressora 3d é a mesma!).
Ideias simultâneas e coincidências improváveis
Todos sabemos da teoria das ideias simultâneas (ideias ocorrem em pares): Charles Darwin e Alfred Russel Wallace formularam a teoria da evolução por seleção natural separadamente. Isaac Newton e Gottfried Wilhelm Leibniz inventaram o cálculo de forma independente. Mas essa do porta-amostras igual me pegou!!!

Sempre digo aos meus alunos que não comentem seus projetos de pesquisa com ninguém (o segredo é a alma do negócio), e isso até parece neurótico… Mas depois desta constatação… Só a desigualdade de Bell explicaria os spins girando simultaneamente em lados opostos do planeta. Com a diferença de que são ideias. E enquanto ideias, tudo bem… Porém quando chegam na cabeça de Ciclano que está em Petrolina e de Beltrano que está em Singapura, elas se transformam em coisas completamente diferentes.
Ciclano está lutando contra um ataque de abelhas no laboratório, com o forro de gesso caindo e a lâmpada queimada, e o aluno, com o prazo estourado, mandando texto para correção na véspera do Natal. Beltrano toma café no seu gabinete e aguarda os dados do laboratório, que funciona 24 horas por dia, com 10 pós-docs trabalhando no mesmo projeto, usando as mesmas ferramentas. Quem chegará mais longe? Se a ciência for uma onda, quem tem chance de surfá-la até o fim?
Na ciência brasileira, é preciso surfar na próxima onda
É uma comparação que chega a doer de tão injusta que é. Mas é isso: alguns países acreditam no potencial da ciência, enquanto outros nem tanto. Para fazer ciência competitiva no Brasil é preciso acertar nas ondas que ainda se formarão, porque nos tubos que se formaram a disputa é pesada e para os mais fracos restam os rochedos (na luta entre o mar e o rochedo, que morre é o siri).
Quando desistir não é opção, ver mais longe é obrigação. Beltrano não estava quando as pessoas giravam o nariz para um centro de nanotecnologia no Vale do São Francisco. Ele não sabe como se tira leite de pedra… Na dificuldade, o cientista brasileiro é forjado. E o mar… Ah, o mar… Tem onda para todos. É só apostar em uma que esteja se formando e se jogar. E assim seguimos nesta aventura de produzir conhecimento.
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Helinando Oliveira é físico, professor titular da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) e atualmente é vice presidente da Academia Pernambucana de Ciência










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