Inicialmente, é fundamental reconhecer que um programa de gestão para uma Universidade pública deve ter a pesquisa e a inovação como dimensões estratégicas de sua missão institucional, articuladas ao ensino, à extensão e à formação de profissionais e cidadãos. Em uma universidade como a UFRN, isso significa fortalecer a excelência e a diversidade da pesquisa, ampliar sua inserção nacional e internacional, estimular a inovação e a transferência de conhecimento para a sociedade, criar condições para o desenvolvimento de novas tecnologias e avançar frente aos grandes desafios científicos, sociais, econômicos e ambientais contemporâneos.
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Nesse contexto, torna-se necessário reconhecer que a Inteligência Artificial (IA) e a transformação digital constituem uma das principais agendas estratégicas para a Universidade. Mais do que incorporar novas ferramentas tecnológicas, é necessário preparar a comunidade universitária para compreender criticamente essas transformações, desenvolver e utilizar tecnologias de forma ética e responsável e transformar seu potencial em qualidade acadêmica, inovação, inclusão e melhoria da gestão pública. A UFRN deve estar na vanguarda desse processo, formando pessoas e produzindo conhecimento e soluções capazes de responder aos desafios da transformação digital e de contribuir para o desenvolvimento do Estado e do país.
Princípios que fundamentam a universidade pública
Defendemos, portanto, uma UFRN preparada para essa transição, sem abrir mão dos princípios que fundamentam a universidade pública: autonomia acadêmica, ética, liberdade de pensamento, compromisso com a ciência, democratização do conhecimento, inclusão e responsabilidade social. Para isso, é fundamental promover uma discussão ampla, com participação da comunidade universitária, para a elaboração de diretrizes, repositórios e demais desdobramentos normativos que favoreçam o letramento e o uso consciente, crítico, e responsável nas suas atividades de ensino, pesquisa e extensão e gestão. Essas diretrizes devem estabelecer princípios, regras e orientações considerando os aspectos éticos, segurança, proteção de dados, transparência, formação e capacitação, ao mesmo tempo que estimulem inovação, o desenvolvimento de tecnologias e soluções na própria UFRN e a formação de pessoas capazes de participar ativamente da transformação digital do Estado e do país.
De modo natural e determinado, uma nova gestão da UFRN deve assumir, de forma ainda mais explícita, sua condição de instituição estratégica para o desenvolvimento do Rio Grande do Norte. Sua contribuição não pode se restringir à formação de profissionais. A Universidade deve ser uma grande plataforma de produção de conhecimento, formação de pessoas, pesquisa e inovação, cultura, e soluções para os desafios do Estado.
A própria concepção pedagógica da UFRN já aponta para a flexibilidade, a interdisciplinaridade, a articulação teoria-prática e a indissociabilidade entre ensino, extensão, pesquisa e inovação. O desafio da próxima gestão será transformar esses princípios em experiências concretas para os estudantes. Queremos uma UFRN que forme profissionais para o presente e, sobretudo, pessoas capazes de aprender, criar e se reinventar diante das profissões do futuro.
A UFRN produz conhecimento de excelência em praticamente todas as áreas. O desafio, portanto, não está apenas em ampliar essa produção, mas em fortalecer a sua capacidade institucional de transformar conhecimento em impacto e fazê-lo chegar de forma mais efetiva à sociedade, às políticas públicas, aos serviços, às empresas, às organizações sociais e às comunidades. Esse movimento não significa subordinar a Universidade ao mercado. Ao contrário, significa ampliar a capacidade de o conhecimento produzido na UFRN gerar impactos sociais, econômicos, científicos, culturais e ambientais, preservando a autonomia acadêmica e a natureza pública do conhecimento.
Inovação e transferência de tecnologias
A nossa Universidade também já possui estruturas, políticas e instrumentos importantes para essa aproximação, como a Agência de Inovação e outras normas e resoluções, ambientes de inovação, incubadoras e parques tecnológicos, além de políticas de pesquisa e extensão voltadas à interação com a sociedade. A Agência de Inovação, por exemplo, desempenha papel relevante na transferência de tecnologias, na construção de parcerias e no apoio a startups. O próximo passo deve ser justamente articular melhor essas iniciativas, e ampliar sua escala e alcance.
É do conhecimento de toda a comunidade universitária que a Pesquisa ocupa um papel central na gestão da UFRN e esta construção foi impulsionada com o desmembramento da Pró-reitoria de Pesquisa e Pós-graduação da UFRN e consequente formalização da autonomia da Pró-reitoria de Pesquisa, em 2003. Essa reorganização permitiu ações mais focadas, com destaque para concorrência nos primeiros editais e chamadas públicas do CT-Infra (Fundo Setorial de Infraestrutura) gerenciados pelo Governo Federal (Finep), e criados em 2001 (Lei nº 10.197 de 14 de fevereiro de 2001). A autonomia, contudo, não significou desarticulação entre as duas pró-reitorias. Ao contrário, a colaboração entre pesquisa e pós-graduação contribuiu para ampliar sua competitividade e efetividade na captação de recursos e para consolidar a infraestrutura de pesquisa e pós-graduação na UFRN. Esse processo refletiu na expansão da base instalada, o crescimento do número de pesquisadores envolvidos com a Pesquisa e do número significativo dos Programas de Pós-graduação.
Paralelamente, outras agências de fomento e os Fundos Setoriais, criados para financiar a pesquisa científica, o desenvolvimento tecnológico e a inovação no país, intensificaram os investimentos em diferentes áreas estratégicas para o setor industrial, sendo os primeiros voltados para a indústria petrolífera e para as iniciativas inovadoras de tecnologias sociais. Desde então, em fluxo contínuo, as ações voltadas para pesquisa se intensificaram e se diversificaram, com a UFRN participando ativamente na captação de recursos e gerando legados estruturantes que mantêm a pesquisa em um patamar de reconhecido destaque.
Integração da Universidade com o Sistema Estadual de CT&I
Entretanto esses avanços não eliminam a necessidade de uma articulação mais sistemática e produtiva entre a política institucional de pesquisa e pós-graduação da UFRN e as políticas estaduais de Ciência, Tecnologia e Inovação. Ao contrário, a própria consolidação dessa capacidade científica evidencia uma lacuna que precisa ser superada: a necessidade de fortalecer os mecanismos de integração entre a Universidade, o Sistema Estadual de CT&I e as demandas estratégicas de desenvolvimento tecnológico e social do Rio Grande do Norte. Para isso, é inadiável o estreitamento da cooperação com o Governo do Estado, com destaque para a FAPERN, ampliando oportunidades de financiamento, formação de recursos humanos e desenvolvimento de projetos de interesse comum.
A UFRN, protagonista na criação da FAPERN em 2003, deve retomar esse papel estratégico, contribuindo para consolidar o sistema estadual de CT&I e aproximar a produção de conhecimento das necessidades da sociedade potiguar. Assim teremos o fortalecimento do vínculo com a FAPERN como parceira desse sistema, o que permitirá ampliar a formação qualificada de recursos humanos, captar novos investimentos e assegurar contrapartidas relevantes para a execução de políticas públicas na produção de conhecimento, formação de pessoas, inovação, cultura e soluções para os desafios tecnológicos e sociais do Estado. Isso significa construir uma relação mais permanente e estruturada com o Governo do Estado, municípios, setor produtivo, Sistema S, instituições de ciência e tecnologia, movimentos sociais, organizações da sociedade civil e comunidades.
Renovação e alternância na gestão
Devemos estar também, dispostos a enfrentar novos desafios, considerando que a continuidade administrativa constituiu um elemento importante para preservar a memória institucional e assegurar a execução de projetos de médio e longo prazo, mas não deve se transformar em permanência indefinida nos espaços de gestão. Essa continuidade, portanto, precisa ser acompanhada de mecanismos de renovação e alternância, de modo a evitar que a estabilidade institucional se converta em cristalização de práticas, grupos ou formas de gestão.
A UFRN do futuro precisa combinar excelência e inclusão; tradição e inovação; autonomia e diálogo; conhecimento e impacto social. Desse modo, a próxima gestão deverá substituir uma lógica predominantemente administrativa por uma gestão participativa, transparente, descentralizada e orientada por resultados acadêmicos e sociais.
A renovação periódica das funções dirigentes certamente favorece a circulação de ideias, a formação de novas lideranças e a democratização das oportunidades de participação. Mais do que uma simples substituição de pessoas, a alternância pode funcionar como mecanismo de atualização das instituições, permitindo a incorporação de novas perspectivas, demandas e formas de atuação, sem que isso implique o abandono da experiência e dos conhecimentos acumulados. A continuidade deve preservar a memória institucional, mas a alternância deve preservar a capacidade da instituição de se renovar.
Para isto, a alternância, nos espaços de gestão deve estar associada a critérios transparentes, republicanos e impessoais capazes de assegurar tanto a preservação da memória e das conquistas institucionais quanto a abertura à inovação, à pluralidade, à formação de novas lideranças, sempre orientadas pelo interesse institucional e pelo compromisso com a finalidade pública da Universidade.
Assim, que de modo natural e determinado, uma nova gestão da UFRN deva assumir, de forma ainda mais explícita, sua condição de instituição estratégica para o desenvolvimento do Rio Grande do Norte. Sua contribuição não pode se restringir à formação de profissionais. A Universidade deve ser uma grande plataforma de produção de conhecimento, formação de pessoas, pesquisa e inovação, cultura, e soluções para os desafios do Estado.

De maneira resumida, as reflexões acima colocadas, apontam para uma nova concepção de Universidade, buscando suas origens e incorporando novos saberes e ferramentas tecnológicas modernas e desafiadoras. A UFRN do futuro precisa combinar excelência e inclusão; tradição e inovação; autonomia e diálogo; conhecimento e impacto social. Desse modo, a próxima gestão deverá substituir uma lógica predominantemente administrativa por uma gestão participativa, transparente, descentralizada e orientada por resultados acadêmicos e sociais.
Maria Bernardete Cordeiro de Sousa é professora titular e diretora do Instituto do Cérebro da UFRN, atuou na Pró Reitoria de Pesquisa (2003-2011) e foi diretora presidente da FAPERN (2011-2013).










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