Se fosse feita uma enquete entre os estudantes, não seria surpresa ver que a física é, provavelmente, a disciplina que mais sofre rejeição. O diagnóstico é rápido e, mesmo assim, não se pode resolvê-lo no curto prazo. Isso ocorre porque há um déficit de professores de física (com formação em física) no país, e apenas um investimento consistente nas licenciaturas e na valorização do plano de carreira do professor consegue reverter o desinteresse dos jovens pela carreira docente. É raro ver mais de dois ou três alunos em turmas de 60 pessoas que demonstrem interesse em ser professores.
ENTRE NO GRUPO DE WHATSAPP DO NOSSA CIÊNCIA
E, uma vez professor, tentar fugir das armadilhas da área: listas de exercícios e problemas cada vez mais distantes da realidade objetiva dos jovens. Permitam-me exemplificar com minha própria vivência: aos 14 anos, eu era estudante da antiga Escola Técnica Federal de Pernambuco (ETFPE), do curso de eletrônica. E detestava física, guardando este segredo comigo como um profundo pecado… Como um futuro técnico em eletrônica poderia não gostar de física? E não gostava.
Seja uma pedra arremessada
Meus primeiros contatos com a mecânica e a eletricidade foram traumatizantes. A primeira aula de física começou com: “seja uma pedra arremessada…” e um monte de papel milimetrado no que seria o “Laboratório de Física Experimental”. Já na aula de eletricidade, a professora perguntou o que aconteceria se fizéssemos um nó no fio da televisão. Minha resposta de imediato foi: “Nada”. Ao que fui repreendido veementemente por ela ao citar os efeitos da indução eletromagnética.

No fim, os colegas continuaram sem entender o que era o fenômeno e pelo menos metade deles interpretou que o fio entupiria tal qual uma mangueira levando água – um verdadeiro caos. Já contei esta história aqui algumas vezes, a de que entrei na engenharia sem gostar de física até que uma aula de física 2 abriu meus olhos. Ora, se a física os iluminasse desde os meus 14 anos, certamente eles teriam visto coisas ainda mais belas, que ficam escondidas por trás das funções matemáticas, tão necessárias, mas tão duras para quem inicia esta caminhada.
Entendo que quanto mais conceitual e lúdica for a introdução da física para os jovens, mais amortecedores serão colocados para suportar o peso da matemática que embasa todo este processo. Um estudante que decide ser professor de física precisa ser profundamente apaixonado por fenômenos físicos, a ponto de transformar em magia do circo qualquer demonstração de fenômeno natural. E deve saber explicar, em todas as camadas possíveis, todos os processos.
Lúdico e atraente
Em vez de ensinar movimento uniforme, leva os alunos ao pátio e monta um relógio solar. Em vez de perguntar sobre nós em fios, soltar um ímã dentro de um cano de PVC e medir o tempo de queda com o cronômetro do celular. Trocar o tubo de PVC por outro metálico e repetir o experimento. E assim plantar a semente da curiosidade nos estudantes. Por que deu diferente? E se, em vez de um tubo maciço, tivesse cortes? E por aí vai.
A partir da próxima semana, voltaremos a falar de física; depois da série de 15 semanas de mecânica quântica vem outra sequência de textos sobre eletromagnetismo. O desafio é torná-lo lúdico e atraente para todos os públicos, de qualquer idade e com qualquer nível de escolaridade. Começaremos por Tales de Mileto e o experimento de eletrização e chegaremos às integrais de Feynman. Fácil? Quase nunca. Divertido? Sempre. Eletromagnetismo, vamos lá?
Leia outros textos da coluna Ciência Nordestina
Helinando Oliveira é físico, professor titular da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) e atualmente é vice presidente da Academia Pernambucana de Ciência










Entre na discussão