Todos os que vivenciam ou vivenciaram o mundo acadêmico já foram bolsistas. E, tendo passado por esta fase de incerteza, convém reconhecer que a vida de bolsista é estressante e insegura. Sem férias, sem previdência (até recentemente), sem FGTS, sem perspectivas de curto prazo e um mundo de incertezas pela frente.

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De minha experiência, posso dizer que sete anos como bolsista e arrimo de família foram a aventura mais louca que já vivi. Seria mais fácil ter largado tudo e aceitado a função de ser contínuo do banco, cargo oferecido e que pagava melhor do que a bolsa de iniciação científica disputada.

Só que, felizmente, os sonhos são como raízes e, quando alimentados por nossos pais e ancestrais, ganham profundidade e se multiplicam, criando xilopódios que guardam água para os muitos verões da vida.

No sertão há uma espécie, o umbuzeiro, que parece morrer no verão. Não resta uma folha viva, e tudo se resume a um entrelaçado de galhos que parecem mãos levantadas aos céus, suplicando por água.

Enquanto somos bolsistas, temos a vivência do que é o umbuzeiro jovem: poucas folhas, raízes escassas e uma fragilidade que se reforça nesta vida severina.  Só que, quanto mais sofre, mais aprofunda suas raízes, que valem mais do que suas folhas.  A cada novo verão, todas as folhas se vão… Mas lá embaixo, no escuro das sombras que só nós sabemos onde estão, crescem fortes os ramos de resistência.

É preciso ter muita convicção de que a formação de graduação e de pós-graduação será o grande diferencial na vida profissional para seguir na trilha da bolsa de estudos. A bem da verdade, é importante dizer que, para o futuro desta nação, não haveria de existir uma verdadeira odisseia na formação de mestres e doutores. Uma vez graduados, estes profissionais optam por realizar pesquisa e capacitar-se, em vez de ingressar no mercado de trabalho. Seria justo que recebessem um valor decente em suas bolsas.

Mais uma vez, chegamos àquela dicotomia entre o plano de governo e o plano de Estado: a ciência deve ser um investimento prioritário de um país, independentemente de quem o governe. Sabemos que ainda estamos longe desta realidade, porém não custa sonhar.

E enquanto sonhamos com um Brasil soberano, ficam os votos de muita resiliência para todos os jovens bolsistas deste país. Lembrem-se das raízes profundas fincadas nestes dias difíceis – elas crescem longe do olhar de todos. Lá na frente surgirão os resultados, frutos de todo este investimento. Como diz o provérbio africano: “Quando as raízes são profundas, a árvore não precisa ter medo do vento”.

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Helinando Oliveira é físico, professor titular da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) e atualmente é vice presidente da Academia Pernambucana de Ciência