A produção de sal marinho no Rio Grande do Norte vive o desafio de avançar em tecnologia e eficiência sem deixar de lado a conservação ambiental. Para o pesquisador Rogério Taygra Vasconcelos Fernandes, professor efetivo da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa) que há mais de uma década desenvolve estudos relacionados à cadeia produtiva do sal, o caminho passa pelo conhecimento das características próprias das salinas, pelo manejo ecológico e pela busca de alternativas para reduzir impactos e aproveitar melhor os recursos gerados durante o processo produtivo.
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Com atuação na interface entre atividade salineira, meio ambiente e desenvolvimento regional, o pesquisador defende uma aproximação cada vez maior entre ciência e setor produtivo. O Rio Grande do Norte responde por praticamente toda a produção brasileira de sal marinho e reúne condições naturais favoráveis à atividade, como sol, ventos, áreas planas e condições adequadas à evaporação solar.
Para Fernandes, essa realidade também aumenta a responsabilidade dos pesquisadores que atuam na região. “Não basta importar modelos prontos. Precisamos gerar conhecimento a partir das características das nossas salinas, dos nossos estuários, do nosso clima e da nossa realidade produtiva”, afirma.
Salinas também são ambientes de biodiversidade
A pesquisa desenvolvida pelo professor tem como uma de suas principais frentes a tentativa de conciliar a produção de sal marinho com a conservação ambiental. O trabalho envolve o chamado manejo ecológico das salinas, buscando compreender a biodiversidade existente nesses ambientes e, ao mesmo tempo, contribuir para uma produção mais eficiente.

Segundo o pesquisador, as salinas são ambientes artificiais ou fortemente manejados pelo ser humano, mas podem abrigar uma biodiversidade própria, formada principalmente por organismos adaptados às condições de elevada salinidade e por aves que utilizam esses espaços.
Essa característica exige, na avaliação dele, que cada território seja analisado de acordo com suas condições específicas. “Não podemos pensar em produção e conservação como se fossem, obrigatoriamente, interesses opostos”, destaca.
A proposta envolve identificar os impactos, evitar aqueles que podem ser prevenidos, reduzir os que não podem ser totalmente eliminados e recuperar áreas quando houver necessidade. Nesse processo, entram planejamento ambiental, monitoramento, inovação tecnológica e diálogo entre pesquisadores, empresas e órgãos ambientais.
“A sustentabilidade não deve ser vista como um obstáculo à produção. Ela precisa ser incorporada como uma condição para que a atividade continue forte e competitiva no longo prazo”, afirma. Entre os principais pontos de atenção ambiental relacionados à produção salineira, Fernandes cita possíveis alterações na dinâmica hídrica e na circulação da água, mudanças no solo, supressão ou transformação de habitats e alterações de salinidade em ambientes sensíveis.

Os estuários e manguezais merecem atenção especial. São, segundo o pesquisador, ecossistemas importantes tanto pela biodiversidade quanto pelos serviços ambientais que oferecem. Por isso, qualquer alteração nesses ambientes precisa ser cuidadosamente avaliada.
Ao mesmo tempo, ele ressalta que não é possível fazer generalizações sobre os impactos da atividade. As consequências ambientais dependem da localização da salina, da forma como foi implantada, da escala de produção, do sistema de manejo e das condições ambientais do entorno.
É justamente nesse ponto que, para o pesquisador, a ciência tem papel decisivo. “Precisamos sair das análises genéricas e compreender cada situação para desenvolver medidas de prevenção, mitigação, compensação ou recuperação quando necessárias”, pontua.
Água-mãe: de material descartado a possível recurso
Uma das questões ambientais acompanhadas nas pesquisas relacionadas à cadeia salineira é o destino da água-mãe, solução altamente concentrada que permanece após a retirada do cloreto de sódio durante o processo de produção do sal.

Fernandes faz uma ressalva sobre a forma como esse material costuma ser compreendido. Para ele, a água-mãe não deve ser tratada simplesmente como um rejeito sem utilidade. Trata-se de uma solução concentrada que mantém sais e outros elementos dissolvidos depois da cristalização do cloreto de sódio.
O pesquisador explica que o descarte inadequado de uma solução com elevada salinidade pode provocar alterações ambientais, especialmente quando alcança ecossistemas que não estão adaptados a essas condições. Por isso, entre as alternativas estão o controle e o monitoramento dos fluxos de água e salmoura dentro e fora das salinas.
Outra possibilidade considerada promissora é o aproveitamento dos componentes presentes nessas soluções. Conforme a concentração aumenta, diferentes compostos podem se concentrar e até precipitar, incluindo sais de cálcio, sulfatos, potássio e magnésio.
Esse cenário abre espaço para estudos voltados à recuperação de substâncias e ao aproveitamento de coprodutos. Para o pesquisador, entretanto, qualquer alternativa precisa ser avaliada não apenas pelo potencial de utilização, mas também pela viabilidade técnica, econômica e ambiental.
“Potencial não significa automaticamente viabilidade comercial. É preciso desenvolver processos, avaliar custos, consumo de energia, escala de produção e, principalmente, a segurança ambiental de cada alternativa”, explica.
A perspectiva defendida pelo professor é transformar a maneira como a água-mãe é encarada dentro da cadeia produtiva. Em vez de considerá-la apenas um material que precisa ser gerenciado ao final do processo, a pesquisa pode buscar formas de transformá-la em recurso.
É uma lógica próxima à economia circular, na qual materiais resultantes de uma atividade produtiva podem ser estudados para encontrar novas possibilidades de utilização.
Conexão com a agricultura
Uma das possibilidades mencionadas pelo pesquisador está relacionada à agricultura. Ele cita pesquisas desenvolvidas pelo professor José Francismar de Medeiros, também da Ufersa, sobre o aproveitamento da água-mãe como fonte de nutrientes para a produção agrícola.
Para Fernandes, essa linha de investigação é especialmente interessante para o Rio Grande do Norte por aproximar duas cadeias produtivas relevantes para o estado: a produção salineira e a fruticultura irrigada.

A água-mãe apresenta diferentes sais e elementos minerais e, dependendo de sua composição e da forma de utilização, pode ter potencial como insumo agrícola. Mas o pesquisador ressalta que esse aproveitamento exige conhecimento técnico, já que se trata de um material com elevada concentração de sais. É necessário, segundo ele, definir doses, formas de aplicação e culturas adequadas, além de avaliar possíveis efeitos sobre o solo, a água e as plantas.
Para o pesquisador, a possibilidade representa uma mudança de perspectiva. “Em vez de enxergarmos a água-mãe apenas como um material que precisa ser gerenciado ao final do processo produtivo, podemos buscar formas de transformá-la em um recurso”, aponta.
Na avaliação de Fernandes, a integração entre a produção de sal e a fruticultura irrigada exemplifica o tipo de solução que a pesquisa regional pode desenvolver. As duas atividades possuem forte presença na economia potiguar e podem encontrar pontos de conexão por meio da produção de conhecimento aplicado.
Pesquisa aplicada
A atuação do pesquisador está baseada na defesa de uma ciência próxima do setor produtivo. Para ele, a universidade deve funcionar como uma ponte entre o conhecimento científico e os problemas encontrados no cotidiano das empresas e dos trabalhadores.
Isso significa conhecer a atividade salineira, dialogar com produtores e trabalhadores, compreender os processos e transformar os resultados das pesquisas em melhorias. Entre as possibilidades estão o desenvolvimento de tecnologias, o aumento da eficiência, a redução de impactos ambientais, o conhecimento da biodiversidade das salinas e o aproveitamento de recursos ainda pouco utilizados.
A difusão desse conhecimento também integra essa responsabilidade. O pesquisador considera necessário ampliar a compreensão da sociedade sobre o funcionamento das salinas e sobre a importância da atividade para o Rio Grande do Norte.
Para Fernandes, a importância econômica da cadeia salineira vai além do produto final. O sal movimenta empresas, empregos, logística, tecnologia e conhecimento, além de integrar historicamente a identidade econômica de municípios como Mossoró, Areia Branca, Grossos, Porto do Mangue, Macau, Galinhos e Guamaré.
Tecnologia para produzir melhor e com menor impacto
O processo de produção do sal marinho utiliza, essencialmente, a energia do sol e a ação dos ventos. A água do mar ou de ambientes estuarinos adequados é conduzida por uma sequência de lagoas artificiais. À medida que percorre essas etapas, a água evapora e a concentração dos sais aumenta.
A sustentabilidade não deve ser vista como um obstáculo à produção. Ela precisa ser incorporada como uma condição para que a atividade continue forte e competitiva no longo prazo.
Quando a salmoura alcança as condições necessárias de saturação em cloreto de sódio, segue para os cristalizadores. Com a continuidade da evaporação, os cristais de sal se formam e posteriormente são colhidos, podendo passar por lavagem, secagem e beneficiamento.
Para Fernandes, o avanço tecnológico está justamente na capacidade de controlar melhor essas etapas, aumentando a eficiência e a qualidade e reduzindo possíveis impactos. Ele vê espaço para ampliar o uso de automação, sensores, sistemas de controle, geotecnologias e ferramentas de análise de dados. Essas tecnologias podem permitir um acompanhamento mais preciso da qualidade da salmoura, dos níveis de água e de parâmetros ambientais.
A modernização também tem reflexos sobre as condições de trabalho. Historicamente, a colheita do sal era marcada pelo esforço físico intenso e pela exposição prolongada ao sol, ao sal e à salmoura. A mecanização reduziu a participação direta dos trabalhadores em diversas etapas da colheita e do transporte.
Segundo o pesquisador, a tecnologia deve ser compreendida não apenas como instrumento para aumentar a produtividade, mas também como mecanismo de melhoria das condições de trabalho e redução da exposição às tarefas mais pesadas e insalubres.
O futuro da indústria salineira
Para Fernandes, o futuro da atividade salineira potiguar será marcado pela combinação entre as vantagens naturais da região e novas tecnologias. A produção baseada na evaporação solar continua tendo condições favoráveis no estado, mas precisa incorporar ferramentas que permitam maior controle, eficiência e sustentabilidade.

Nesse cenário, o aproveitamento de subprodutos, o monitoramento ambiental e o desenvolvimento de novos processos aparecem como possibilidades de inovação.
Mas o pesquisador reforça que modernizar não significa apenas automatizar. “O futuro da indústria salineira precisa ser mais eficiente e também mais sustentável. Precisamos produzir melhor, utilizar os recursos de forma mais inteligente, reduzir impactos e ampliar nossa capacidade de inovação.”
A concentração da produção brasileira de sal marinho no Rio Grande do Norte, na visão do pesquisador, coloca a região diante de uma oportunidade de protagonismo científico e tecnológico.
Para ele, universidades e instituições de pesquisa locais devem trabalhar em parceria com o setor para construir soluções adequadas às condições ambientais e produtivas do estado. O objetivo é fazer com que uma atividade secular possa continuar economicamente relevante sem renunciar à responsabilidade ambiental. “Esse conhecimento aplicado pode contribuir para que a indústria salineira continue sendo, por muitas décadas, uma das grandes forças econômicas e produtivas do Rio Grande do Norte”, pontua. (Todas as imagens foram enviadas pelo entrevistado e são de sua autoria)










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