A COP17 da Desertificação reúne representantes de governos, pesquisadores e organizações da sociedade civil em Ulaanbaatar, na Mongólia, para discutir o combate à degradação da terra, à desertificação e aos efeitos da seca. (Foto: COP17/UNCCD)

COP17 da Desertificação: INSA leva agenda do Semiárido brasileiro à conferência da ONU

Em entrevista exclusiva ao Portal Nossa Ciência, o diretor do INSA, Etham Barbosa, destaca debates sobre combate à desertificação, restauração da Caatinga, recaatingamento, justiça climática e energias renováveis na conferência realizada na Mongólia.

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A presença do Semiárido brasileiro nas discussões internacionais sobre desertificação ganhou espaço na 17ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), realizada em Ulaanbaatar, na Mongólia. Representado pelo Instituto Nacional do Semiárido (INSA), o Brasil leva ao encontro experiências, pesquisas e propostas relacionadas à recuperação de áreas degradadas, à convivência com a seca e à construção de estratégias de resiliência para os territórios.

Em entrevista exclusiva ao Nossa Ciência, o diretor do INSA, Etham Barbosa, avalia as repercussões da participação do instituto na conferência e destaca a importância de aproximar as discussões globais das especificidades do Semiárido brasileiro.

No Brasil, a discussão tem particular importância para o Nordeste e para o bioma Caatinga. Segundo a Agência Brasil, cerca de 18% do território nacional está sujeito à desertificação, afetando aproximadamente 39 milhões de pessoas.

Unidades de conservação no combate à desertificação

Entre as agendas acompanhadas pelo INSA na COP17 está a discussão sobre a integração das unidades de conservação às estratégias de combate à desertificação.

Etham Barbosa explica que essa articulação é necessária para que as políticas de conservação e recuperação ambiental sejam pensadas de maneira integrada nos territórios. Para o diretor, não basta tratar a desertificação apenas como um problema ambiental: é preciso considerar as diferentes dimensões que interferem na capacidade de recuperação e de adaptação das regiões afetadas.

Segundo ele, a participação do INSA nesse debate representa uma oportunidade para levar à conferência internacional questões diretamente relacionadas à realidade do Semiárido brasileiro.

“A discussão sobre a integração das unidades de conservação às estratégias de combate à desertificação reforça a necessidade de pensar soluções articuladas para os territórios”, afirma Barbosa.

A perspectiva está alinhada aos próprios objetivos da COP17. Na segunda semana da conferência, a programação inclui discussões sobre restauração de terras, resiliência à seca, pastagens, sistemas alimentares e saúde do solo. O dia 26 de agosto foi dedicado ao eixo Terra e Povo, com debates sobre a relação entre degradação, restauração e comunidades que vivem nos territórios.

Recaatingamento e justiça climática

Outra agenda destacada pelo diretor do INSA é o diálogo com o Consórcio Nordeste, por meio da Secretaria Executiva, sobre o programa Recaatingamento e Justiça Climática.

Para ele, a pauta possui relação direta com os desafios enfrentados pelo Semiárido e com as estratégias de restauração da Caatinga. O diretor ressalta que a discussão sobre justiça climática precisa considerar as características sociais, ambientais e econômicas dos territórios que convivem historicamente com a seca.

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“São duas pautas que interessam diretamente ao Semiárido e que também dialogam com questões estratégicas para o Brasil”, afirma, ao se referir às discussões sobre unidades de conservação e ao diálogo com o Consórcio Nordeste.

Na avaliação do diretor do INSA, a restauração da Caatinga e a justiça climática não podem ser dissociadas da discussão energética. Por isso, o Centro de Tecnologias em Energias Renováveis do Semiárido (CTERSA) deverá ter papel importante nas articulações junto ao Consórcio Nordeste.

Barbosa chama atenção para a necessidade de considerar as energias renováveis como parte de uma estratégia mais ampla de desenvolvimento sustentável para o Semiárido.

“Não é possível tratar de restauração da Caatinga e de justiça climática sem considerar também a pauta das energias renováveis”, destaca.

A abordagem reforça a necessidade de pensar políticas públicas de forma integrada, especialmente em uma região onde convivem desafios relacionados à degradação ambiental, segurança hídrica, produção de alimentos, geração de renda e acesso à energia.

Meta brasileira de Neutralidade da Degradação da Terra

As discussões do INSA na COP17 também ocorrem em paralelo a um anúncio considerado estratégico para a política ambiental brasileira. Na terça-feira (25), o Brasil apresentou suas primeiras metas de Neutralidade da Degradação da Terra (LDN) para 2030.

A meta prevê recuperar e restaurar mais de 163 mil km² de áreas degradadas até o fim da década. O plano inclui recuperação da vegetação nativa, sistemas agroflorestais e ações em unidades de conservação, territórios indígenas, áreas de preservação permanente e bacias hidrográficas.

Para Etham Barbosa, a coincidência entre essa agenda nacional e os debates da COP17 amplia a importância da presença do INSA na conferência.

“São agendas que trazem repercussões importantes para o Semiárido brasileiro e para o País”, afirma o diretor.

A Agência Brasil destaca que o Brasil chega à COP17 com um levantamento que identificou cerca de 55 milhões de hectares de terras em processo de degradação em 2020, evidenciando a dimensão do desafio que o país precisa enfrentar.

O Semiárido brasileiro no debate internacional

A participação do INSA ocorre, portanto, em um momento em que o Semiárido está diretamente conectado a algumas das principais questões discutidas na COP17: degradação da terra, seca, restauração de ecossistemas, segurança hídrica, justiça climática e transição energética.

A atuação do instituto, segundo o diretor, permite que conhecimentos produzidos a partir da realidade nordestina sejam incorporados ao debate internacional e, ao mesmo tempo, que novas experiências e estratégias discutidas globalmente possam dialogar com as necessidades brasileiras.

“A participação do INSA nessas discussões é uma oportunidade para fortalecer o diálogo sobre temas diretamente relacionados à realidade do Semiárido”, avalia.

Para o diretor, a participação na COP17 deve contribuir para a construção de caminhos capazes de enfrentar, de maneira articulada, os desafios da desertificação e da justiça climática.

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A conferência segue até amanhã (28), em Ulaanbaatar. Entre os temas que permanecem no centro das negociações estão financiamento, restauração de terras, resiliência à seca, participação social e fortalecimento das ações internacionais de combate à degradação.

Nesse cenário, a presença do INSA ajuda a colocar a experiência do Semiárido brasileiro em uma discussão que ultrapassa fronteiras: como restaurar terras degradadas, enfrentar a seca e construir territórios mais resilientes sem deixar de considerar as populações que vivem nesses espaços.