O Brasil inteiro entristeceu-se ao receber a notícia de que o potiguar Lito Sousa, amplamente conhecido por seu canal no YouTube Aviões e Músicas, foi recentemente diagnosticado com uma doença neurodegenerativa rara chamada Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ). A imensa comoção nacional que este caso tem gerado reflete não apenas a gravidade e raridade dessa patologia, mas, sobretudo, o carinho que o público nutre pela pessoa fantástica que o Lito é.
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Nascido em Natal (RN), em 25 de janeiro de 1967, Joselito Geraldo de Sousa construiu uma trajetória de excelência. Trabalhou como mecânico de aviação e atuou como supervisor de voos em grandes companhias, como VARIG, Transbrasil e United Airlines. Nos últimos anos, dedicou-se de corpo e alma à segurança aérea. Em 2022, lançou o aclamado curso online “Sem Medo de Voar”, voltado para pessoas que sofrem de aerofobia, ajudando milhares a superar seus medos.
Com sua simpatia, carisma e profundo conhecimento, Lito conquistou os brasileiros. Em seu canal, traduzia os complexos relatórios de acidentes aéreos de forma técnica, porém extremamente clara e acessível, além de promover grande interação com os espectadores em suas lives. Esse trabalho brilhante em prol da aviação lhe rendeu, em 2021, a homenagem “Destaque SIPAER”, concedida pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (CENIPA) àqueles que promovem a cultura aeronáutica e a segurança de voo.

A força dessa conexão com o público ficou evidente recentemente. No dia 26 de agosto de 2026, data em que o Palmeiras celebrou 112 anos de existência, um emocionante vídeo gravado por Lito no hospital, desejando parabéns ao seu clube do coração, foi exibido nos telões do estádio, emocionando a torcida.
O desafio da Doença de Creutzfeldt-Jacob (DCJ)
A DCJ impõe um desafio médico avassalador. Ela é o principal exemplo humano das chamadas encefalopatias espongiformes transmissíveis: doenças neurodegenerativas raras, de progressão devastadoramente rápida e, infelizmente, fatais.
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A origem dessa patologia está em um “defeito de fabricação” microscópico: uma proteína normal das nossas células (PrPC) sofre uma alteração em seu formato e se converte em uma versão doentia e anormal (PrPSc), conhecida como príon. Como em um efeito dominó, essa proteína alterada se liga às saudáveis e as corrompe, causando um acúmulo de toxinas no cérebro. Esse processo destrói as conexões entre os neurônios e causa a morte celular, deixando o cérebro repleto de pequenos buracos microscópicos, com um aspecto de esponja (daí o termo “espongiforme”).
A progressão da doença apresenta achados clássicos, tais como:
- Demência Rapidamente Progressiva: O sintoma central, caracterizado por uma deterioração cognitiva global que evolui de forma drástica em poucas semanas;
- Mioclonia: Movimentos espasmódicos e involuntários, frequentemente provocados por sustos visuais ou auditivos, presentes na maioria dos pacientes;
- Disfunções Motoras e Visuais: Dificuldade de locomoção, falta de coordenação, alucinações visuais, tremores, rigidez e até cegueira;
- Mutismo Acinético: Nos estágios terminais, a perda da capacidade de falar e de se mover voluntariamente.
A medicina, porém, nos ensina que cada paciente é único: no caso do Lito, os sinais se iniciaram pelas alterações motoras e de movimento, e não pela degradação cognitiva, como costuma ser mais comum.
A busca pelo diagnóstico e a luta por tratamento
O diagnóstico dessa condição exige tecnologia de ponta. A Ressonância Magnética (RM) do cérebro é essencial, mostrando padrões de inchaço celular que indicam o depósito da proteína. Exames do líquido cefalorraquidiano, como o RT-QuIC, conseguem detectar a presença da proteína anormal com altíssima precisão. Além disso, a avaliação da atividade elétrica cerebral através do Eletroencefalograma (EEG) revela padrões de ondas clássicos das fases avançadas.
Atualmente, não existe cura ou medicação que interrompa o avanço da DCJ; o manejo foca em garantir o suporte e o máximo conforto ao paciente, aliviando os espasmos e prevenindo infecções. Contudo, Lito e sua esposa têm se mobilizado de forma incansável e heroica em busca de tratamentos experimentais. No mundo todo, a ciência corre contra o tempo: há ensaios explorando vias para suprimir a produção da proteína destrutiva, como os testes da farmacêutica internacional com o medicamento ION717 e o programa PriSM, conduzido pela Universidade de Harvard.
A maior lição: a ciência é o nosso futuro
A comoção nacional gerada em torno de Lito — que chegou a envolver manifestações do próprio governo brasileiro — é um sinal animador. Mostra que a nossa sociedade reconhece, valoriza e abraça profundamente uma pessoa que dedicou a vida a defender e divulgar o conhecimento técnico e científico.
Para todos nós que torcemos ardentemente pela recuperação do Lito, fica uma certeza inquestionável: precisamos, mais do que nunca, investir em Ciência. E não apenas na ciência aplicada, mas fundamentalmente na ciência básica, aquela que constrói os alicerces do conhecimento sobre o corpo humano para que curas futuras sejam possíveis. Em um ano eleitoral, fica a reflexão urgente: precisamos eleger e apoiar representantes que defendam incondicionalmente a pesquisa, o desenvolvimento tecnológico e as universidades brasileiras. A lição é clara e definitiva: recursos destinados à Ciência nunca serão um gasto, mas sim o investimento mais valioso que podemos fazer pela vida e pelo futuro do nosso país.
John Fontenele Araujo é professor titular aposentado da UFRN e professor colaborador da UFDPar.










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