A bióloga Marleny Prada De La Cruz (detalhe) é primeira autora de estudo sobre o conhecimento e o uso de plantas alimentícias silvestres da Caatinga.

O uso das plantas resulta da interação entre biologia e cultura”, explica pesquisadora

O Portal Nossa Ciência conversou com a bióloga peruana de ascendência Quechua Marleny Prada De La Cruz, que desenvolve sua pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Biologia Vegetal da Universidade Federal de Pernambuco. Ela é uma das autoras de estudo em uma comunidade rural do Agreste de Pernambuco.

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A pesquisa revela que a conservação das plantas alimentícias silvestres da Caatinga não depende apenas da permanência dessas espécies no ambiente. De acordo com os resultados, fatores sociais e culturais também influenciam quais plantas continuam fazendo parte da alimentação e do conhecimento das comunidades.

Para chegar a esse resultado, os pesquisadores compararam dados coletados entre 2008 e 2010 com informações obtidas em 2024 e 2025. A análise permitiu identificar mudanças na relação dos moradores com essas plantas ao longo de mais de uma década, mostrando como transformações nos modos de vida podem alterar o consumo e o conhecimento sobre espécies que permanecem presentes no território.

De La Cruz é a primeira autora do artigo Repeated cross-sectional study of knowledge and use of wild food plants in the Caatinga of Northeastern Brazil, publicado na revista Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine, da Springer Nature.

Nossa Ciência: Por que escolher a Caatinga de Pernambuco como área de estudo e, especificamente, uma comunidade rural de Altinho? O que esse território permite compreender sobre as transformações pelas quais passa o bioma?

Marleny De La Cruz: A escolha do Carão está muito ligada à relação de longa duração que o nosso grupo de pesquisa, o Laboratório de Ecologia e Evolução de Sistemas Socioecológicos (LEA), mantém com essa comunidade. São cerca de 17 anos de pesquisas, com diferentes estudos, visitas, diálogo com os moradores e atividades de devolutiva. Essa continuidade é muito importante porque nos permite acompanhar o mesmo território em momentos diferentes e compreender melhor como as relações das pessoas com a biodiversidade vão se transformando ao longo do tempo.

Além disso, Carão possui uma relação histórica muito forte com as plantas alimentícias silvestres, especialmente em períodos de seca e escassez de alimentos, e já existiam dados coletados entre 2008 e 2010. Por isso, tivemos uma oportunidade rara de retornar à mesma comunidade mais de uma década depois e fazer uma comparação temporal.

A relação histórica com as plantas da Caatinga

Nossa Ciência: O que essa relação de longo prazo entre pesquisadores e comunidade permite compreender que talvez não fosse possível em um estudo pontual?

Marleny De La Cruz: E existe também uma dimensão importante nessa relação: as comunidades não devem ser vistas apenas como fontes de informação. Manter o vínculo ao longo do tempo permite construir confiança, dialogar sobre os resultados e estabelecer uma relação mais contínua entre universidade e comunidade.

Quanto ao que esse território nos permite compreender sobre a Caatinga, ele mostra que as transformações do bioma não são apenas ambientais. Mudanças na população, migração, formas de produção, acesso ao mercado e modos de vida também modificam a maneira como as pessoas interagem com as plantas e com o território. Assim, o Carão funciona como um caso muito interessante para observar conjuntamente transformações ecológicas e socioculturais.

Nossa Ciência: O que a pesquisa revela sobre a relação entre degradação ambiental e disponibilidade das plantas que historicamente fazem parte da alimentação das comunidades?

Marleny De La Cruz: Um ponto importante é que nossa pesquisa não mostrou uma relação direta entre degradação ambiental e desaparecimento dessas plantas. Inclusive, quando analisamos o uso e a cobertura do solo no entorno da comunidade, encontramos uma paisagem relativamente estável entre os dois períodos, com mudanças mais modestas.

Plantas seguem na Caatinga, mas podem desaparecer do cotidiano das comunidades

O que encontramos foi que a disponibilidade ambiental das plantas estava muito mais associada ao consumo no passado. Ou seja, muitas espécies eram consumidas porque estavam disponíveis no ambiente e faziam parte do contato cotidiano das pessoas com a Caatinga.

Nossa Ciência: O que mudou, então, na relação das pessoas com essas plantas ao longo desse período?

Marleny De La Cruz: Hoje, essa relação parece estar mudando. Com as transformações no modo de vida da comunidade, algumas pessoas podem ter menos contato diário com os ambientes onde essas plantas ocorrem. Nesse contexto, a simples disponibilidade da planta pode não ser suficiente para garantir que ela continue sendo consumida. As espécies que permanecem em uso aparecem relativamente mais associadas a fatores socioculturais, como tradição, preferência, memória e formas de preparo.

Quando a disponibilidade deixa de determinar o consumo

Nossa Ciência: Nesse cenário, preservar as plantas é suficiente para preservar também seu uso pelas comunidades?

Marleny De La Cruz: Então, um dos principais resultados do estudo é mostrar que conservar essas plantas não depende apenas de elas continuarem existindo na paisagem. Também é importante manter as relações e práticas culturais que conectam as pessoas a esses recursos.

Nossa Ciência: A perda de conhecimento sobre plantas alimentícias pode ser considerada também um indicador de mudanças ambientais e culturais na Caatinga? Como esse conhecimento poderia ser incorporado ao monitoramento da biodiversidade?

Marleny De La Cruz: Sim, mas eu consideraria esse conhecimento principalmente como um indicador biocultural complementar. Quando determinadas plantas deixam de ser lembradas, reconhecidas ou utilizadas, isso pode estar associado tanto a mudanças ambientais quanto a transformações sociais e culturais, como migração, mudanças nas atividades agrícolas, menor contato cotidiano com a Caatinga ou alterações na transmissão do conhecimento entre gerações.

Nossa Ciência: O estudo também mostrou que algumas espécies voltaram a ser reconhecidas quando foram apresentadas fotografias. O que esse resultado revela sobre a forma como esse conhecimento é preservado na memória das pessoas?

Marleny De La Cruz: No nosso estudo, por exemplo, quando comparamos os dois períodos utilizando apenas a lista livre, encontramos uma redução no conhecimento espontaneamente reportado. Porém, quando utilizamos fotografias como estímulo de memória, várias espécies voltaram a ser reconhecidas. Isso sugere que parte desse repertório ainda existe, mas pode estar menos presente ou menos acessível no cotidiano das pessoas.

Biologia e cultura influenciam o uso das plantas

Nossa Ciência: Como esse conhecimento poderia ser incorporado ao monitoramento da biodiversidade?

Marleny De La Cruz: Esse conhecimento poderia ser incorporado ao monitoramento da biodiversidade integrando as informações ecológicas com informações sobre o uso local das espécies. Um monitoramento baseado apenas na presença ou no número total de espécies pode mostrar, por exemplo, que a biodiversidade se mantém relativamente estável, mas isso não significa necessariamente que estejam sendo mantidas as espécies que são importantes para a alimentação e para outras práticas da comunidade.

Por isso, além de monitorar quais espécies existem no território, seria importante acompanhar também quais continuam sendo reconhecidas, coletadas, utilizadas e transmitidas entre gerações. Dessa forma, o monitoramento poderia avaliar não apenas a biodiversidade em termos ecológicos, mas também a biodiversidade que efetivamente faz parte da vida, da memória e da cultura das comunidades.

Nossa Ciência: O estudo encontrou apenas um sinal filogenético limitado na tendência de abandono do uso das plantas. Em termos mais simples, o que esse resultado significa e por que ele é importante para compreender a dinâmica da biodiversidade utilizada pelas comunidades?

Marleny De La Cruz: Em termos simples, esse resultado significa que o parentesco evolutivo entre as plantas exerce alguma influência sobre a continuidade ou o abandono do seu uso, mas essa influência é limitada.

Nossa Ciência: Na prática, o que pode fazer com que uma planta seja mais ou menos fácil de incorporar à alimentação?

Marleny De La Cruz: Espécies que são parentes próximas podem compartilhar características biológicas, como espinhos, sabores intensos, toxicidade ou necessidade de processamento antes do consumo. Essas características podem tornar determinadas plantas mais ou menos fáceis de incorporar à alimentação.

Nossa Ciência: Se o parentesco entre as espécies explica apenas parte desse processo, que outros fatores parecem ser decisivos para a permanência ou o abandono de uma planta na alimentação?

Marleny De La Cruz: Mas o nosso resultado mostra que a história evolutiva, sozinha, não explica o destino dessas espécies. Plantas aparentadas podem seguir trajetórias diferentes porque fatores culturais também têm um papel muito importante, como tradição, preferência, memória, formas de preparo e valor simbólico.

Isso é importante para compreender a biodiversidade utilizada pelas comunidades porque mostra que o uso das plantas não depende apenas de suas características biológicas. Ele resulta da interação entre biologia e cultura. Portanto, para entender por que algumas espécies continuam sendo utilizadas e outras são abandonadas, precisamos considerar ao mesmo tempo as características das plantas e a relação cultural que as comunidades constroem com elas.