Mosquito Maruim pousado sobre pele humana.
Mosquito-palha, flebotomíneo que atua como vetor da leishmaniose. A espécie Bichromomyia flaviscutellata é um dos principais vetores de Leishmania amazonensis no Brasil. (Foto: Agência Brasil)

Parasita da leishmaniose mostra alta tolerância a medicamento e pesquisadores investigam causas da resistência

Uma pesquisa realizada por cientistas brasileiros ampliou as evidências sobre a resistência de Leishmania amazonensis aos medicamentos utilizados no tratamento da leishmaniose. O trabalho mais recente, publicado em fevereiro de 2026 na revista Pathogens, analisou diferentes cepas e isolados clínicos do parasita e identificou uma elevada tolerância do isolado AAB aos antimoniais em testes de laboratório.

O isolado AAB não é novo para os pesquisadores. Ele foi obtido de um paciente com leishmaniose cutânea difusa no Maranhão e chamou a atenção da equipe depois que o paciente apresentou falha terapêutica após diferentes tratamentos.

A história ganhou um novo capítulo com o estudo publicado em 2026. Nos experimentos realizados em laboratório, o AAB apresentou uma das maiores diferenças de suscetibilidade aos antimoniais entre os parasitas analisados. No estágio de amastigota — a forma do parasita encontrada dentro das células do hospedeiro — a concentração necessária para inibir 50% dos parasitas foi aproximadamente 28 vezes maior do que a observada para o isolado mais suscetível estudado.

O resultado indica uma elevada tolerância do isolado ao antimonial pentavalente, medicamento utilizado há décadas no tratamento da leishmaniose.

Mesmo parasita apresenta diferentes respostas aos medicamentos

Além de apresentar baixa suscetibilidade aos antimoniais nos testes in vitro, o AAB mostrou comportamento semelhante ao de linhagens de L. amazonensis que os pesquisadores haviam selecionado experimentalmente para apresentar resistência a esses medicamentos.

A comparação é importante porque permite investigar se os mecanismos envolvidos na menor resposta aos fármacos podem ter características semelhantes entre parasitas obtidos diretamente de pacientes e aqueles cuja resistência foi desenvolvida experimentalmente em laboratório.

Os pesquisadores, porém, fazem uma ressalva: os resultados observados nos testes de laboratório não podem ser automaticamente interpretados como resistência ao tratamento em seres humanos.

Essa diferença ficou evidente nos experimentos realizados em camundongos. Neles, não foi possível estabelecer uma relação direta entre a menor suscetibilidade observada in vitro e a resposta ao antimonial. Os animais não apresentaram resposta adequada ao medicamento mesmo quando infectados por parasitas considerados suscetíveis nos testes laboratoriais.

Para os autores, o resultado também aponta limitações do modelo animal utilizado para estudar a ação dos antimoniais contra a leishmaniose cutânea.

O próximo passo é descobrir o que torna o parasita resistente

Enquanto os pesquisadores investigam a resposta do AAB aos medicamentos, outra frente de pesquisa busca compreender por que esse parasita apresenta menor suscetibilidade à anfotericina B.

Um projeto apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), iniciado em dezembro de 2025, está investigando genes potencialmente associados à resistência à anfotericina B no isolado clínico de L. amazonensis.

Tubo de ensaio em laboratório com pipeta sobre líquido amarelo.
Estudo mais recente encontrou alta tolerância a antimoniais em isolado de Leishmania amazonensis; pesquisadores também investigam alterações genéticas relacionadas à resistência à anfotericina B. (Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil)

A pesquisa parte de análises do genoma do AAB, que já identificaram diferenças em relação a uma cepa suscetível ao medicamento. Entre as alterações encontradas estão polimorfismos de nucleotídeo único, inserções e deleções e variações no número de cópias de cromossomos.

Os pesquisadores pretendem agora validar algumas dessas alterações e investigar experimentalmente pelo menos um dos genes candidatos. A intenção é verificar se determinadas mudanças genéticas estão relacionadas ao comportamento resistente observado no isolado.

Compreender esses mecanismos é importante porque a resistência não depende necessariamente de uma única alteração no parasita. Diferentes mecanismos celulares e genéticos podem contribuir para que um medicamento deixe de apresentar a mesma eficácia.

A descoberta que deu origem à nova investigação

A investigação atual teve origem em uma descoberta publicada em 2024 na revista PLOS Neglected Tropical Diseases. Naquele estudo, pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em colaboração com cientistas da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), identificaram e caracterizaram o isolado AAB.

O material havia sido obtido de um paciente de 46 anos, residente no Maranhão, diagnosticado com leishmaniose cutânea difusa e coinfecção pelo HIV.

O paciente havia sido submetido a diferentes tratamentos, entre eles antimoniato de meglumina, anfotericina B lipossomal e pentamidina, sem resposta satisfatória.

A equipe decidiu então investigar se o parasita poderia apresentar alguma característica que explicasse a falha terapêutica.

Resistência à anfotericina B foi confirmada em laboratório e em animais

Os primeiros experimentos mostraram que o isolado AAB apresentava baixa suscetibilidade à anfotericina B quando comparado a uma cepa de referência considerada suscetível.

Os pesquisadores também produziram em laboratório uma população resistente ao medicamento a partir de uma cepa originalmente suscetível. Para isso, aumentaram gradualmente a exposição do parasita à anfotericina B durante aproximadamente 90 dias.

A comparação entre os materiais permitiu caracterizar melhor o comportamento do isolado obtido do paciente.

A equipe foi além dos testes in vitro e avaliou a resposta ao medicamento em camundongos infectados. O resultado reforçou a evidência de resistência: enquanto os animais infectados com a cepa suscetível apresentaram redução das lesões e da carga parasitária após o tratamento, aqueles infectados com o isolado AAB não responderam à anfotericina B.

Mesmo com diferentes doses do medicamento, não houve redução significativa das lesões nem da quantidade de parasitas nos animais infectados pelo isolado resistente.

Foi a partir desses resultados que os pesquisadores passaram a buscar alternativas terapêuticas e a investigar os mecanismos que poderiam estar por trás da resistência.

Outros medicamentos apresentaram resultados promissores

No estudo de 2024, os pesquisadores também avaliaram dois medicamentos aos quais o paciente não havia sido previamente exposto: miltefosina e paromomicina.

Nos experimentos realizados em camundongos infectados com o isolado AAB, os dois medicamentos foram capazes de reduzir as lesões e a quantidade de parasitas. A combinação dos fármacos também apresentou efeito.

Os resultados indicaram, portanto, que a resistência observada não significava ausência de resposta a todos os medicamentos avaliados.

Ao mesmo tempo, os experimentos mostraram diferenças na suscetibilidade do AAB à miltefosina e à paromomicina em comparação com a cepa de referência, reforçando a necessidade de estudar individualmente a resposta do parasita a diferentes fármacos.

“Precisamos buscar fármacos alternativos”

Na época da publicação do estudo de 2024, Adriano Cappellazzo Coelho, professor do Instituto de Biologia da Unicamp e coordenador da pesquisa, destacou a importância da descoberta para o monitoramento da resistência.

“Dessa forma, nosso trabalho demonstrou pela primeira vez a presença de uma cepa circulante no país que é resistente à anfotericina B”, afirmou o pesquisador em entrevista ao Portal Nossa Ciência.

A descoberta é especialmente relevante porque a leishmaniose cutânea difusa é uma manifestação rara e de difícil tratamento. A doença pode provocar numerosas lesões na pele e está associada à presença de grande quantidade de parasitas no organismo.

A identificação de um isolado resistente à anfotericina B levantou, portanto, uma questão que permanece em investigação: quais mecanismos permitem que determinados parasitas sobrevivam à ação dos medicamentos?

De um caso clínico a uma investigação mais ampla

A trajetória do isolado AAB mostra como uma observação clínica pode desencadear uma sequência de estudos sobre resistência a medicamentos.

Em 2024, a pesquisa demonstrou a resistência à anfotericina B em laboratório e em modelo animal. Em 2026, os cientistas voltaram a analisar o mesmo isolado e encontraram elevada tolerância aos antimoniais em experimentos in vitro. Paralelamente, uma nova investigação busca identificar alterações genéticas relacionadas à resistência à anfotericina B.

Os resultados, entretanto, não significam que o isolado seja simplesmente “resistente a todos os medicamentos”. As respostas variam de acordo com o fármaco, a forma do parasita e o modelo experimental utilizado.

Essa distinção é fundamental para a pesquisa sobre resistência. Um resultado observado em laboratório precisa ser investigado em diferentes modelos antes que suas implicações para o tratamento de pacientes possam ser estabelecidas.

Para os pesquisadores, acompanhar a suscetibilidade dos parasitas e compreender os mecanismos envolvidos na resistência é essencial diante das opções terapêuticas ainda limitadas para a leishmaniose.

A investigação do AAB continua, agora com uma pergunta ainda mais específica: o que acontece dentro do parasita para que ele consiga sobreviver à ação de determinados medicamentos? A resposta pode contribuir para identificar novos alvos terapêuticos e ajudar no desenvolvimento de estratégias para enfrentar casos de falha no tratamento da leishmaniose.