Para o autor do livro Brasil no Espelho, a pesquisa pode servir como ponto de encontro, e não apenas como instrumento de disputa.

Além da polarização política: como pensa o brasileiro

O Brasil que aparece nas redes sociais e no debate político nem sempre é o mesmo país encontrado nas pesquisas de opinião. Essa distância foi uma das inquietações que levaram o cientista político e pesquisador Felipe Nunes a desenvolver o trabalho que resultou no livro Brasil no Espelho.

Em entrevista exclusiva ao Portal Nossa Ciência, Nunes explica que a publicação nasceu de anos de pesquisa sobre opinião pública e da necessidade de compreender melhor o que pensa a população brasileira. Para ele, o país costuma ser analisado a partir das vozes mais barulhentas, enquanto a maioria dos brasileiros apresenta posições mais complexas e, muitas vezes, contraditórias.

“O objetivo não é dizer como o brasileiro deveria pensar, mas revelar como ele efetivamente pensa”, afirma.

A pesquisa que deu origem ao livro foi desenvolvida em parceria com a TV Globo, que, segundo Nunes, já possui uma tradição de realização de pesquisas. O trabalho integrou uma das pesquisas do setor de Sintonia com a Sociedade da empresa.

A proposta de Brasil no Espelho é justamente apresentar esse “Brasil real” a partir de evidências. Em vez de interpretar a sociedade apenas pelas disputas políticas ou pelas manifestações mais visíveis nas redes sociais, o estudo procura identificar comportamentos, valores, opiniões e contradições presentes na população.

“Muitas vezes discutimos o país a partir das vozes mais barulhentas, quando a maioria da população pensa de forma muito mais complexa e, frequentemente, contraditória”, observa.

Um país menos dividido do que parece

Depois da pesquisa, uma das principais mudanças no olhar de Felipe Nunes sobre o Brasil foi perceber que a divisão da sociedade não ocorre da mesma maneira em todos os assuntos. “O principal aprendizado foi perceber que o Brasil é muito menos dividido do que imaginamos em alguns temas e muito mais dividido em outros”, diz.

Para o pesquisador, a polarização política é importante para compreender o momento brasileiro, mas não consegue explicar sozinha a maneira como a população pensa e se posiciona diante dos diferentes temas.

Um dos aspectos destacados por Nunes é a capacidade do brasileiro de conviver com posições que, à primeira vista, podem parecer contraditórias. Uma mesma pessoa pode defender valores tradicionais nos costumes e, ao mesmo tempo, apoiar mudanças sociais. Também pode defender um Estado forte em determinadas áreas e defender mais liberdade em outras.

Se conseguirmos compreender melhor quem somos, teremos melhores condições de formular políticas públicas, comunicar ideias e fortalecer o diálogo entre grupos que hoje muitas vezes deixam de se ouvir. (Felipe Nunes)

Para ele, essas posições não devem ser tratadas necessariamente como incoerências. “Essas aparentes contradições não são incoerências; elas refletem a experiência concreta das pessoas”, explica.

Essa constatação reforçou no pesquisador a necessidade de ouvir mais a sociedade antes de formular interpretações sobre ela. “Hoje tenho ainda mais convicção de que precisamos ouvir mais e presumir menos sobre o que pensa a sociedade brasileira”, afirma.

A distância entre elites e população

Entre os resultados que mais surpreenderam Felipe Nunes está a distância encontrada entre a percepção das elites e aquilo que aparece na opinião da população em diferentes temas. A pesquisa também revelou outro aspecto considerado marcante pelo pesquisador: o baixo nível de confiança interpessoal existente no país.

Segundo Nunes, a maioria dos brasileiros considera necessário ter muito cuidado ao lidar com outras pessoas. Para ele, essa característica ajuda a compreender dificuldades que aparecem tanto nas relações cotidianas quanto na cooperação entre indivíduos e no funcionamento das instituições.

Outro ponto que chamou sua atenção foi justamente a combinação entre valores conservadores na esfera dos costumes e posições mais pragmáticas quando o assunto envolve economia, trabalho e políticas públicas.

O resultado reforça a ideia central apresentada no livro: não é possível compreender o Brasil apenas a partir de classificações rígidas ou da divisão entre campos políticos.

A polarização não explica tudo

A polarização política ocupa espaço importante na sociedade brasileira, mas, segundo Nunes, ela não deve ser confundida com um retrato completo do país. Para o pesquisador, a polarização está relacionada a uma disputa intensa de identidades políticas. Nesse ambiente, o adversário político pode deixar de ser apenas alguém que pensa diferente e passar a ser visto como um adversário moral. “Isso dificulta o diálogo e aumenta a intolerância”, afirma.

Felipe Nunes: Há mais consenso na sociedade do que sugere o debate político cotidiano.

Ao mesmo tempo, a pesquisa identificou um espaço significativo de convergência entre os brasileiros. Segurança, educação, emprego e melhoria da qualidade de vida aparecem como temas capazes de aproximar pessoas que podem estar distantes politicamente. “Há mais consenso na sociedade do que sugere o debate político cotidiano”, destaca.

É nesse ponto que o pesquisador identifica uma das contribuições do livro. Ao apresentar os resultados da pesquisa, Brasil no Espelho procura deslocar o olhar das disputas mais visíveis para aquilo que existe por trás delas: uma população com demandas, valores e expectativas diversas.

Menos estereótipos, mais evidências

Para Felipe Nunes, uma das contribuições que o livro pode oferecer ao país é ajudar a reduzir os estereótipos utilizados para explicar a sociedade brasileira. O Brasil, segundo ele, costuma ser apresentado por meio de simplificações como direita contra esquerda, ricos contra pobres ou litoral contra interior. A pesquisa mostra, porém, uma realidade mais complexa. “A realidade é muito mais rica do que isso”, afirma.

Nesse sentido, o livro busca oferecer um retrato baseado em evidências, e não apenas em impressões. A intenção é que esse conhecimento possa ser útil não apenas para pesquisadores, mas também para gestores públicos, jornalistas, empresas e para a própria sociedade.

“Se conseguirmos compreender melhor quem somos, teremos melhores condições de formular políticas públicas, comunicar ideias e fortalecer o diálogo entre grupos que hoje muitas vezes deixam de se ouvir”, avalia.

A recepção da obra, segundo Nunes, tem sido positiva e alcançado públicos diferentes. Pesquisadores, estudantes, jornalistas, gestores públicos, empresários e leitores interessados em compreender melhor o Brasil estão entre os que demonstraram interesse pela publicação.  O pesquisador destaca, especialmente, o fato de pessoas com visões políticas distintas encontrarem no livro elementos para reflexão. “Isso mostra que a pesquisa pode servir como ponto de encontro, e não apenas como instrumento de disputa”, afirma.

Um país mais pragmático

Quando olha para o futuro político do Brasil, Felipe Nunes identifica uma sociedade cada vez mais interessada e atenta à política, mas também mais preocupada com resultados concretos. “Os brasileiros estão cada vez mais pragmáticos”, afirma.

A identidade política, segundo ele, continua tendo importância, mas cresce a cobrança por resultados em áreas diretamente relacionadas à vida cotidiana, como economia, segurança, saúde e educação.

A política brasileira, na avaliação do pesquisador, continuará competitiva. A polarização deve permanecer relevante, mas precisará dialogar com as demandas concretas da população.

A leitura apresentada em Brasil no Espelho aponta, portanto, para um eleitor que não pode ser compreendido apenas por sua identificação partidária ou ideológica. As necessidades do cotidiano também pesam na formação de suas opiniões e expectativas.

Desigualdade vai além da renda

A desigualdade brasileira também aparece na entrevista como um dos grandes desafios do país. Para Nunes, reduzir a distância entre ricos e pobres exige uma combinação de crescimento econômico e ampliação das oportunidades.

Não há, segundo ele, uma solução isolada. Educação de qualidade, aumento da produtividade, melhoria do ambiente para geração de empregos, redução das desigualdades de acesso e fortalecimento de políticas públicas voltadas à mobilidade social fazem parte desse processo.

O problema, entretanto, não se resume à renda. “A desigualdade brasileira não é apenas de renda; ela também envolve oportunidades muito diferentes ao longo da vida”, explica.

A questão das oportunidades ajuda a compreender por que a desigualdade permanece como um desafio estrutural. Pessoas que nascem em condições diferentes podem encontrar trajetórias muito distintas no acesso à educação, ao trabalho e a outros serviços e possibilidades ao longo da vida.

Educação é projeto nacional

Na educação, Felipe Nunes reconhece avanços importantes. O Brasil ampliou significativamente o acesso à escola nas últimas décadas. O desafio atual, porém, não está apenas em garantir que crianças e jovens estejam matriculados. “Hoje, o grande desafio deixou de ser apenas colocar crianças e jovens na escola; é garantir aprendizagem de qualidade”, afirma.

As diferenças entre regiões, entre escolas públicas e privadas e entre grupos sociais ainda representam obstáculos. Ao mesmo tempo, o avanço tecnológico cria novas exigências para a formação dos estudantes.

Para Nunes, a educação tem papel central no enfrentamento das desigualdades e na construção do desenvolvimento brasileiro. “A educação continua sendo o investimento de maior retorno para reduzir desigualdades, aumentar a produtividade e fortalecer a democracia”, destaca.

Por isso, considera que a área deve ser tratada para além dos ciclos de governo. “É uma agenda que ultrapassa governos e deveria ser tratada como um projeto nacional”, defende.

Um país de potencialidades e desafios

Felipe Nunes evita reduzir o Brasil ao rótulo de país desenvolvido ou subdesenvolvido. Para ele, mais importante do que a classificação é compreender os desafios que ainda precisam ser enfrentados.

O país possui uma economia diversificada, instituições relativamente consolidadas e capacidade científica importante. Ao mesmo tempo, convive com problemas estruturais, entre eles baixa produtividade, desigualdade, educação insuficiente, violência e infraestrutura desigual. “O Brasil é um país de enormes potencialidades, mas ainda convive com desafios estruturais típicos de economias em desenvolvimento”, afirma.

A questão central, portanto, está na capacidade de transformar as potencialidades existentes em oportunidades distribuídas para toda a população. É justamente nesse retrato complexo que se encontra a proposta de Brasil no Espelho. O livro não procura apresentar uma definição única sobre o brasileiro, mas mostrar, por meio da pesquisa, como diferentes valores, expectativas e percepções convivem na sociedade.

Ao final, a principal provocação deixada pelo trabalho de Felipe Nunes é também uma mudança de perspectiva: para compreender o Brasil, talvez seja necessário ouvir mais a população e falar menos por ela.

Sobre Felipe Nunes

Felipe Nunes é Ph.D. em Ciência Política e mestre em Estatística pela Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA). É professor da Escola de Economia da FGV-SP e sócio-fundador da Quaest, onde coordenou centenas de pesquisas eleitorais e estudos de mercado sobre reputação, consumo e comportamento.

Especialista em monitoramento de redes sociais, é inventor e proprietário da patente do Índice de Popularidade Digital (IPD), utilizado por grandes empresas brasileiras para acompanhar continuamente imagem e reputação digital.

Nunes é autor dos livros Biografia do Abismo e Brasil no Espelho e atua como consultor de governos, bancos e empresas de mídia e varejo. Recentemente, entrou na lista dos 100 consultores políticos mais influentes do mundo da Washington COMPOL Magazine. (As fotos foram enviadas pelo entrevistado).