A relação romantizada de paternidade e maternidade acadêmicos e de uma “descendência científica” apenas mascara uma relação profissional longa e cheia de marcas entre orientador e orientando. Para um aluno que segue com o mesmo orientador da graduação ao doutorado, esta é uma relação que pode beirar 10 anos, o que é bem mais tempo que alguns casamentos. É evidente que neste tempo há momentos de alegrias e também de frustrações.

E como falamos de figuras paternas e maternas, nada mais apropriado que lançar uma analogia com o complexo de Édipo. Ora, dirão os colegas das humanas… Isso vale para os primeiros cinco anos de vida. Só peço uma licença poética para seguir com o raciocínio…. Estamos tratando de momentos diferentes, é óbvio. No entanto, a figura materna que convence o bebê de que o mundo gira em torno dele ganha uma versão adulta nas redes sociais, com as postagens de uma realidade de ficção com sorrisos, festas e vitórias.
Eis que surge uma nova desfusão com a figura da nova mãe (as redes sociais) com o contraponto de um novo pai que destrói ainda mais o narcisismo remanescente da infância jogando o orientando no mundo real da ciência, que é construído sobre a pedra da frustração. Além de afirmar que o mundo não gira em torno do orientando é função desta figura paterna mostrar que ele mesmo não sabe onde podem chegar. Eis o momento em que a admiração dá vez à decepção e só a maturidade para fazer entender que experiência é sinal de maior tempo na estrada da vida.
Você culpa seus pais por tudo,
isso é absurdo
são crianças como você
o que você vai ser
quando você crescer?
(Pais e filhos – Legião Urbana)
A figura dos cientistas em seus momentos de brilho extremo não deveria se superpor aos momentos de solidão, medo e dúvida que permeou todas as suas carreiras. A foto que captura a capa do artigo na rede social não conta quantas vezes o trabalho foi rejeitado, revisado, reescrito… E antes disso, quantas medidas foram feitas, refeitas, descartadas, repetidas… E essa função paterna de mostrar que fazer ciência também dói cabe mais uma vez ao orientador.
Ele sofre quando o artigo é rejeitado, passa noites em claro escrevendo projetos para terem mérito e não serem contemplados com recursos… Ele recebe a culpa de seus alunos quando estes atrasam suas próprias defesas… Mesmo assim, continuam a orientar e formar pessoas. A divulgação científica precisa mostrar as flores mas também as dores do processo, até como uma forma de valorizar as marcas deixadas pelos espinhos que estão na caminhada.
Nestes dias, um orientando me perguntou o que eu ganhava por orientar mais pessoas na pós-graduação. Ele sabe que financeiramente nada. E eu não soube dizer o porquê. Talvez fazer ciência seja um vírus que se instala e nos torna seus escravos. A sede humana por querer saber mais segue em frente, com ou sem reconhecimento.
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Helinando Oliveira é físico, professor titular da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) e atualmente é vice presidente da Academia Pernambucana de Ciência











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