Imagens da tela do celular: a mesma parede com reflexos de sombras que Platão usou para construir o Mito da Caverna.

Inteligência artificial e inteligência humana: banco de dados e criação

O grande conflito de nossa geração não deve ser com a inteligência artificial; afinal, não há como comparar as capacidades criativas do ser humano e da máquina. O que se deve atentar é na atrofia que surge na prática da criação humana que se apoia na IA para produzir conteúdo.

Ouvindo uma entrevista de rádio, estarrecido, percebi o comentário de um professor de português, que afirmava ser importante atentar à linguagem ao dar o prompt de comando à IA, pois, ao não sabermos exatamente o que pedimos, não teríamos condições de avaliar a resposta que seria gerada.

Ora, vivemos em uma sobrecarga de conteúdo tão imensa que ler uma notícia já se limita à manchete, com seus poucos caracteres… O que dizer sobre ler um livro, já que é mais fácil pedir à IA que resuma a obra em um podcast de 2 minutos e meio. Este podcast certamente será ouvido em velocidade de 1,5x na esteira da academia… E isso é reflexo de uma sociedade adoecida que vive bombardeada por overdoses de conteúdo de uma bolha social que a faz curtir e consumir.

Trabalhar para consumir e viver para curtir coisas e imagens da tela do celular…Ou seja, a mesma parede com reflexos de sombras que Platão usou para construir o Mito da Caverna. Se nunca virmos o mundo como ele é para além do que as redes sociais permitem, teremos a mesma liberdade que outrora foi dada às pessoas presas no casulo de Matrix.

E este é só o começo: com menos leitura e interpretação, mais analfabetismo funcional, com a concepção de consumidores seguidores que veneram poucos manipuladores que ditam tendências e estabelecem rumos.

Para a ciência, algo não menos assustador: se toda a humanidade se extinguisse hoje, nenhum novo conhecimento seria gerado a partir de então, no máximo, combinado, reordenado, reciclado. É fundamental a inteligência humana no ato de criar e nisso, este ritmo louco de vida não ajuda em nada.

Para sair da neura das redes, é preciso estabelecer tempos de pausa e limites ao bombardeio de mensagens. Os finais de semana são de descanso, e o aparelho celular pode ficar longe dos nossos olhos por grande parte do dia. Menos luz de telas, mais papel, mais caneta, mais silêncio. Vale lembrar da criação que surgiu a partir do isolamento de Isaac Newton. A inteligência artificial pode ser eficiente em espremer GB de conteúdo, já a nossa inteligência é deveras complexa. Para criar (e só ela faz isso) é preciso paz. Sejamos mais criativos e menos consumidores.

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Helinando Oliveira é físico, professor titular da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) e atualmente é vice presidente da Academia Pernambucana de Ciência