À pergunta “Um engenheiro eletricista precisa saber soldar fios?”, a resposta é: por que não?

Transformando ideias em produtos

As ciências exatas ainda são pouco acessíveis a grande parte do público estudantil devido ao seu alto nível de abstração. Trazer conceitos do cálculo diferencial e integral à nossa rotina, por exemplo, é algo complexo que, por vezes, nem é explorado, o que torna aquela pergunta insistente e chata, cada vez mais usada: onde eu usarei isso na vida real?

Se a engenharia ganha conotação cada vez mais conceitual e menos prática, um grande espaço passa a se abrir entre o mundo real e o da sala de aula. Um engenheiro eletricista precisa saber soldar fios? Um lado dirá que não, pois essa seria a função do técnico. O outro lado, no qual estou incluído, dirá: “E por que não?

Quanto mais sólida for a formação teórica de um engenheiro, melhor. Porém, precisamos dizer que, sozinha, ela não é suficiente. Quanto maior for também a formação experimental, maior é a capacidade de transformar ideias em produtos.

Programar um microcontrolador ou montar um pequeno circuito eletrônico é algo que por vezes mais assusta um estudante de engenharia do que a um adolescente. Dentro da disciplinaridade em que é doutrinado, o graduando é preparado para conquistar blocos disciplinares e zerar o total de créditos. Ele sabe preparar apresentações, defender TCC, preparar listas, fazer provas…

E quando chega a hora de engenheirar mesmo, que é a transposição por exemplo da mecânica dos fluidos ao ato de consertar uma tubulação… Falta vivência com o mundo real.

Essa experiência está lá fora mesmo. Não tem rótulo algum, é apenas um problema real. Nós da universidade que adoramos dar nomes a disciplinas chamamos de projeto de extensão. Eles estão também na iniciação científica e tecnológica, ou seja, bem longe do quadro e pincel.

E essa dependência com a matriz curricular é tão nociva que entorpece, acomoda… Para alguns alunos deveriam existir as disciplinas “Apertando Parafusos I e II”, ou mesmo, “Consertando chuveiros III”. Ora, com a internet e boa vontade se conquista o mundo. E ainda mais importante, a matriz curricular (ou grade para os mais antigos) é engessada, atrasada e incompleta. E por isso mesmo, não garante um profissional completo e atual.

Teoria e prática

É preciso mais, em particular ao se tratar de cursos tecnológicos, bem mais que entender a teoria, concatenar com a prática, estar antenado com as novas tecnologias e tendências. Fazer eletrônica há 30 anos era completamente diferente do que é fazer hoje. Desde aquela época até então, em comum, seguimos como uma nação consumidora de tecnologias alheias e fornecedora de matéria prima fundamental para a produção dos chips.

Quando essa tendência mudará? Este é um problema complexo que depende de vontade política, investimento em ciência e a ruptura agressiva da matriz curricular rígida de nossos cursos de engenharia que ainda formam engenheiros que resolvem problemas da década de 1970 em pleno 2026. É preciso dinamizar o ensino da engenharia, colocando luz nos problemas reais e substituindo provas por projetos necessários para o nosso povo.

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Helinando Oliveira é físico, professor titular da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) e atualmente é vice presidente da Academia Pernambucana de Ciência