Uma substância encontrada no óleo retirado da castanha de caju pode se tornar uma conveniente alternativa para a fabricação de materiais utilizados na Odontologia, como resinas, adesivos e dessensibilizantes dentinários. Além de proporcionar maior eficácia e durabilidade aos tratamentos, ela pode substituir derivados do bisfenol A (BPA), compostos ainda amplamente utilizados na fabricação desses materiais e que despertam preocupação por seus potenciais efeitos tóxicos.

A inovação surgiu após pesquisadores da Universidade Federal do Ceará identificarem que um composto denominado cardanol possui propriedades que o fazem funcionar como reagente ideal para a produção de materiais odontológicos. O cardanol é a substância preponderante do LCC técnico, nome pelo qual é chamado o líquido extraído da casca da castanha de caju após ser submetido a altas temperaturas na indústria.
Com isso, os cientistas desenvolveram uma nova rota tecnológica que permitiu transformar moléculas do líquido da casca da castanha de caju em compostos para aplicação odontológica, obtendo assim uma carta patente pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI).
Amplo espectro de possibilidades
“O que torna isso interessante do ponto de vista industrial é que não se trata de um produto único, mas de uma plataforma molecular adaptável”, explica o professor Diego Lomonaco, do Departamento de Química Orgânica e Inorgânica à Agência UFC. Ele, que é um dos responsáveis por esta tecnologia, destaca que a patente cobre um amplo espectro de possibilidades de produtos para o tratamento dentário.
Essa versatilidade se justifica porque o cardanol possui propriedades físico-químicas e estruturais que o tornam altamente adequado para a síntese dos chamados monômeros metacrílicos – moléculas pequenas que funcionam como “blocos de construção” de diversos plásticos, resinas e adesivos, insumos de intensa utilização na Odontologia.

Além de não causarem a pigmentação dos dentes, os materiais odontológicos desenvolvidos com cardanol trazem como principais vantagens a sua capacidade de melhorar a durabilidade e a eficácia dos tratamentos dentários.
Isso ocorre porque o cardanol possui uma ótima interação química com o colágeno, formando ligações cruzadas com suas fibras. O colágeno se localiza principalmente na dentina, a parte logo abaixo do esmalte, e é a proteína que atua como sustentação do dente – por isso a relevância dessas novas ligações para maior sustentabilidade dentária. Além desse papel na resistência do dente, o colágeno ajuda na adesão das restaurações, permitindo que a resina aplicada por dentistas sobre a dentina consiga ter aderência.
Outra vantagem dos monômeros derivados do cardanol é que eles também agem como inibidor das metaloproteinases de matriz, que são enzimas naturalmente presentes na dentina que degradam o colágeno ao longo do tempo e comprometem a adesão das restaurações.
O cardanol em compostos odontológicos apresenta ainda outra propriedade importante, que é a sua hidrofobicidade. Isso significa que ele é capaz de reduzir a absorção da água pelo tecido. A água enfraquece a rede de colágeno dos dentes e cria um ambiente propício para a ação de degradação das enzimas. O cardanol também restringe a absorção de água pelos adesivos e pelas resinas, aumentando, assim, a durabilidade dos procedimentos restauradores.
“Ao combinar a estabilização do colágeno, a inibição dessas enzimas e a maior resistência do material à degradação por água, essa tecnologia não apenas restaura a estrutura dental, mas contribui para preservar o tecido dentário e prolongar a vida útil das restaurações”, defende Lomonaco.
Ausência de toxicidade
O pesquisador aponta como uma das principais vantagens do uso do LCC em composições odontológicas o fato de ele substituir o uso do Bis-GMA, um derivado do bisfenol A e que é atualmente a molécula mais usada nesses materiais, por exibir, entre outras razões, excelentes propriedades mecânicas.
O bisfenol A, contudo, é uma molécula tóxica, que age como desregulador do sistema hormonal. Mesmo em baixas doses, ele aumenta o risco de câncer de mama, obesidade, diabetes, doença cardiovascular, desordens reprodutivas, neuroendócrinas, dentre outras doenças.
Após a realização de restaurações de resina composta, ocorre uma liberação dessa molécula na cavidade oral dos pacientes, mas esse tipo de exposição, informam os pesquisadores, começou a ser estudado apenas recentemente. O impacto potencial disso na saúde dos pacientes, portanto, permanece incerto.
“A utilização do cardanol presente no líquido da castanha de caju técnico em composições odontológicas elimina essa preocupação toxicológica real que existe com o Bis-GMA”, defende o professor. “O cardanol e seus derivados têm sido estudados em termos de biocompatibilidade há anos. A literatura registra ausência de toxicidade, citotoxicidade e mutagenicidade relevantes para o LCC técnico”, reforça.
Comercialização
Entretanto, Lomonaco pondera que a validação definitiva para uso clínico da inovação exigirá ensaios pré-clínicos e clínicos formais, que ainda deverão ser realizados. “Esse é o caminho natural de desenvolvimento do produto, para que a invenção saia do laboratório e chegue à clínica”, explica.
O professor adianta que a patente está em fase de prospecção para transferência de tecnologia e licenciamento, e há interesse em desenvolver protótipos para testes pré-clínicos.
“O caminho mais direto é o licenciamento para empresas do setor odontológico com capacidade de desenvolvimento de produto e registro sanitário. O perfil da tecnologia é atrativo, temos matéria-prima brasileira, abundante, renovável, com narrativa de sustentabilidade e ausência de bisfenol A, dois apelos comerciais relevantes no mercado atual”, avalia. A questão da sustentabilidade se justifica pelo fato de o invento trazer uma nova aplicação para o LCC, que é um resíduo industrial hoje amplamente descartado.
Os pesquisadores também estão buscando, por meio de instrumentos de fomento à inovação, o apoio para a fase de escalonamento e validação clínica. “O potencial de mercado é expressivo, dado o tamanho da indústria odontológica global e a demanda crescente por materiais biocompatíveis e de origem renovável”.
A patente, que tem a UFC como titular, também traz como inventores os pesquisadores Rita de Cassia Sousa Pereira, Lucas Renan Rocha da Silva, Victor Pinheiro Feitosa e Selma Elaine Mazzetto, Victor Feitosa (atualmente na Universidade de Iowa-EUA) e a professora Madiana Magalhães (Faculdade Paulo Picanço). (Agência UFC – Fotos Ribamar Neto)
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