A Amazônia é um dos ecossistemas mais importantes do planeta e que sua conservação exige a colaboração entre diferentes instituições e áreas do conhecimento. (Foto: Mônica Costa / Nossa Ciência)

Terras Indígenas preservam a floresta, mas sofrem pressão crescente em seu entorno, aponta estudo

O avanço do desmatamento e de outras pressões ambientais no entorno das Terras Indígenas da Amazônia pode comprometer a conservação desses territórios, mesmo quando seu interior permanece preservado. A constatação é de um estudo que analisou como diferentes ameaças ambientais se conectam e se reforçam mutuamente, ampliando os riscos para os ecossistemas amazônicos e evidenciando a importância de políticas públicas voltadas à proteção das áreas vizinhas às Terras Indígenas.

Entre os principais resultados, os pesquisadores observaram que a Terra Indígena Vale do Javari mantém elevados níveis de conservação em seu interior, enquanto o desmatamento avança de forma acelerada no entorno. O contraste demonstra a importância desses territórios para a manutenção da floresta, mas também revela que sua proteção depende das condições ambientais além de seus limites.

Os resultados foram publicados na Nature Sustainability, revista científica internacional da área da sustentabilidade. O estudo reúne pesquisadores de instituições brasileiras e estrangeiras e conta com a participação dos professores Helber Gomes, do Instituto de Ciências Atmosféricas (Icat), e Jório Cabral, do Instituto de Geografia, Desenvolvimento e Meio Ambiente (IGDEMA), da Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

Intitulado Spiraling frontier threats in Indigenous Amazonia (Ameaças crescentes nas fronteiras da Amazônia indígena), o trabalho surgiu da necessidade de reunir evidências científicas capazes de subsidiar o debate sobre a criação de zonas de amortecimento no entorno das Terras Indígenas, estratégia considerada importante para reduzir os impactos das atividades humanas sobre essas áreas protegidas.

Ameaças interligadas

Um dos diferenciais da pesquisa foi analisar as pressões ambientais de forma integrada. Em vez de investigar cada ameaça isoladamente, os pesquisadores buscaram compreender como processos como o desmatamento, a expansão das fronteiras de ocupação e outras alterações ambientais interagem entre si, criando um efeito cumulativo que amplia a vulnerabilidade da floresta.

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Para isso, a equipe reuniu especialistas das áreas de ciências atmosféricas, geografia, ecologia, ciências florestais e monitoramento ambiental, além de pesquisadores com ampla experiência na região do Vale do Javari, uma das áreas de maior importância socioambiental da Amazônia.

A participação da equipe da UFAL concentrou-se na análise de processos ambientais por meio de dados de sensoriamento remoto e outras informações ambientais. O objetivo foi compreender como as mudanças na paisagem ao redor das Terras Indígenas podem afetar tanto a conservação desses territórios quanto o funcionamento dos ecossistemas amazônicos.

Subsídios para políticas públicas

Os resultados reforçam que a proteção das Terras Indígenas não depende apenas da preservação de seus limites territoriais. Segundo os pesquisadores, a conservação desses espaços está diretamente relacionada ao que acontece em seu entorno.

Nesse contexto, o estudo fornece evidências científicas que podem orientar políticas públicas voltadas à implementação de zonas de amortecimento, ao fortalecimento do monitoramento ambiental e à ampliação das ações de fiscalização para conter o avanço das pressões sobre a Amazônia.

Para os autores, a publicação na Nature Sustainability representa o reconhecimento da relevância científica do trabalho e da contribuição da Ufal para pesquisas que abordam desafios ambientais de interesse global. Eles destacam que a Amazônia é um dos ecossistemas mais importantes do planeta e que sua conservação exige a colaboração entre diferentes instituições e áreas do conhecimento. Também ressaltam que a participação em um periódico científico de alto impacto amplia as oportunidades de cooperação internacional, fortalece a formação de estudantes e favorece o desenvolvimento de novos projetos de pesquisa em parceria com instituições brasileiras e estrangeiras.

O acesso ao artigo Spiraling frontier threats in Indigenous Amazonia está disponível sob pagamento.

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