Rhipidomys_caracolensis (Foto: Natalia Boroni)

Novas espécies de mamíferos descobertas no Sul Global ficam majoritariamente em países ricos

Um estudo publicado na revista npj Biodiversity, da Nature, revela uma desigualdade na produção e no armazenamento do conhecimento sobre a biodiversidade mundial. Pesquisadores analisaram 1.116 espécies de mamíferos descritas entre 1990 e 2025 e constataram que 95% delas foram descobertas em países do Sul Global, enquanto 60% dos holótipos estão depositados em instituições estrangeiras, principalmente da Europa e da América do Norte. Holótipo é o espécime de referência que fica associado formalmente ao nome de uma espécie e é fundamental para futuras comparações e revisões taxonômicas.

“A existência de tantas espécies ainda sendo descobertas mostra que conhecemos apenas uma parte da biodiversidade do planeta e que há muito a ser documentado, especialmente em regiões tropicais. Nossa pesquisa procurou entender não apenas onde essas novas espécies foram encontradas, mas também onde foram depositados os espécimes usados para dar nome a elas”, afirma Mário Ribeiro de Moura, professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e primeiro autor do estudo, ao Portal Nossa Ciência.

O trabalho investigou como fatores geopolíticos, econômicos e científicos influenciam o destino dos espécimes utilizados na descrição de novas espécies. A pesquisa aponta que a concentração de coleções científicas em países ricos reproduz desigualdades históricas e afeta a capacidade dos países megadiversos de estudar a própria fauna.

Ciência de paraquedas

Os dados mostram que a capacidade local faz diferença. A probabilidade de um país manter os holótipos de suas próprias espécies aumenta com a disponibilidade de mão de obra especializada, a existência de instituições científicas e a adoção de legislação ambiental mais rigorosa. Os autores apontam o caso brasileiro como um exemplo de que o fortalecimento da capacidade científica e institucional pode contribuir para manter parte significativa do patrimônio biológico no país de origem.

A situação do Brasil é relativamente positiva quando comparada à de outros do chamado Sul Global. O país foi o que registrou o maior número de novas espécies de mamíferos no período analisado: 133. Desse total, 108 holótipos permanecem em instituições brasileiras, o equivalente a mais de 80%.

Ainda assim, os pesquisadores identificam a permanência da chamada “ciência de paraquedas”, expressão usada para descrever situações em que pesquisadores estrangeiros coletam material científico em países do Sul Global e o levam para instituições de seus próprios países, muitas vezes sem participação equivalente de pesquisadores locais nas etapas posteriores da pesquisa.

Neocolonialismo científico

Mario Moura descreve o fenômeno como uma forma contemporânea de neocolonialismo científico. Ele explica que durante as grandes navegações e o período colonial, era comum pesquisadores estrangeiros coletarem recursos naturais e materiais biológicos nas colônias e levá-los para os países colonizadores. Essas práticas de exploração não ficaram apenas no passado e ainda existem atualmente.

Na ciência, o neocolonialismo ocorre quando relações de poder herdadas do colonialismo continuam presentes na produção de conhecimento. Na área da biodiversidade, isso acontece quando países do Sul Global, apesar de concentrarem grande parte da diversidade biológica, dependem de instituições e pesquisadores de países mais ricos para estudar e conservar seus recursos, enquanto espécimes, infraestrutura, benefícios e autoridade científica permanecem concentrados fora de seus países de origem.

“Embora tenhamos avançado em muitas questões, essas práticas coloniais ainda permanecem nos dias de hoje. Portanto, o necolonialismo científico é essa reprodução de relações de poder historicamente associadas ao colonialismo dentro da produção científica contemporânea”, garante Moura.

Repatriação

Para enfrentar o problema, o estudo propõe medidas em três frentes: governança, infraestrutura e acesso às coleções científicas, especialmente nos países do Sul Global.

Entre as sugestões estão planos obrigatórios, adotados por revistas científicas, para indicar onde os holótipos serão depositados, priorizando instituições próximas aos locais de descoberta.

Também são propostas a criação de fundos para financiar o acesso de pesquisadores do Sul Global a coleções estrangeiras e iniciativas de apoio à pesquisa.

Além disso, o estudo defende investimentos de instituições do Norte Global em museus, coleções e equipes científicas dos países onde os espécimes são coletados.

Morcego-marrom-orelhudo-de-asas-transparentes (Histotus diaphanopterus). Espécie coletada por pesquisadores brasileiros. Holótipo está depositado na Coleção da UFPB.

De acordo com o professor, a repatriação de holótipos pode facilitar a pesquisa nos países do Sul Global, mas, sozinha, não resolve as desigualdades científicas. É necessário também fortalecer museus e coleções locais, formar pesquisadores, financiar infraestrutura e ampliar a autonomia científica, além de adotar alternativas como co-curadoria, empréstimos de longo prazo, duplicação de séries-tipo e digitalização.

Assim, o objetivo não deve ser apenas devolver espécimes, mas garantir que os países de origem da biodiversidade tenham condições de produzir, acessar, controlar e ampliar o conhecimento sobre ela. “A questão não é simplesmente ‘devolver espécimes’, mas garantir que os países onde a biodiversidade está localizada também tenham condições de produzir, controlar e ampliar o conhecimento sobre essa biodiversidade”, conclui.

Sul Global

O chamado Sul Global reúne principalmente países da América Latina, África, Ásia e Caribe, muitos deles com elevada biodiversidade e recursos mais limitados para pesquisa. Cerca de 95% das espécies analisadas eram nativas do Sul Global, com destaque para regiões tropicais de países como Brasil, Madagascar, Indonésia e Peru

O contraste fica evidente ao observar onde os pesquisadores depositaram os exemplares. Instituições do Norte Global mantêm mais de 90% dos holótipos de mamíferos coletados em outros países.

No Sul Global, por outro lado, instituições de outros países mantêm menos de 8% dos holótipos encontrados no território nacional.

Para os pesquisadores, o padrão evidencia uma assimetria que vai além da simples circulação de material científico e está relacionada à distribuição desigual de recursos, infraestrutura e poder científico.

Parcerias

De acordo com pesquisador, a colaboração entre pesquisadores de diferentes países é fundamental para a ciência. Parcerias intelectuais significativas que sejam mutuamente benéficas e respeitem as diferenças históricas e socioeconômicas entre os países são um caminho para cientistas tanto do Norte Global quanto do Sul Global.

“O problema aparece quando essa colaboração é assimétrica, por exemplo, quando pesquisadores estrangeiros realizam pesquisas em países biodiversos, retiram os espécimes, depositam os holótipos em seus próprios países e concentram também a capacidade de revisar e interpretar posteriormente esse material”, explica Moura, que é membro dos Programas de Pós-Graduação em Biodiversidade (PPGBio) e em Ciências Biológicas (PPGCB), ambos na UFPB.

A localização dos holótipos tem consequências práticas para a ciência. Esses exemplares são fundamentais para comparar animais e confirmar a identidade de espécies, inclusive em estudos posteriores e revisões taxonômicas.

Quando um espécime de uma espécie brasileira está em uma coleção estrangeira, por exemplo, pesquisadores brasileiros podem precisar viajar para outro país para acessá-lo, o que aumenta custos e pode atrasar novas pesquisas. Além disso, grandes coleções internacionais dão aos pesquisadores do Norte acesso a um volume expressivo de material de diferentes regiões do planeta.