O biólogo e pesquisador Mário Ribeiro de Moura, professor do Departamento de Sistemática e Ecologia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), investiga a biodiversidade e os processos relacionados à descrição e à conservação das espécies. Em estudo sobre os mamíferos descritos pela ciência entre 1990 e o início de 2025, ele e sua equipe analisaram não apenas a descoberta de 1.116 novas espécies, mas também o destino dos espécimes utilizados como referência para sua descrição, os chamados holótipos.

Na entrevista ao Portal Nossa Ciência, Moura explica a importância desses espécimes para a pesquisa científica e chama atenção para o problema de sua concentração em instituições estrangeiras. O pesquisador discute ainda o neocolonialismo científico, que reproduz desigualdades históricas na produção do conhecimento sobre a biodiversidade, e defende que a repatriação de holótipos seja acompanhada pelo fortalecimento de museus e coleções locais, pela formação de pesquisadores e pelo aumento da autonomia científica dos países do Sul Global.
Conhecemos apenas uma parte da biodiversidade do planeta
Portal Nossa Ciência: A descoberta de 1.116 novas espécies de mamíferos em apenas 35 anos é um alento no que se refere à capacidade da vida se reinventar. O senhor pode falar sobre a pesquisa? Como foi feita?
Mário Ribeiro de Moura: É importante fazer uma distinção: essas 1.116 espécies não surgiram nos últimos 35 anos. Elas são espécies que foram formalmente descritas pela ciência entre 1990 e o início de 2025, mas essas espécies já existiam no planeta, somente não haviam sido formalmente documentadas.
A existência de tantas espécies ainda sendo descobertas mostra, por outro lado, que conhecemos apenas uma parte da biodiversidade do planeta e que há muito a ser documentado, especialmente em regiões tropicais.
Nossa pesquisa procurou entender não apenas onde essas novas espécies foram encontradas, mas também onde foram depositados os espécimes usados para dar nome a elas.
Cada descoberta de uma nova espécie é acompanhada de um material testemunho, que é um espécime que foi coletado na natureza e se torna o representante formal da nova espécie. Esse espécime é um material preservado e ficará depositado em uma coleção biológica ou museu de história natural.
Esse material testemunho pode ser composto por um ou mais espécimes. O principal espécime é chamado de holótipo. Cada espécie nova possui o seu holótipo. É o espécime de referência que fica associado formalmente ao nome de uma espécie e é fundamental para futuras comparações e revisões taxonômicas.
Então, quando um cientista descreve uma nova espécie, ele compara os espécimes dessa espécie com espécimes de outras espécies já conhecidas, de modo a se certificar de que a espécie em questão é, de fato, nova. Logo, os holótipos são espécimes superimportantes em coleções biológicas, sendo frequentemente vistoriados e/ou analisados por cientistas.
O problema aqui é a inacessibilidade desses espécimes. Quando pesquisadores estrangeiros visitam algum país megadiverso, coletam material e levam esse material para fora do país, o material fica praticamente inacessível para os pesquisadores que residem onde foi coletado.
Nas expedições de séculos atrás, na época das navegações, era muito normal cientistas estrangeiros visitarem as nações que eram colônias e coletarem materiais, que eram levados para os países colonizadores.
Essas práticas coloniais, que já sabemos que aconteciam com recursos diversos, como madeira e ouro, também aconteciam com material biológico.
Embora tenhamos avançado em muitas questões, essas práticas coloniais ainda permanecem nos dias de hoje. Essa extração de biodiversidade que uma nação, geralmente rica, do Norte Global, faz em nações estrangeiras, geralmente do Sul Global, é o que chamamos de neocolonialismo.
Não estamos dizendo que toda colaboração internacional seja neocolonial
Portal Nossa Ciência: O que é neocolonialismo científico?
Mário Moura: Portanto, o neocolonialismo científico é a reprodução de relações de poder historicamente associadas ao colonialismo na produção científica contemporânea. Em biodiversidade, isso ocorre quando países que concentram grande parte da biodiversidade, muitos deles no Sul Global, continuam dependendo de instituições e pesquisadores de países mais ricos para documentar, estudar e conservar a biodiversidade, enquanto parte importante dos benefícios, da infraestrutura, da autoridade científica e dos próprios espécimes permanece concentrada fora de seus países de origem.

No nosso estudo, não estamos dizendo que toda colaboração internacional seja neocolonial. A colaboração entre pesquisadores de diferentes países é fundamental para a ciência. O problema aparece quando essa colaboração é assimétrica, por exemplo, quando pesquisadores estrangeiros realizam pesquisas em países biodiversos, retiram os espécimes, depositam os holótipos em seus próprios países e concentram também a capacidade de revisar e interpretar posteriormente esse material.
A questão não é simplesmente ‘devolver espécimes’
Portal Nossa Ciência: A repatriação de holótipos pode ajudar na produção de conhecimento nos países do Sul Global?
Mário Moura: Sim, pode ajudar bastante, mas a repatriação, sozinha, não resolve o problema. O holótipo não é apenas uma peça de museu. Ele é um material de referência fundamental para identificar espécies, comparar populações, revisar classificações e descrever novas espécies. Quando o holótipo de uma espécie de um país do Sul Global está em uma instituição distante, pesquisadores daquele país podem precisar viajar internacionalmente para estudar o material. Quando os recursos para essas viagens são limitados, isso pode dificultar ou até impedir revisões taxonômicas.
Por isso, trazer esses espécimes para instituições próximas às suas regiões de origem pode reduzir uma barreira concreta ao desenvolvimento da pesquisa. Mas precisamos pensar em uma estratégia mais ampla. É necessário também fortalecer museus e coleções científicas locais, formar taxonomistas, financiar infraestrutura e aumentar a autonomia científica das instituições do Sul Global. Nossos resultados mostram justamente que países com maior capacidade acadêmica conseguem reter mais holótipos e são menos vulneráveis à extração desses espécimes.
Há ainda soluções intermediárias e complementares. Quando a repatriação imediata não for possível, podem ser estabelecidos acordos de co-curadoria entre instituições, empréstimos de longo prazo, duplicação de séries-tipo e programas que financiem pesquisadores do Sul Global para acessar coleções estrangeiras.
A digitalização de alta resolução também pode facilitar o acesso, embora não substitua completamente o acesso ao espécime físico, especialmente em estudos morfológicos detalhados. Em última análise, a questão não é simplesmente ‘devolver espécimes’, mas garantir que os países onde a biodiversidade está localizada também tenham condições de produzir, controlar e ampliar o conhecimento sobre essa biodiversidade.










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