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Mal-estar das mestiçagens na sociedade brasileira

Como se deu a construção do povo brasileiro? Recém-lançado pela Editora Unesp, o livro História das Mestiçagens no Brasil, organizado pelos historiadores Mary Del Priore e Gian Melo, investiga o tema complexo da mestiçagem, marcado por conflitos, trocas e resistências que vão muito além da genética. A obra reúne especialistas de diferentes áreas para investigar, com base em ampla documentação histórica, como as mestiçagens biológicas e culturais moldaram a formação da sociedade brasileira.

As discussões sobre identidade, raça e pertencimento ocupam hoje um espaço central no debate público brasileiro. Em meio a interpretações muitas vezes polarizadas, compreender historicamente como se formou a sociedade brasileira torna-se um exercício indispensável.

“Os textos escritos em História das mestiçagens são, antes de tudo, um convite para a reflexão sobre quem somos como sociedade”, afirmam os organizadores. A coletânea contribui para qualificar os debates contemporâneos sobre diversidade, identidade e equidade, mostrando que compreender as múltiplas raízes do Brasil é fundamental para interpretar tanto o passado quanto os desafios do presente. Os autores revelam um Brasil de muitas faces, onde as hierarquias sociais foram constantemente negociadas.

Autores

Gian Carlo de Melo Silva é professor associado dos Cursos de Graduação e Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Também é professor permanente dos Programas de Pós-graduação em História da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e da Universidade Federal de Pernambuco – (UFPE).

Dois capítulos do livro são escritos por professores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Uma reflexão sobre as mestiçagens nos sertões do Norte a partir da trajetória da família de Emerenciana de Jesus, cabra, forra, solteira, moradora na freguesia do Seridó (Séculos XVIII-XIX) é do professor Helder Alexandre Medeiros de Macedo.

O Portal Nossa Ciência conversou com o professor e diretor do Instituto Humanitas da UFRN Alípio DeSousa Filho, autor do capítulo “O paradoxo do mal-estar das mestiçagens na sociedade mestiça brasileira”. DeSousa Filho discute discute as contradições que atravessam a sociedade brasileira diante de sua própria história de mestiçagens.

A partir da crítica ao que denomina “elitismo racista” e “mal-estar das mestiçagens”, o pesquisador questiona as formas de rejeição e apagamento das misturas culturais e sociais que constituem o país. Ao longo da conversa, aborda ainda o papel das classificações raciais na produção de desigualdades e defende uma compreensão histórica e social da mestiçagem, para além de interpretações baseadas em diferenças biológicas.

Paradoxo

Nossa Ciência: No título do seu artigo, você fala em “paradoxo do mal-estar das mestiçagens” em uma sociedade mestiça como a brasileira. Em que consiste esse paradoxo e, sendo a base da sociedade brasileira, por que a mestiçagem pode ser acompanhada de negação ou rejeição?

Alípio DeSousa: Na sociedade brasileira, a recusa das mestiçagens é algo que se verifica no discurso e em práticas de certos setores das elites sociais. Identificamos isso no menosprezo desses setores a práticas de misturas de códigos, valores, corpos, gostos, identificados como hábitos das classes populares, assim como nas atitudes de recusa a misturar-se com pessoas dessas classes nos espaços coletivos públicos; verdadeiras práticas de apartações de classes e pessoas que chamei de “elitismo racista”, pois sempre há, menos ou mais, um ingrediente de racismo nessas práticas.

Em geral, o elitismo racista torna a classe uma “raça” e presumidas “raças” em classes que não devem compartilhar espaços, não devem misturar-se. O paradoxo está em vermos isso em uma sociedade que é constituída pelas misturas de gentes e tradições culturais distintas e, desde o seu início, pela miscigenação que faz do Brasil o país com a maior população mestiça do mundo.

Nossa Ciência:  O livro questiona a ideia de que a mestiçagem possa ser entendida simplesmente como uma característica natural ou biológica da população brasileira. Como a mestiçagem deve ser compreendida enquanto construção histórica, social e política?

Alípio DeSousa: As mestiçagens no Brasil nunca foram apenas um elemento da constituição do tipo antropológico brasileiro, predominantemente um mestiço. Mas também uma estrutura antropológica de base que fundamenta a sociedade brasileira enquanto uma cultura de sincretismos, hibridismos, fusões em comportamentos individuais e coletivos, em seu imaginário social, em códigos e valores morais, o que não quer dizer sempre algo positivo.

Como digo sempre, as mestiçagens existem entre nós para o melhor e para o pior. Mas o que não se pode mais admitir é sua negação, por um esnobismo de classe elitista e racista, que visa afastar as mestiçagens como um “mal de origem” que, para certas elites intelectuais e políticas, atrapalharia a institucionalização da modernidade no Brasil, ou que impede as “separações de classe e de raça” tão almejadas por uma boa parte da sociedade.

As mestiçagens, entre nós, são a base de solidariedades cotidianas, fusões culturais para sempre indissociáveis, uniões entre desiguais, entre outros exemplos. Por isso, torna-se também possível dizer que nossas mestiçagens são um bem cultural a ser preservado, contra o impulso das apartações almejadas pelo racismo ou pelos racialismos equivocados e pelo elitismo de classe.

Classificações

Nossa Ciência: Como as classificações e categorias utilizadas para nomear as pessoas (branco, negro, indígena, pardo ou mestiço) participam da produção das diferenças sociais?

Alípio DeSousa: Nomear alguém de branco, negro, mestiço etc. é identificar pessoas pela cor da pele. Não há problema nisso. O problema é quando se visa estabelecer alguma valoração positiva ou negativa da cor da pele de cada um. Valorações que criam desigualdades e hierarquias nas relações entre as pessoas, produzindo privilégios para alguns e exclusões para outros. É o que o racismo produz, ao estabelecer significados para a cor da pele dos seres humanos, tornando cada uma delas em “raças” inexistentes.

Definitivamente, temos que acabar com a ideia que cor de pele corresponde a alguma raça. A espécie humana é única, não é constituída de raças, e, desde a existência dos sapiens arcaicos, somos mestiços, todos misturados. Estudos atuais de genética e paleoantropologia comprovam isso. Podemos falar de culturas, povos, etnias, variedade linguística, diversidade na cor da pele, mas jamais “raças”. Um termo aplicável apenas a animais não humanos.

Nossa Ciência: O que se perde de vista quando essas categorias históricas são tratadas como se tivessem significados fixos?

Alípio DeSousa: Perde-se de vista  que nenhum ser humano porta na cor da pele algum atributo específico que o define em termos morais, psicológicos ou até mesmo em termos culturais, pois a cor da pele é só superfície, não é o ser de ninguém. O ser social humano é da ordem de uma construção cultural, social e histórica. Somos produzidos, de alto a baixo, em culturas e sociedades, e em épocas históricas. Um branco e um negro não diferem absolutamente em termos morais ou psicológicos; a ideia de alguma diferença por seus traços físicos é uma perversa invenção do racismo.

Parafraseando o poeta Fernando Pessoa, a cor da pele é só um acidente. Hoje, pelo volume de dados das pesquisas em genética, paleoantropologia e história,  sabemos que a cor da pele dos humanos é uma expressão de fatores genéticos, somados a fatores ambientais. A variação da cor da pele dos seres humanos é um fenômeno que tem a ver com a resposta biológica adaptativa do corpo humano à exposição ao sol e para a preservação do folato, vital para o nascimento de bebês saudáveis, tornando-se uma vantagem evolutiva a adaptação mais escura ou mais clara, num gradiente contínuo, de acordo com as migrações pelas diversas regiões do planeta e suas variações ambientais.

Tomar a cor da pele como um significado fixo e identidade da pessoa em termos de seu caráter, modo de ser, personalidade, ou pretender transformar a ideia da “raça” num valor político positivo para inferiorizar o outro ou para propalar uma suposta “superioridade racial” é não apenas uma queda no discurso ideológico é, sobretudo, um atraso em conhecimento científico.

“Mal de origem”

Nossa Ciência: Em entrevista anterior ao Nossa Ciência, você defendeu a necessidade de combater “a ideologia das separações” de classes e de raças. Como o novo livro aprofunda ou desloca aquela reflexão?

Alípio DeSousa: Na coletânea História das mestiçagens no Brasil, organizada pelos historiadores Mary Del Priore e Gian Melo, encontramos trabalhos da pesquisa de diversos estudiosos brasileiros que se debruçaram sobre o fenômeno das mestiçagens na nossa história, situando-o em contextos diferentes e em regiões diversas, o que permite concluir que as nossas mestiçagens existem e nos definem como sociedade, independente da opinião deste ou daquele, malgrado o elitismo racista que as menospreza. Assim, penso que se torna um livro importantíssimo para não apenas estudiosos mas para a sociedade em geral. Um livro que deve chegar às escolas, principalmente no ensino básico, e nas universidades para fazer que se passe a enxergar a sociedade brasileira sem as lentes que maldisseram as mestiçagens desde o período da colonização, mas que, infelizmente, continua a ser utilizadas por professores de hoje.

Como disse em meu livro anterior, toda uma tradição de estudos no Brasil produziu a ideia que as mestiçagens são “um mal de origem” que teria impedido a modernidade e a civilidade aportar no país ou uma mentira para negar o racismo contra a população negra. Uma ideologia que teria produzido o mito da harmonia das raças no Brasil. Nada disso. As mestiçagens não são uma mentira para negar racismo nem impediram a modernidade brasileira. Bem ao contrário, é o menosprezo às mestiçagens, identificadas como “coisa do povo”, que faz que nosso povo seja continuamente desprezado por um elitismo racista (que tem também sua expressão nos preconceitos de pessoas das regiões Sul e Sudeste em relação a pessoas das regiões Norte e Nordeste) e, por esse mesmo elitismo, deixado de fora do desenvolvimento nacional.

Como denunciou lá atrás Manoel Bomfim, se há o que se possa chamar de “atraso” (falta da tal modernidade etc.) nas sociedades latino-americanas, isso se deve exclusivamente às suas elites gananciosas, predatórias, que sempre desprezaram o povo como “incapaz”, “inferior”.  Mas interpretações que cercam nossas mestiçagens de desconfiança e pessimismo continuam circulando por aí, nas escolas e universidades, com todo o charme de “pensamento crítico”. No fundo, os que praticam isso realizam o que eu chamo de um ventriloquismo inconsciente do discurso dos colonizadores que, desde logo cedo, maldisse nossos costumes, nossa gente.

Nossa Ciência: O Brasil costuma ser apresentado, dentro e fora do país, como uma sociedade marcada pela mistura. Essa narrativa pode contribuir para ocultar desigualdades e formas de racismo ou, ao contrário, pode ser reelaborada de maneira crítica para compreender a diversidade brasileira?

Alípio DeSousa: Penso que a imagem do Brasil como um país mestiço não serve para ocultar desigualdades nem racismo. Pelo contrário, como procuro demonstrar no meu livro O menosprezo ao Brasil mestiço  e popular, a recusa das mestiçagens, identificadas como práticas do povo, é que fundou um elitismo de caráter racista que prima pelas apartações de pessoas, classes, nos espaços, na circulação social. Enquanto nosso povo está muito bem em sua própria pele (mestiça), e isto quer dizer, em seu modo de ser, praticante das mas diversas misturas e hibridismos, são certos setores de nossas elites que vivem o mal-estar das mestiçagens.

Um mal-estar identitário, em primeiro lugar, pois é o sentimento negativo de não ser branca, como gostaria ou imagina-se, porque sabe bem que é mestiça como todos os demais da sociedade. Elites que também negam que são praticantes de mestiçagens em códigos sociais, morais, crenças. Disse, em alguma ocasião, que certos setores de nossas elites deveriam buscar o divã para se curar desse mal-estar. Nosso povo não sofre dele; sofre de injustiças e desigualdades perpetuadas por um sistema letal de sociedade perpetuado por elites negadoras do que são.

“Não há ser humano pardo”

Nossa Ciência: Ultimamente, no Brasil, os termos negritude e parditude têm sido apropriados por grupos políticos que se colocam em campos distintos das lutas sociais, embora todos se apresentem como progressistas. Esse tema está nas discussões do livro?

Alípio DeSousa: Não, nenhum autor tratou desses assuntos. Eles não são de interesse. No fundo, um assunto mais ao gosto do que se chama hoje de redes sociais. Dos dois lados, teses mal-fundamentadas, pois o que se chama de parditude vem da ideia que há pardos em maioria no Brasil. Não há ser humano pardo, exceto se for portador de alguma doença estranha que lhe dê cor pele inexistente.

A categoria “pardo” é uma invenção esdrúxula: os órgãos governamentais deveriam permitir que as pessoas assinalassem mestiço onde obrigam que se diga “pardo”. A começar pelo Estado brasileiro, comete-se esse equívoco imperdoável do apagamento da identidade mestiça no país. Pior quando vemos esse apagamento ser aproveitado para inflar o número de pessoas negras na sociedade brasileira, a fazer crer que são maioria no país. Chamei de fraude semiótica o apagamento da identidade mestiça no Brasil. A verdade é que dados do Censo Demográfico 2022, do IBGE, mostram que 45,3% da população do país se declara “parda”; 43,5% declaram-se branca, 10,2%, negra, 0,8% indígena e 0,4% amarela. Conforme esses dados, 92,1 milhões de pessoas (ou 45,3% da população) compõem-se de mulatos, caboclos, cafuzos, morenos, sararás … os mestiços brasileiros, que o órgão oficial do censo demográfico se nega a reconhecer e categorizar em seus levantamentos.

Leia também: “Ou derrotamos a ideologia das separações de classes e de imaginadas raças ou cairemos na barbárie”