Um estudo realizado por pesquisadoras da Universidade Federal do Ceará (UFC) mostra que adolescentes têm mais dificuldade para reconhecer situações de violência psicológica em relacionamentos afetivos do que outros tipos de agressão. A pesquisa também identificou diferenças entre meninas e meninos na percepção de comportamentos violentos e revelou maior dificuldade dos participantes para identificar agressões praticadas por personagens femininas. O trabalho foi publicado na revista Acta Comportamentalia, em março deste ano.
Intitulado Identificação de Comportamentos Violentos em Relações Afetivas por Jovens Brasileiros, o artigo é assinado por Maria Gabriela Cardoso Lira, Daniely Ildegardes Brito Tatmatsu e Liana Rosa Elias, da UFC. As pesquisadoras investigaram como jovens identificam comportamentos violentos em relações amorosas e quais fatores podem influenciar esse reconhecimento. Para isso, selecionaram 80 estudantes de uma escola pública de ensino médio de Fortaleza, com idades entre 14 e 18 anos.
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Os participantes responderam a um questionário com 18 vinhetas, que apresentavam situações fictícias envolvendo relacionamentos entre adolescentes. As cenas variavam conforme o tipo de violência, a idade dos personagens e o gênero de quem praticava ou sofria a agressão. Das 18 situações, 16 apresentavam comportamentos violentos e duas funcionavam como situações de controle. As categorias seguiram definições de violência física, psicológica, moral e sexual.
Violência não identificada
Os resultados mostraram que a violência psicológica foi a forma de agressão menos identificada pelos jovens. Entre os comportamentos analisados estavam situações de xingamento e controle, que podem não produzir marcas físicas visíveis, mas provocam consequências para a saúde mental e para a qualidade dos relacionamentos. As meninas reconheceram comportamentos violentos com maior frequência do que os meninos, especialmente nos casos de violência psicológica e sexual.

A diferença entre os gêneros também apareceu na identificação da violência sexual. Segundo a Agência UFC, os adolescentes do gênero masculino apresentaram maior dificuldade para reconhecer situações de abuso sexual e estupro. Para Lira, “a violência é naturalizada desde cedo”, o que ajuda a explicar por que determinadas agressões podem não ter o reconhecimento dos próprios jovens.
A pesquisadora relaciona parte desse resultado às diferentes formas como meninos e meninas aprendem a lidar com a violência. As adolescentes, segundo ela, podem ter maior contato com o tema por questões relacionadas ao autocuidado e à própria segurança, enquanto os meninos nem sempre participam das discussões sobre violência contra as mulheres. O estudo aponta, assim, que a aprendizagem social e os padrões culturais influenciam a maneira como comportamentos são interpretados.
Banalização da violência
Outro resultado chamou a atenção das pesquisadoras: tanto meninas quanto meninos tiveram mais dificuldade para reconhecer comportamentos violentos quando uma mulher representava a personagem agressora. Para as autoras, esse resultado reforça a influência de expectativas sociais e de gênero na identificação da violência. A pesquisa recorre à Teoria das Molduras Relacionais para discutir como relações aprendidas socialmente podem interferir na interpretação de determinados comportamentos.
A dificuldade em reconhecer a violência psicológica pode contribuir para a banalização desse tipo de comportamento nos relacionamentos entre adolescentes. Embora não apresente necessariamente consequências físicas imediatas, esse tipo de agressão pode envolver controle, humilhação, insultos e outras práticas capazes de afetar autoestima, saúde mental e relações sociais. O artigo destaca que compreender como os jovens identificam essas situações ajuda a desenvolver estratégias de prevenção.
Para Daniely Tatmatsu, a prevenção precisa combinar informação e desenvolvimento de habilidades para que os adolescentes consigam reconhecer e enfrentar situações de violência. “A intervenção em grupo é muito eficaz”, afirmou a pesquisadora à Agência UFC, destacando ações que ensinam os jovens a identificar agressões, estabelecer relações mais igualitárias e encontrar formas seguras de sair de relacionamentos violentos. (Com informações da Agência UFC)










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